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Wednesday, April 05, 2017

A Borralheira

O céu quando se tinge de anoitecer, bem no final da tarde. Eu não sei se é a alma ou se é a busca, sinto a urgência de me desvendar bem ali naquele momento. Naquele prazo do céu. Antes de fechar mais um dia e o enigma todo se reorganizar na madrugada do sono e eu já ser outra na manhã seguinte.

Mas aí. O pôr do sol.

E eu ainda não tinha descoberto.

O coração ainda dando coices no tórax.

Por dentro.

Esse cavalo selvagem.

É cansativo. É estranho.

É inconveniente.

Tenho a escrita cansada. As palavras perdidas. As frases curtas, porque minha alma ofega. Não aguenta mais períodos longos. Tem pressa. Tem urgência. Meus dedos são pulmões de fumante. Que exageraram de aspirar a sujeira do grafite dos lápis. Soprando anotações nebulosas no moleskine a tiracolo. Carbono. Se fosse outra composição. Meus dedos estariam com diamantes. Mas apenas coleciono obsessões

pelo inesperado.

E me borrei de carvão.

(dos rabiscos amassados de Junho de 2015)

Monday, October 03, 2016

Leitor

imagem via Zupi


No caminhar é que se faz o caminho
Viver os dias é que constrói vida
Via imaginária que acontece criando 
Quando pensamos que estamos apenas seguindo
Estamos também amando.

Se o que dizem é verdade
Que só há de haver sentido
Se um alguém interpretar
Peço ao universo um olhar atento
Peço que haja na vida um só momento
De alguém olhar minha cara e ler
Tudo aquilo que vem por dentro.



Thursday, September 29, 2016

iubire

Amarello Amor from AMARELLO on Vimeo.

Thursday, April 07, 2016

Pandora


(ou "Me disse aquela menina")

Desde cedo eu quis caber numa caixinha. E ser igual a todo mundo. Porque todo mundo era junto e pra ser junto tinha que ser parecido. Então eu quis caber naquela caixinha. E não cabia de jeito nenhum. Não tinha uma caixinha pra mim. E eu descobri que talvez eu pudesse me embalar feito um presente. Os presentes são únicos e todos gostam deles. Eu queria ser um presente de laçarote e papel bonito. Mas o que tinha dentro daquela caixa de presente eu não queria dar. Pra ninguém. Porque nem eu tive coragem de olhar o que era.

Mas então eu estava em um dilema: jamais descobriria o que tinha na porra da caixinha. Então eu quis. Eu quis oferecer a alguém que aceitasse aquele presente. Desembrulhasse e visse que a caixinha debaixo do papel era um pacote estranho e incomum. Mas mesmo assim, continuasse na coragem de segurar aquela caixinha e abrir finalmente. Abrir e contar pra mim o que era que tinha nela.







- mas no final, ela mesma vai abrir. 
em breve. 
daqui uns meses.

Monday, August 24, 2015

Armadura







Monday, August 10, 2015

Sete

Sabe de uma coisa? Existe muita força naquilo que mais parece frágil. E existe muita fragilidade naquilo que mais parece forte. Porque o mundo todo na verdade é um jogo dos sete erros em que procuramos as falhas no outro quando elas estão alojadas no peito da gente. Sete. Que é também o número de pecados capitais. E o número de amores que a gente terá na vida há de ser um múltiplo de sete. Não que eu seja supersticiosa. A verdade é que é impossível chegar-se aos múltiplos. Se me disserem: tive mais que sete amores nessa vida - duvido. Pra amar setenta vezes sete, só sendo um deus. Ou filho dele.

Friday, June 19, 2015

O mergulhador

Veio desbravar minhas terras antes que eu pudesse saber teu nome. Conheceu meu lar, meu chão, minha terra, as nuvens que estavam sobre a minha cabeça. Provou da neve que despencava por aqui. Alimentou-se da minha comida, inebriou-se com os perfumes que eram meus. Sobrevoou essas águas antes que eu pudesse te alcançar na fronteira do que eram as tuas costas. Sem saber como, vim parar aqui, na tua casa. Depois de cruzar o oceano sem saber que antes você já tinha ultrapassado o meu. 

