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Thursday, April 07, 2016

Pandora


(ou "Me disse aquela menina")

Desde cedo eu quis caber numa caixinha. E ser igual a todo mundo. Porque todo mundo era junto e pra ser junto tinha que ser parecido. Então eu quis caber naquela caixinha. E não cabia de jeito nenhum. Não tinha uma caixinha pra mim. E eu descobri que talvez eu pudesse me embalar feito um presente. Os presentes são únicos e todos gostam deles. Eu queria ser um presente de laçarote e papel bonito. Mas o que tinha dentro daquela caixa de presente eu não queria dar. Pra ninguém. Porque nem eu tive coragem de olhar o que era.

Mas então eu estava em um dilema: jamais descobriria o que tinha na porra da caixinha. Então eu quis. Eu quis oferecer a alguém que aceitasse aquele presente. Desembrulhasse e visse que a caixinha debaixo do papel era um pacote estranho e incomum. Mas mesmo assim, continuasse na coragem de segurar aquela caixinha e abrir finalmente. Abrir e contar pra mim o que era que tinha nela.







- mas no final, ela mesma vai abrir. 
em breve. 
daqui uns meses.

Friday, June 19, 2015

O que me define

Mas o que me define é a soma de todas as permanências.

O que vale a pena é sempre aquilo que fica. Que deixam conosco - (ou será aquilo que levam?) E a gente se entristece. Ou agradece.

Imagem via Sieger Joostens

Tuesday, May 05, 2015

A alpinista

Eu sou aquela que com relutância aprendeu a se apaixonar pela vida mais do que por mim mesma. Eu sou aquela - antes limitada, apequenada pela ditadura do amor próprio - que aprendeu a abraçar sua própria história – sem medo algum. A checar os fins e pormenores. A ir até a beirada do precipício, ultrapassando um pouco o limite do que se é possível e recomendável, e olhar para baixo para conferir se o então seria precipício ou escondia um belo mar. Em todas as beiradas que ousei me debruçar enfrentando a altura, o medo, o vento e o tremor... o então sempre foi penhasco.

Nas primeiras vezes, sempre me entristeci. Achava que minha ousadia e coragem de ter ido até aquele ponto deveria ter rendido algo muito maior do que a frustração e o sentimento de não ter tido a alma abraçada e compreendida. Só ficava o gosto ruim da adrenalina forte, o coração batendo raivosamente, as pernas amolecendo solitárias e desabando o corpo cansado.
Depois mudei. Aprendi a vislumbrar as vistas dos penhascos. Perdi o medo da altura – porque sonhar é ousar subir a montanha.

Ainda assim não me atiro neles. Continuam sendo penhascos. Como sempre, impulsiva e sem medo de seguir o próprio coração, vou até aquela beiradinha do precipício. Pra checar. E os novos penhascos que conheci continuaram doendo e ecoando meu amor no vazio. Mas eu aprendi a admirar a vista e os horizontes que eles me mostravam. Aprendi que enxergar os horizontes daquilo que eu não queria para mim, era de certa forma ter chegado num ponto alto onde era possível enxergar outros caminhos de cima. E dentre esses caminhos, um seria o meu caminho. Aquele que eu escalaria sem medo, como o de costume:

- tentando, insistindo, brigando, errando e esperando a mesma intensidade de volta -

mas ali, em cima do topo, chegando na beirada, eu gritarei mais uma vez meu coração. E será tudo, tudo, menos um eco vazio.

E se eu não encontrar esse mar disfarçado de precipício, a vista fará valer a pena. Porque eu estou aprendendo sempre mais sobre enxergar

nos diversos horizontes

 - aquilo que sou eu

imagem via freepik


Tuesday, November 27, 2012

Paralelismos

Walking and reading, that’s Marylin Monroe for you.


Desde sempre, caminho ao mesmo tempo a trilha do mundo e o universo das ideias. Sempre fascinada. Duas realidades distintas que às vezes se mesclam, às vezes se completam, às vezes se motivam. Uma à outra.

Por trás de cada palavra há que haver o gesto; de cada conversa, uma ideia maravilhosa; de cada melodia, um sentimento; de cada jantar preparado, uma singela intenção; de cada ato, um motivo; de cada argumento, uma tentativa de compreensão.

As coisas por elas mesmas não significam nada sem o que dá corpo a elas: as nossas almas

sempre humanas - demasiadamente humanas



Monday, October 01, 2012

Abstração

imagem via Kelsey Brookes










Quando tinha vontade de não ser, pensava em como seria se não fosse.

