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Thursday, September 01, 2011

Por alguma razão o absurdo da vida pode ser explicado

"Toda obra, toda arte, tem como objetivo atingir o momento poético. Ela só acontece na hora em que vibra poeticamente".

"... você toca em algo maior que você, melhor que você, mais bonito que você, é eterno, não é finito, e que te provoca aquela sensação de sentido: minha vida tem um sentido, por alguma razão eu estou aqui, por alguma razão o absurdo da vida pode ser explicado".

"... o que interessa mesmo é a sua vidinha: você não tem mais do que ela. Você não tem mais do que as 24 horas do dia. Ninguém tem mais que isso. E é nessa experiência, pequenininha, miserável, limitada, carente, é que eu vou dar uma resposta ao absurdo da minha existência e do mundo".

"Não quero morrer nunca. De vez em quando eu ainda acredito que eu não vou morrer. Lá no fundo, lá no substrato do microcosmo da alma, eu acredito que não".




Friday, January 14, 2011

... God?











do silhouettemasterpiecetheatre.com

Sunday, June 14, 2009

Corpus Christi

Este final de semana começou mais cedo. Da quinta ao domingo de hoje é verdade que alguns ainda trabalharam na sexta dos Namorados – não sem depois ir ao cinema, jantar e trocar presentes. Mas não foi o Dia dos Namorados que me botou a pensar nesse final de semana prolongado. Muito menos algum tipo de revolta contra feriados não-emendados, pois o trabalho enobrece: vamos então tornarmo-nos mais nobres!

A despeito do tão falado Dia dos Namorados, o que me fez pensar foi exatamente a quinta-feira e as palavras de Saramago.

A menção do boliviano de 33 anos, Fraans Rilles, emigrante ilegal, que trabalhava numa padaria em Gandia (Espanha) me botou a inquietude na cabeça depois de voltar da missa de Corpus Christi.

Eis o episódio de Rilles: sofreu um grave acidente operando uma máquina de amassar que acabou cortando-lhe o braço esquerdo. Como exige a moralidade hipócrita, os patrões tiveram a caridade de levá-lo ao hospital, deixando-o a 200 metros da porta com a importante recomendação

- se lhe perguntassem, que não mencionasse a empresa.

Os médicos ainda pediram o braço para tentar reimplantá-lo. Braço esse que tinha sido atirado ao lixo. E eis o revoltante acontecimento de Fraans.

A quinta de Corpus Christi foi a quinta do Corpo de Deus. E não desmereço a crítica de Saramago sobre o esquecimento do Corpo do Homem. A máxima tão antiga e tão enraizada do enobrecimento resultante do trabalho não faz muito sentido para mim quando ouço as histórias de tantos Rilles sendo martirizados fisicamente ou psicologicamente. Cuidemos do Corpo do Homem – tanto ele braço, pernas, mãos quanto almas, mentes e corações.

O que me pôs a coceirinha incômoda foi o tom sarcástico à religião. E ponho-me a explicar.

Acredito em Deus. Sou católica praticante (embora me recuse a definir-me assim nesse pleonasmo ignorante – a mim, se alguém se diz católico, já deveria deduzir-se que pratique e viva a religião. Senão, muito mais vale a dignidade de caráter de dizer: não tenho religião alguma, ou mesmo um não acredito em Deus).

Desde nova participo das liturgias, ajudo comunidades e não simplesmente “assisto rituais dominicais” (como muitos católicos fazem, confesso), mas procuro contribuir naquilo que acredito fazer a diferença.

Acho engraçado como a idéia da religião ser alienante disseminou-se tão rapidamente entre a elite intelectual e principalmente entre outros que aspiram a ser classificados nessa elite. Entendo até os motivos e sei de exemplos (muitos) que embasem tal coro, mas não deixo de achar curioso o modo como a generalização acaba contagiando uma grande massa. Saramago certamente não faz parte desse grupo, simples reprodutores de discursos alheios. Ele faz seus próprios discursos, e muito bem. O que me incomoda são pessoas que adotam palavras alheias e as reproduzem simplesmente sem terem ao menos um mínimo conhecimento para criticar. Que a mente humana tenha lá suas quedas ou repulsas instantâneas pelas coisas e pessoas, vá lá. Posso entender. Mas me incomoda profundamente quem se faça de alto-falante e simplesmente seja meio e não origem de pensamentos. Que reproduzem opiniões alheias sem nem ao menos terem vivenciado, para só então formar sua própria tese. Que já se botem a lançar a primeira pedra sem terem empreendido qualquer tipo de empirismo e se botem à falação.

A religião católica não é um modelo de perfeição, bem longe disso, e este fato aprendemos desde sempre nas aulas de História. Já ouvi muitas vozes a clamarem pelo sangue derramado nas Inquisições. Joana D’Arc e tantas outras mulheres anônimas levadas à fogueira e que hoje são gritadas em protestos feministas. Grandes cientistas, intelectuais, que tiveram de renunciar à suas grandes descobertas em prol de suas vidas que seriam ceifadas pelas mãos de antigos Papas. Hoje, padres pedófilos que causam indignação.

Não fecho meus olhos e ouvidos a todos esses acontecimentos e não tiro-lhes a relevância, muito menos ignoro a sensação de repulsa que me causam.

-Me envergonham.