Quis te ensinar o mundo todo submerso que existe. Te disse que os mundos cobertos pelas águas são menos explorados do que o solo lunar. E quis mergulhar não só nos teus pensamentos, mas naquilo tudo que era você.

Mas esqueci que para conhecer essas profundezas, nem mesmo milhões de tubos garantiriam meu oxigênio. Eu era ingênuo. 

Queria a liberdade de inspirar e expirar. De suspirar. De bufar e de pegar num grande respiro o ar do meu próximo grito. Mas quando se está no abismo do outro, é preciso enxergar a beleza que nos faz prender a respiração. E restar em silêncio.

Eu nunca soube mergulhar.

Tuesday, May 05, 2015

A alpinista

Eu sou aquela que com relutância aprendeu a se apaixonar pela vida mais do que por mim mesma. Eu sou aquela - antes limitada, apequenada pela ditadura do amor próprio - que aprendeu a abraçar sua própria história – sem medo algum. A checar os fins e pormenores. A ir até a beirada do precipício, ultrapassando um pouco o limite do que se é possível e recomendável, e olhar para baixo para conferir se o então seria precipício ou escondia um belo mar. Em todas as beiradas que ousei me debruçar enfrentando a altura, o medo, o vento e o tremor... o então sempre foi penhasco.

Nas primeiras vezes, sempre me entristeci. Achava que minha ousadia e coragem de ter ido até aquele ponto deveria ter rendido algo muito maior do que a frustração e o sentimento de não ter tido a alma abraçada e compreendida. Só ficava o gosto ruim da adrenalina forte, o coração batendo raivosamente, as pernas amolecendo solitárias e desabando o corpo cansado.
Depois mudei. Aprendi a vislumbrar as vistas dos penhascos. Perdi o medo da altura – porque sonhar é ousar subir a montanha.

Ainda assim não me atiro neles. Continuam sendo penhascos. Como sempre, impulsiva e sem medo de seguir o próprio coração, vou até aquela beiradinha do precipício. Pra checar. E os novos penhascos que conheci continuaram doendo e ecoando meu amor no vazio. Mas eu aprendi a admirar a vista e os horizontes que eles me mostravam. Aprendi que enxergar os horizontes daquilo que eu não queria para mim, era de certa forma ter chegado num ponto alto onde era possível enxergar outros caminhos de cima. E dentre esses caminhos, um seria o meu caminho. Aquele que eu escalaria sem medo, como o de costume:

- tentando, insistindo, brigando, errando e esperando a mesma intensidade de volta -

mas ali, em cima do topo, chegando na beirada, eu gritarei mais uma vez meu coração. E será tudo, tudo, menos um eco vazio.

E se eu não encontrar esse mar disfarçado de precipício, a vista fará valer a pena. Porque eu estou aprendendo sempre mais sobre enxergar

nos diversos horizontes

 - aquilo que sou eu

imagem via freepik


Tuesday, December 23, 2014

Correr macio

Dizem que o tempo é como a mão de um escultor que revela a beleza que já existia naquela pedra - rocha bruta e disforme - a cada martelada. Devagar. Caprichosamente. E assim eu me tornei crédula do tempo. Ele faria seu trabalho. O passar dos dias trariam a nitidez mais explícita das coisas do mundo. Com o passar do tempo eu distinguiria facilmente todas as suas formas: perfeitas e imperfeitas. O bem. O mal. O indesejado e o belo. Era preciso esperar as marteladas do tempo no mundo. Marteladas que me dariam a tão almejada: experiência. Passei a esperar pelo dia em que classificaria com uma certeza incisiva, todas as coisas do mundo. O tempo me daria a sabedoria das certezas. Da verdade. Pacientemente aguardei. E quanto mais os dias passavam, quanto mais as horas martelavam, quanto mais eu esperava pela nitidez do mundo, mais disforme tudo ao redor me parecia. O tempo deve estar sendo caprichoso, pensava eu. E aguardava a martelada. O tranco. A lasca que se desprenderia formando algo que eu ainda não podia prever o que seria. O mundo era todo um pedaço de pedra bruta martelado pelo tempo num gesto firme, incompassível, estrondoso. E eu aguardava. Do tempo, só se pode esperar. Aguardar a martelada. Dos segundos, dos minutos, das horas, dos dias, das semanas, dos meses, dos anos, das décadas...