O mundo continuaria. Os jornais publicariam as mais bombásticas notícias como sempre. A vizinha tocaria seu piano depois do jantar, regularmente. As novelas seguiriam sua programação normal. As fitas de promessas cairiam dos pulsos - sem aviso prévio. As ciganas continuariam errando suas previsões na leitura de mãos e muita gente continuaria se perguntando "por quê?"

Tudo continuaria igual... como se ela nunca tivesse sido aquilo - que na verdade nunca foi.

Tuesday, September 18, 2012

Me encontre logo, por favor

Eu espero alguém que não desista de mim mesmo quando já não tem interesse. Espero alguém que não me torture com promessas de envelhecer comigo, que realmente envelheça comigo. Espero alguém que se orgulhe do que escrevo, que me faça ser mais amigo dos meus amigos e mais irmão dos meus irmãos. Espero alguém que não tenha medo do escândalo

mas tenha medo da indiferença.

Espero alguém que ponha bilhetinhos dentro daqueles livros que tem certeza que vou ler até o fim. Espero alguém que se arrependa rápido de suas grosserias e me perdoe sem querer. Espero alguém que me avise que estou repetindo a roupa na semana. Espero alguém que nunca desista de conversar

- mesmo quando não sei mais falar.

Espero alguém que, nos jantares entre os amigos, dispute comigo para contar primeiro como nos conhecemos. Espero alguém que goste de dirigir para nos revezarmos em longas viagens. Espero alguém que confie se a porta está fechada e o café desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso. Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros. Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade. Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine. Espero alguém que arrume ingressos de teatro de repente, que me sequestre ao cinema, que cheire meu corpo suado como se ainda fosse perfume. Espero alguém que não largue as mãos dadas nem para coçar o rosto. Espero alguém que me olhe demoradamente quando estou distraído, que goste de me telefonar para narrar como foi seu dia. Espero alguém que procure um espaço acolchoado em meu peito quando cansado. Espero alguém que minta que cozinha e só diga a verdade depois que comi. Espero alguém que leia uma notícia, veja que haverá um show de minha banda predileta, e corra para me adiantar por e-mail. Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar. Espero alguém com uma vocação pela metade, uma frustração antiga, um desejo de ser algo que não se cumpriu, uma melancolia discreta,

- para nunca ser prepotente.

Espero alguém que tenha uma risada tão bonita que terei sempre vontade de fazer graça. Espero alguém que comente sua dor com respeito e ouça minha dor com interesse. Espero alguém que prepare minha festa de aniversário em segredo

- e crie conspiração dos amigos para me ajudar.

Espero alguém que pinte o muro onde passo, que não se perturbe com o que as pessoas pensam a nosso respeito. Espero alguém que vire cínico no desespero e doce na tristeza. Espero alguém que goste de domingo em casa, de acordar tarde e de andar de chinelos, e que me pergunte o tempo antes de olhar para as janelas. Espero alguém que me ensine a me amar porque a separação apenas ensina a se destruir. Espero alguém que tenha pressa de mim, eternidade de mim,

- que chegue logo, que apareça hoje, 

que largue o casaco no sofá e não seja educado a ponto de estendê-lo no cabide. Espero encontrar alguém que me torne novamente necessário.

Friday, December 02, 2011

Nem o céu como limite

Existe um mundão todo no meu peito. Um infinito particular. Bagunçado e caótico. Doido. Louco pra expandir em outro peito, em outra alma, em outra batida de coração. Mas não. Tá aqui sob pressão. Por precaução. Um dia explode e vaza pra outro espírito livre, pra outra mente atenta, pra outro coração ansioso.
(...)
Eu acredito como Clarice, que tudo existe com uma precisão matemática, “com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete (...) O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.”

E pode parecer meio místico, mas acredito que tudo que é, consiste - no seu tempo certo. Nem antes e nem depois. E você atropelou o meu caminho com todas as estrelas na mão. Agora o que eu vejo é só constelação. E um horizonte de um céu

[maravilhoso.

Monday, November 07, 2011

Les enfants

Sempre quando parecia que de repente, os pés perdiam o chão, abaixava devagarzinho por precaução e se estirava ali, onde não se ultrapassava em queda. Invadissem o quarto e veriam um ser estirado no chão a olhar o teto branco, a de repente sentir a percepção de um mundo de gigantismos. Funcionava bem. Era como um desmaio voluntário. Não esperava a obrigação da inconsciência: se largava ali ao solo por uns minutos, por deliberada escolha.

