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Friday, October 26, 2012

Talvez algum capítulo qualquer

art by Carne Griffiths

Era um dia difícil, daqueles em que o sol trava batalha com cinzas nuvens, condensação de poluição e desesperanças sublimadas. Não se sabia se era outono ou se era só São Paulo mesmo acordando em mais um dia de concreto e luzes artificiais.

Um cigarro queimava entre dois dedos sinalizados com duas unhas vermelhas descascadas. Era seu árido café-da-manhã habitual. Herança herdada da época em que a humanidade absorveu até os trejeitos das máquinas a vapor: era moderno soltar fumaça. Sinal de tecnologia e refinamento. Hoje, tecnologia era reduzir tudo às mínimas gramas e com fonte de energias renováveis. O trend era ser ecofriendly. Ela tinha nascido na época errada.

De camiseta grande e calcinha, finalizava o visual da manhã com cabelos desgrenhados e olhos fundos em pernas compridas de flamingo. Estava sexy em ser largada: a ousadia de se contrariar a ditadura de baby-dolls e robes de seda.
[foda-se.]
A mão esquerda formigava.

Olhou pro despertador velho. Marcava as cinco e meia. Às cinco e quarenta e cinco acendia o segundo cigarro do dia.

[desodorizador de ambiente.]
Era só isso que a mãe falava nas desagradáveis vezes em que aparecia por ali remexendo em cada rachadura e lasca de tinta descolada das paredes da quitinete alugada. De mau gosto.

Ela achava confortável e lhe bastava. Que fosse limpo quatro vezes por semana e que, claro, tivesse um cinzeiro e uma sacada. E bastava. Neide sabia como ninguém que a praticidade era a única decoração do espaço. Nada de bibelôs, porta-retratos, quadros ou bobeirinhas de quem idolatra o passado, faz da estante um altar e transforma a sala num templo místico da vida pregressa. Ela não tinha passado. Tinha somente o hoje e quem tinha escolhido permanecer nele. Simples. E bastava.

E facilitava o trabalho da Neide na limpeza.

Tomou seu banho rápido com a precisão higiênica de uma enfermeira. Sabonetes antibacterianos eram o seu perfume diário e a sua tranquilidade na batalha contra germes e inimigos ocultos.

Vestiu a camisa e imobilizou-se na saia-lápis finalizada com scarpin. Contornou os olhos desenhando a moldura da seriedade para suas pupilas - 

[que se alguém parasse para reparar, eram de um pouco de doçura perdida.]
A maquiagem era sua pintura moderna de guerra. Suspirou sem sentimento e bateu a porta à chave deixando um recado grudado na geladeira para Neide. E seria o último recado que escreveria dessa vez.

Monday, October 22, 2012

The challenge


Sunday, October 21, 2012

O livro que não se deixava escrever

Carne Griffiths - artist work in ink tea and alcohol
Deitou-se na banheira e deixou-se afundar no líquido com a temperatura ideal. Quente, suave, aquela sensação de não saber mais o que era interno ou externo. A equivalência da temperatura dissolvia o corpo com os sais de banho. O mundo era vaporoso e abafado como um útero.

Se de repente morresse, queria morrer enrugada naquela banheira como um feijão, que num potinho com algodão, foi regado demais e apodreceu. Ela morreria agora. Não de tristeza, mas de puro contentamento e plenitude de quem está na Terra sem missão nenhuma.

Abriu os olhos e já era uma outra era. Conferiu as pontas dos dedos: enrugadas. Fosse um desmaio e acordava já renovada como se tivesse morrido e renascido.

Levantou-se e sentiu o mundo mais pesado. Fora dali, os azulejos pesavam, o vapor do banheiro pesava, o ar pesava, a toalha pesava. Quando se enxugou ela tinha 130 quilos.