Eu creio no tempo, unidade de medida persistente, que atravessa todas as coisas, viventes e não viventes, existentes e que ainda estão para existir. Eu confio no tempo, na ilusão da passagem do mundo, na miragem que sustenta o progresso, e que nos faz acreditar que caminhamos rumo a algo melhor. Creio no passado, que me oferece a certeza das coisas imutáveis, desafiada pelas lembranças cambaleantes, que o tempo próprio faz questão de borrar. Eu creio na finitude. Eu creio no início. E creio nos recomeços. Eu creio na preciosidade dos momentos. E que os momentos, dos quais o próprio tempo é feito, são o lastro que certifica o nosso respiro.

Friday, November 21, 2014

Pulsa ação

Ilustração de Celina de Guzman


Cada batida é uma lembrança:
A pulsação me recorda de que respiro
Sinto arder o peito por dentro
É o que chamam de

- estar vivo?





Saturday, December 28, 2013

Subversão

No peito há uma dor clandestina
Que não tem licença pra doer

Mas dói.

Tuesday, July 30, 2013

Prazer, desconhecido

ilustração de Simón Prades


Faça da vida um veio
Encontre o meio de se formar
Todo anseio
faz da gente
um mistério a se desvendar

Respire tempestade
Se encha de trovões
Ilumine algum céu escuro e sem estrelas
Depois chore qualquer coisa que signifique
Liberdade

Os limites são medos engessados
Cultive medos
[mas troque-os semanalmente]
Reveze
Não se apegue

Nascemos com a coragem
Aprendemos nossos medos
Temer é a arte da arrogância
de acreditar em nossas próprias previsões
Sobre o futuro
Sobre as consequências
Sobre o que é seguro
Como se tudo soubéssemos
Somos nossos próprios videntes impostores

Ser livre é ser quem se é
Podemos nunca descobrir quem somos

Seja um você
que você ainda não conhece.

Thursday, July 11, 2013

Argos

ilustração de Redmer Hoekstra




Veio a vida e suas veias
Veio o mundo e seus profundos

Vi coragem, medo e luto
Vi vitórias
Vivi

Monday, April 01, 2013

Pensando em meu próprio renascimento na pós-Páscoa

Quando viajei, a melhor coisa é que eu não tinha nada de repente. Entrar em um boeing cheio de despedidas, saudades, lágrimas, expectativas e desembarcar em uma terra sem... nada.

Toda a minha vida de um ano estava ali em uma mala. Pouco. Só o necessário. Dava medo dessa coisa exata demais. E se faltasse?

Mas foi ali, no minimalismo, que eu conheci a
- liberdade

Era eu e uma mala. E só.

Quando eu tinha MENOS, de repente me senti tendo MAIS. Estar em um contexto em que você não possui nenhuma ligação, referência, contato... é como ter a oportunidade de nascer de novo
- lembrando da sua vida passada

É ter a oportunidade de experimentar a ausência total de expectativas em relação a você, a liberdade de poder ser. Só e simplesmente. Autenticamente...
-você.

Fiquei preocupada. Como se isso pudesse ser um sintoma de que talvez tivesse vestido a máscara de uma personagem em minha vida brasileira, e agora - aliviada da fantasia em terras estrangeiras - percebesse o peso do erro. Mas não. No final do ano, eu havia me tornado a mesma de antes para as novas pessoas. Era eu mesma - reconheci e confirmei renascendo exatamente igual. De novo.

Então, qual o peso que eu havia aliviado antes? Se me tornei eu mesma novamente depois desse experimento de "renascimento", o que pesava então?

Medo.

O medo de errar. E de não ser suficientemente boa.
O medo de não bastar.

Puro e simples medo.