O chão estava ali ainda. Sentia pelas costas. Espalmava os dedos grudando-se no plano. Impensável. Os pés a dizerem que o tinham perdido. Ma che brutta figura! Não se pode nunca confiar nas solas dos próprios pés. Dançarinos atrapalhados. Errantes. E reticentes.

Sabia que isso na verdade era hábito de infância - de quem achava que ao dormir na parte debaixo do beliche, estava era se escondendo debaixo da cama.

A maldição imposta é de que repetirei minha infância até me enjoar de crescer.

Saturday, July 02, 2011

Valse des Monstres

Ressentimento não é mais do que a forma delicada e politicamente correta do rancor.

- eu não. Me declaro sempre rancorosa.
Ressentida é eufemismo refinado demais pra mim.




Comptine d'été n° 17 (Valse des Monstres) - Yann Tiersen

Comptine d'été

Eu tenho medo da minha arrogância. E da minha indocilidade a longo prazo.
Mas preferiria mil vezes mais um livro de auto-domesticação passo a passo do que qualquer teoria barata de auto-ajuda.

Então. Estava falando sobre arrogância...





*resultado da jornada da madrugada: não consegui pregar o olho ou parar de escrever compulsivamente coisas sem nexo nenhum. Nem chá e leite quente ajudaram apesar de todo o cansaço da semana. Espera-se que a situação não piore.

Wednesday, June 01, 2011

Palavra do dia

Acordei no frio preguiçoso da manhã que quer estender a madrugada no travesseiro. Raramente me lembro do que sonhei. Tenho esperanças de que talvez um dia venha a me divertir com todos esses sonhos extraviados e imagino que nas horas finais, ao invés de ver o filminho da minha vida repassando todos os momentos na agonia do fim, eu vá ver tudo aquilo que esqueci ao acordar pelas manhãs. Essa amnésia despertante deve ser porque eu viva muito e sempre de sonhos nas horas impróprias e não sobre muita coisa pro descanso no dormir. Deve de existir uma cota de sonhos para cada vida. E a minha, esgoto-a de olhos abertos.

Hoje de manhã acordei me esquecendo de tudo que vivi nas últimas seis horas de escuridão e curiosamente me veio logo uma palavra na cabeça. Liberdade. Não sei se a você acontece muito isso, mas comigo é até recorrente. Acordar e ter uma palavra na cabeça. Qualquer uma... objeto, verbo, conjunção, adjetivo... Um dia acordei com a palavra 'vidro' na cabeça. Ficava saboreando o fonema engraçado da consoante dupla: vidrrrrro. Parecia que degustava mais a palavra do que o café da manhã. Outro dia acordei com a palavra 'jagunço' e fiquei pensando em como é engraçada. Às vezes acordo com o verso de um poema na cabeça: 'diga trinta e três'. Loucurinhas inexplicáveis que me valem o dia.

Hoje porém a palavra foi meio clichê. Gosto quando acordo com uma palavra exótica tipo 'bromélia', mas o que tinha pra hoje era 'liberdade' mesmo. Chato. Desejo do mercado de luxo das almas do mundo. Ao pronunciar as sílabas sinto só um frescor de hortelã de bala imaginária na língua. LIBERDADE.

Tentei enxotar a palavra como quem espanta um mosquito que insiste em perturbar. Sacudi a cabeça, tentei queimá-la com o secador de cabelos. Palavra inconveniente. Liberdade...

Liberdade do quê?

Eis que comecei meu monólogo maiêutico logo pela manhã antes de tomar minha dose de coragem diária para enfrentar pela milésima vez o caos do metrô de são paulo.

imagem via pekka
Liberdade... Liberdade é escolher aquilo à que vamos nos prender. Porque nenhum homem é livre. Todos somos presos às nossas escolhas. Liberdade é então o luxo de poder decidir ao que estaremos presos. Embora a gente não note, temos todos essa liberdade: o momento em que a vida nos coloca algumas questões para decidirmos ao que nos prender. Percebi muito que essa escolha deve ser feita pelo coração, e como isso é clichê... Existe uma revolta constante contra o clichê como se ele fosse pecado. Fiquei pensando em como a vida nos exige pouco que insistimos em complicar no muito. Parei com o coração na boca enquanto sapateava correndo pra mais um dia igual a todos os outros:

- se for para ser presa, quero o aperto de um nó no punho com um laço eterno que dure uma vida toda.