Ponho-me a questionar muitas decisões partidas de Roma. Questionar é muito mais digno para mim do que simplesmente abraçar discursos alheios sem refletir sobre eles criticamente. O trabalho de questionamento não deve ser só dirigido ao que lhe causa repulsa, mas também ao que lhe causa a primeira impressão de apreço (e principalmente destas).

Se questiono, então por que sou católica? Tornando a pergunta mais ampla, por que decidi eu ter uma religião? Por que acredito em Deus? Por que acredito em um ente superior utilizado como justificativa em tantas guerras, atentados, matança? Como posso eu, estudante da Universidade de São Paulo, que conhece Galileu, Nietzsche, Bertrand Russell, prender-me a crenças que alguns chamariam de quase-mitológicas? Quero eu a pretensão de reverter as idéias iluministas? Desbancar o "grande progresso" trazido pelo antropocentrismo?

Digo que a religião é uma coisa dos homens e não de Deus, e por isso mesmo passível de falhas (muitas aliás). Dizem que o alto clero é inspirado por Deus e portanto, representam a Sua vontade.

- e para mim essa afirmação é tão verdadeira quanto dizer que o presidente eleito representa a vontade de cada cidadão de seu País.

Nenhum ser humano consegue ser imparcial e imune a defeitos e erros. Nenhum. Pode ser o bispo, o Papa, os fiéis, os ateus, agnósticos, judeus, muçulmanos, eu, você. Ninguém.

A religião é governada por homens. E ponto. O que penso (e você pode discordar de mim), é que Deus não tem nada a ver com os erros dos homens. E eu acredito Nele. Mesmo com guerras, mesmo com as gripes suínas e a fome na África. Mesmo com o já passado discurso bushiano a usar Seu nome em prol de causas e melindres pessoais.

Acredito.

Pode ser que Deus não seja um homem com uma longa barba branca. Pode ser. Pode ser que Deus seja uma mulher. Pode ser. Pode ser que Deus seja mais uma idéia que algum tipo de ente. Pode ser. Pode ser que eu seja aberta demais às possibilidades do que é permitido a uma católica ser. Pode ser.

O ponto é que acredito que mais importante do que definir “o que” ou “quem” seja Deus, é acreditar Nele como a nossa inspiração de querer ser melhor, de olhar ao próximo realmente, de fazermos algo para melhorarmos esse mundo, ou mesmo de simplesmente tornarmos a vida das pessoas próximas a nós mais felizes, alegres e justas. Errando às vezes também, porque não temos a salvadora imunidade às falhas, mas perseverando na tal inspiração que venha de Deus. Seja ele Javé, Emmanuel, Alá...

E por que não sou eu então uma agnóstica? Acho que tenho até um grande potencial para isto, mas o agnosticismo parece-me muito mais uma posição filosófica. Concordar que a questão “Quem ou O que é Deus?” nunca será resolvida, não me explica o sentimento que eu trago dentro de mim. Ser agnóstica não me lembrará que devo amar o próximo quando minhas falhas começarem a ser maiores demais tanto quanto meu ego. E aqui justifico a minha escolha.

Sim, há muitos católicos que não seguem essa máxima. Muitos que estão no poder e que cometem injustiças a torto e a direito podem proclamar-se católicos. Talvez os patrões de Rilles fossem católicos. Denominações importam tanto assim? Talvez devessem importar a uma católica, mas admito que numa realidade em que existem “católicos praticantes” e “católicos não-praticantes”, qualquer denominação tornou-se para mim apenas palavra; nome; signo; desprovido de um significado autêntico. Quanto à semiótica, prendo-me mais aos significados do que aos signos: têm mais valor para mim. A despeito das inúmeras interpretações feitas e manipuláveis das religiões e da Palavra de Deus, estas nem deveriam mais existir quando um homem sabiamente concluiu: “Quando não há amor, há a moral”.

Explica-se: o amor como bem maior é pleno em si mesmo. Não é preciso mais nenhuma regra quando há o verdadeiro amor. Mas quando não há amor, é necessária a moral. Quando o amor não é o estado natural, precisamos das regras e da lei para não matarmos, lesarmos, ferirmos o outro. E isso parece-me verdadeiro e triste quando olho ao redor.

Soa tão fundo dentro de mim quanto o resumo dos dez mandamentos dito por um outro homem: “Amai ao próximo como a ti mesmo”.

Explica-se: o amor como bem maior é pleno em si mesmo. Não é preciso mais nenhum mandamento quando há o verdadeiro amor, pois amando verdadeiramente cumprimos todos os dez. E pronto. Nada mais de interpretações várias a serem utilizadas em favor de ninguém, mas sim uma única prática recorrente a ser cumprida em favor de todos.

Cumpre-se ressaltar: o primeiro homem é Nietzsche; o segundo, Jesus. E eu concordo plenamente com os dois. Sendo este último o Filho de Deus ou não. Acredito que Ele é, mas se algum dia descobrirem que não, minha fé nessas palavras ditas não diminuirão nem um pouco.

Isso eu asseguro-lhes.





Porque quando entrelaço minhas mãos e rezo, não peço para Deus converter alguém ao catolicismo. Apenas peço que me lembre de sempre tentar amar o melhor que puder, e que lembre isso também a mais alguém. Amém.