A gente devia era se libertar
-de nós mesmos

Thursday, March 14, 2013

Da burrice dos inteligentes

A indiferença vai nos contagiando aos poucos sob o disfarce de uma mente aberta e um espírito livre. Começamos a vitimar nossas vidas, a construir barreiras em nossa interação com os outros: nos encontramos de repente isolados sem ao menos perceber o porquê. Nos tornamos deficientes de sentimento e gentilezas. O mundo diminui de tamanho e o som da nossa própria voz aumenta. Ao invés de ampliar os círculos, reduzimos a órbita para uma trajetória em torno apenas do que já conhecemos - nós mesmos. Então nos consideramos auto-suficientes (por ilusão)

- e isso não me parece nem um pouco inteligente


Como ouvi certa vez de um amigo: tem gente que se acha tão livre e cabeça aberta que não percebe que é um pássaro carregado por ventos de todos os lados. E ventos de todos os lados não faz ninguém voar pra direção alguma - só a rodopiar em voltas infinitas em torno de si mesmo.


(trechos do papo de homem)

Tuesday, March 05, 2013

Alergia

Sempre achei uma idiotice escolher da vida lavar fraldas de pano de um traseiro alérgico a descartáveis. Acreditei que escolher deliberadamente não dormir direito por vários meses fosse loucura. Que querer usar o dinheiro daquela viagem pelo mundo em mamadeiras e em material escolar para os próximos vinte anos fosse atestado de insanidade. E que tudo fazia parte de um enorme clichê burro da humanidade para continuar se reproduzindo.


Mas hoje eu quero ter um filho com você.



Porque eu sei que ele será uma pessoa incrível. E que eu mais você podemos fazer uma pessoa incrível. Juntos.

E porque em toda essa história, eu mesmo me tornaria uma pessoa mais incrível. Seria mais homem. Seria mais forte. Seria mais eu.

Mais um item para a lista de "coisas que só você me faz querer".

Sunday, December 16, 2012

tríade

Na busca incansável e irrefreada pelo imprevisível e pelo impossível, às vezes esquecemos de parar e pensar no que realmente importa. Por vezes olhamos o mundo e tudo que há de errado nele, e tudo que há de mesquinho na política, nos países, na pobreza e na falta de caráter... e vemos as nossas próprias pequenas injustiças do dia a dia. Aquelas que por vezes cometemos sem perceber e também naquelas que cometem conosco. A cada dia se torna mais difícil pensar em meio a esse ritmo desenfreado da busca por sucesso e status.

Difícil alguém que pare para responder a si mesmo - quem é você? o que te faz transbordar? o que te formiga os pés? onde você está?

Estamos acostumados a não pensar e quando pensamos, acabamos focados em nós mesmos - culpa de um ranço de egocentrismo infantil, talvez. Mas esquecemos que muito do que nos molda vem de fora: das circunstâncias em que vivemos, do país e da política que nos governa, do pensamento vigente, da filosofia cotidiana que orquestra nossa agenda e nem percebemos: trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, festa, baladas, futebol e mais trabalho, trabalho...

Não sobra tempo para pensar no Grupo Clarín e sua luta contra a censura de Kirchner, no atentado nos EUA que matou 20 crianças, na vitória do Corinthians, na investigação do envolvimento de Lula no mensalão e no buraco negro 17 bilhões de vezes maior que o Sol descoberto pelos astrônomos...

e questiono:

qual o sentido disso tudo? onde foi que perdemos a noção das coisas? ou nunca na história da humanidade realmente tivemos qualquer noção?

Vi incontáveis menções na timeline do meu Facebook sobre a vitória do Corinthians hoje, mas nenhuma menção ou indignação quanto ao juiz argentino derrubar a liminar que beneficiava o Grupo Clarín... nem mesmo qualquer frase sobre o homem que matou 20 crianças numa escola em Connecticut - ou algo até mesmo mais próximo da nossa realidade: nenhuma reflexão sobre o envolvimento de Lula no processo do mensalão.