Suspeitei desde o muito antes: a única coisa que me parece durável por toda uma vida e que parece realmente valer a pena no final das contas são as idéias.

Definitivamente sou o clichê de uma romântica idealista. Eis a minha surpresa. Eis a minha descoberta. E a minha reinvenção.

Pelo menos a de hoje.


Tuesday, May 03, 2011

Comentários na neblina

ou por que cinco anos escrevendo aqui
--


É que eu não consigo deixar de ser feliz sabendo que posso ser importante
- mesmo sendo desnecessária.


imagem via: Dmitry Ligay

E o sou. Para o bem e para o mal.
Sem pieguices ou piedade.
E não posso mentir que o mundo não virou um pouco desnecessário pra mim também
o que é bom:
- tudo o que eu gosto não é porque preciso
mas porque escolho.

O luxo da escolha sempre foi o meu oitavo e exclusivo pecado capital. Aquele no qual enxergo salvação, embora todos digam que o nome desse pecado seja:
- pretensão

--
(e talvez - eu disse só talvez - eles tenham razão)

Saturday, April 23, 2011

Sobre o tapa na cara

Gosto muito de pessoas que se auto intitulam de "bem resolvidas" aquelas pessoas que nunca perdem a calma e vivem sob o lema de "o que tem de acontecer, acontece". Gosto muito de as ver, calmas e serenas, mesmo quando traídas ou magoadas, gosto do estilo com que passam ao lado da fase da raiva nessas etapas denominadas do luto seguindo imediatamente para a aceitação. Adoro quando dizem que "o que quero é que sejas feliz" assim que eles viram costas ou "Estou tão bem assim, sem ninguém a não ser eu própria" a ecoar pela casa enquanto mudam a areia da caixa dos gatos com que vivem (e só). Gosto do ranger dos dentes que só se ouve no silencio, da respiração ofegante quando ficam sós e se dão conta que talvez (talvez) algo esteja errado. Gosto que insistam na felicidade constante, na perfeição e na alegria do dia a dia, sem choro, sem erros, sem nada. Perfeito.

Gosto muito dessa aparente felicidade e a negação de que, quem sabe, todos nós falhamos de vez em quando e todos nós temos o direito em ficar zangados. Dessa camada de verniz de que nada as atinge, nada as magoa e tudo é perfeito. Gosto mesmo muito. Somos tão vencedores...

Gosto que se neguem à raiva, como se ele fosse um sentimento nefasto quando, no fundo, é libertador quando com peso e medida. Gosto quando engolem em seco e sorriem forçosamente, everybody's fine. Continua a convencer-te que está tudo bem.

Gosto mais ainda das lágrimas de sal que mancham as almofadas durante a noite escura e o dia em que rebentam e se tornam - segurem-se - humanas.




Me faltam somente os gatos. De resto...

Saturday, April 02, 2011

Quando a lua virava

Os passos rumaram pra rota já traçada para ser. Engraçado como às vezes a gente instaura regras que seguimos diariamente sem perceber que na verdade são hábitos e manias que surgiram em algum momento e que, para afastar o perigo do nosso próprio pensamento, do nosso questionamento, do nosso olhar crítico, travestimos como obrigaçõezinhas cotidianas que se infiltram e se justificam assim, em rotina. Nesse dia não. As pernas transgrediram compridas o trajeto que era pra ser, só porque tinha se repetido ao longo das últimas três semanas.
Tenho uma mania não justificada de celebridade que não sou, mas que devo ter sido em vidas passadas. Alguém já me disse. Que eu deveria procurar outro alguém que pudesse me contar da minha vida passada, porque aqueles hábitos estranhos não são coisa que se expliquem nessa vida não. Mania de fugir de gente quando a lua virava. Ou era bicho do mato ou gente famosa nas passadas.
Verdade era que precisava semanalmente passar um dia comigo mesma e mais ninguém. Fugir da vida social. Já é rotina antiga marcar encontros comigo mesma. Em segredo. Decido e me convido: essa sexta-feira. E vou esperando ansiosa a semana passar, até chegar o dia marcado e passar minhas horas comigo. Sozinha. A fazer qualquer coisa que queira. O que é absurdo - me disseram. Passear sozinha? Imagine! Isso só para quem não possui alternativas de companhias. Agora, tê-las e preferir passear sozinha? É desdenhar demais!
Parei de comunicar. Se me perguntam onde vou digo que estou saindo com José, Cleide, Lenice... dou-me nomes de alter-ego. Invento vários! Engraçado como querer estar sozinha, mesmo que só por algumas horas,  é tabu dos fortes.
Desisti.
Não dos meus encontros comigo, mas de dizer que vou sozinha e que quero ir sozinha. Mais do que ofender, a recusa de companhia soa como loucura. Ninguém quer estar sozinho. Ninguém pode querer estar sozinho. A sociedade incita o grupo, as interações mesmo que vazias. Polêmica é qualquer manifestação de querer a própria companhia. Ocorre que passam-se anos a distrairmo-nos com interações com milhares de pessoas só para cumprir a regra não escrita da sociabilidade como sinônimo de sucesso. Por distração.
Eu prefiro continuar com meu tabu de encontros semanais e ser chamada de louca. É necessidade.

Em uma sociedade em que as coisas não vão bem, quem se sente totalmente confortável nela me inspira uma certa coisa chamada:
- desconfiança

Saturday, November 06, 2010

Se queres mesmo saber...

.


Existem dois monstros dentro de mim, um bom e um mau. Se quiseres saber qual sou, respondo-te : sou aquele que mais alimentares.


(via: Educação Irracional)
Arte ilustrativa: Jerzy Kolacz via gettyimages
.

Monday, September 27, 2010

A Grande questão - versão simplificada

Eu tenho duas linhas paralelas de pensamento
- bem distantes

entre elas, um abismo fundo, profundo
- buraco negro

e uma voz ressoando uma advertência:

- mind the gap

Thursday, August 26, 2010

O sumiço

Tem certas coisas que eu queria dizer, mas eu não digo. Certas coisas que eu deveria pensar, mas não penso. Porque de repente, justo agora nessa estréia, eu esqueci o próximo ato, a próxima fala. Porque de repente lembrei que rasguei o roteiro por birra e por orgulho. Eu sempre me lembraria. Mas agora eu não me lembro. E tem toda uma platéia observando sem ver. Toda uma platéia invisível a esperar por pelo menos um som que quebre esse silêncio desagradável no palco.

Escuto a sugestão repetida de Bandeira, que cochicha em meu ouvido, e concordo: a melhor coisa a se fazer é tocar um tango argentino.

Thursday, June 24, 2010

a desconhecida

tenho certeza absoluta

de que conheço mais os outros do que esses outros me conhecem.
Se a culpa é toda minha de não ofertar-lhes o entrever...
não sei, não sei,

só sei que tudo isso
esse mundo que pouco conheço e que nada conhece de mim
bem,
isso tudo me faz sentir
sozinha,
sozinha,
sozinha

há tanto tempo, que eu já nem sei

ser estrangeira acaba não sendo tão anormal assim
já estava acostumada a ser alheia na própria pátria

saudades do lar de lugar nenhum...
mas ainda sim
saudades.

Wednesday, February 24, 2010

Dá pra ser?

Era de um lugar onde a vida é apenas uma dentre milhares de condições de existência. A pedra existe e não se pergunta por quê. Existia dentro de sua alma uma espécie de chip que reclamava sempre por respostas. E nessas horas, o que ela queria era só ser uma pedra.

Sunday, February 07, 2010

Bandeirante



Sempre à procura de um exílio daquilo que eu era, eu escolho. Se minhas fronteiras exibem um sinal de perigo, desafio-o. Cutuco com vara curta aquela onça amedrontada dentro de mim. É como se eu vivesse para me irritar.

Acabei no extremo dessa ladainha a encontrar um exílio real, mas oposto:
ao invés de exilar-me de ser quem era, encontrei-me em terras de mim - exilada de tudo o que tinha antes ao meu redor.

Descobri que essas terras de mim nunca tinham sido antes realmente habitadas. Ninguém nem mesmo ousou morar ali por muito tempo nem mesmo pra cartografar a geografia acidentada. Meus olhos correram em volta e sabiam que eu tinha muito trabalho a fazer. Podar árvores selvagens, domesticar cavalos ariscos, e tornar todos aqueles hectares em região habitável. Talvez assim eu mesma tivesse a coragem de morar ali, sem implicar com minhas próprias fronteiras e onças amedrontadas.

E assim parasse de implicar tanto comigo. Por ser assim, uma selvageria bagunçada.