Não sou contra a diversão: não torço o nariz ao entretenimento como uma velha carrancuda (dei meus gritos de torcedora assistindo à final) mas continuo sempre a não aceitar a disseminação massiva do entretenimento em detrimento ao enfoque de questões relevantes da nossa vida. Isso é onde estamos - o que de qualquer forma define um pouco do que somos.

Essa postura da grande mídia me incomoda, mas me incomoda mais ainda a posição inerte e alienada de todos nós. Quando foi que nos perdemos? aliás... quando foi que paramos de querer nos encontrar?

Tenho tido preguiça de gente e fome de personalidade. Enjôo de picuinhas e sede de implicâncias astutas. Tédio de falas clichês e empolgação por questionamentos incomuns.

Quanto mais aprendo, troco, duvido e debato, mais paixão tenho de viver, mais curiosidade tenho sobre o mundo ao meu redor, mais entendo que nada sei, mais me empenho em conhecer, em descobrir.

Pode ser uma fase intelectual addicted, mas nada me dá mais tesão ultimamente do que a tríade:

aprender - escrever - debater

e espero não sair tão cedo desse ciclo vicioso.


"Escrevo pra derramar meu excesso. E enquanto escrevo, produzo o dobro. Quadrado vicioso."

Tuesday, December 04, 2012

Gira e gira e non si ferma mai ad aspettare

incredible work of Alexa Meade

















Um cego cheirava uma fruta na feira de domingo no mesmo instante que um bebê aprendia a andar sozinho. Um mendigo morria de frio na calçada e ninguém se importava. Quatro dias sem dormir e uma garota desiludida chorava a primeira decepção - no mesmo instante em que 30 casais chineses casavam ao mesmo tempo e juravam que seria eterno. Enquanto isso todos os políticos do mundo bolavam mentiras convincentes para as próximas campanhas enquanto uma mulher de boa reputação traía o marido trabalhador em segredo. Uma adolescente que engravidou por descuido era alvo de más línguas enquanto no mesmo bairro, um garotão qualquer transmitia AIDS por descuido e inconsequência. Alguém apaixonado compunha músicas novas ao se lembrar de um amor antigo – e sorria. Num bloco de notas, ela escrevia poemas sem destinatários e se orgulhava. Ao mesmo tempo uma guerra desenrolava em algum país do Oriente Médio enquanto novos nomes eram cotados para o Nobel da Paz Mundial. E tudo continuava como sempre foi: o mundo sempre gira apesar de.


Trilha sonora: Mondo - Cesare Cremonini

Tuesday, November 27, 2012

Paralelismos

Walking and reading, that’s Marylin Monroe for you.


Desde sempre, caminho ao mesmo tempo a trilha do mundo e o universo das ideias. Sempre fascinada. Duas realidades distintas que às vezes se mesclam, às vezes se completam, às vezes se motivam. Uma à outra.

Por trás de cada palavra há que haver o gesto; de cada conversa, uma ideia maravilhosa; de cada melodia, um sentimento; de cada jantar preparado, uma singela intenção; de cada ato, um motivo; de cada argumento, uma tentativa de compreensão.

As coisas por elas mesmas não significam nada sem o que dá corpo a elas: as nossas almas

sempre humanas - demasiadamente humanas



Tuesday, November 13, 2012

Alma

imagem via Ramona Ring




Numa noite em que o calor se escondia debaixo das estrelas, apareceu de emboscada após muitos anos. O melhor ataque tem como estratégia o inesperado. E foi no inesperado que, como lobo faminto, invadiu cada cômodo, cada pedaço, cada vazio. Ela tremeu. Revirou na cama como quem se afogava nos lençóis. Urrou. Gritou. Engasgou no silêncio infinito que era o sono eterno dos olhos abertos. E sentiu. O todo do que era a incompletude.

Uma hora. Não bastava. Mais uma hora e meia. Tentava sobreviver à tempestade dentro de si e gostava. Saboreou a contradição ainda por duas horas - ou mais - já não sabia, pois o tempo de repente deixou de existir.

E quando esqueceu exatamente o que era o tempo, foi que conseguiu a liberdade de abandonar o corpo naquela estranha sensação. Num repente era só

-alma