Tuesday, January 10, 2012

Os búfalos

exposicao do Picasso na Gagosian Gallery - via VerdadeVerdadeira


Na aparente calmaria, largou-se entre manadas de búfalos raivosos que descansavam apenas, respirando brutos e ruidosos como se fossem inofensivos. Sentia o perigo rondando e se mantinha tranqüila, em respeito puro, como só os piores riscos são capazes de inspirar. Algo em si aceitava antecipadamente a tragédia, esperando hora a hora; dia a dia; forçando um respirar quase inócuo a transitar suave no peito desassossegado por aquela quietude em suspense.

Havia um sol morno e lento. Pesado e preguiçoso. E não havia brisa. Ou corrente de ar. Nem mesmo qualquer movimento que expandisse o simples arfar torácico dos pesados búfalos raivosos em tranquilidade. O momento preso em teia fina pairava no ar e poderia dissolver-se por nada.

Eles mastigavam. Os búfalos. Comiam e arfavam na pausa de sua raivosidade. E ela ali ao meio. Com gosto de erva doce na língua. Segurava o coração entre os nós dos dedos que nunca estralava e queria ter sentido o incômodo. Desejava a vontade de correr. Os passos para mudar de paragens. O desejo irrefreável da fuga.

Nada veio senão o que permaneceu: um medo respeitoso, tranquilo, com sabedoria de séculos de monges. O medo ousado e preguiçoso. Um tipo de medo que não poderia nunca mais ser chamado de medo.

Olhou atentamente para os bichos, todos muito concentrados em mastigar. Ela descalça sentia nos pés o alimento deles, sentia o cheiro refrescante que espalhava quando ela pisava e esmagava aquele verde. A única cor que tinha cheiro.

Aproximou-se de um dos bichos. Os olhos pequenos demais praquele corpo gigantesco lhe davam o ar selvagem para quem a racionalidade não valia um talo quebrado de vegetação rasteira. Eram puro instinto. Ela esticou o braço devagar em direção. O bicho meneou a cabeça olhando com seus olhos mortos pequenininhos demais praquele tamanho. E bufou. Era importunado na hora sagrada da refeição. Ela tentou mais uma vez o movimento: com mais firmeza e convicção. Tocou o lado do búfalo raivoso e sentiu nas mãos o barulho do arfar do bicho como se fosse o motor de um trator. Ela sentiu o barulho pelos dedos. O único barulho sensorial.

Achou o mundo engraçado e sentiu o infinito todo entrar pelos seus pulmões inflando. Uma falta de ar boa de se sentir. Aflitiva. De repente quis morrer e quis viver - as duas coisas -

[com a mesma intensidade.

Com gosto de erva doce na língua.

Aleatoriedades anotadas


Existe uma faísca divina quando me boto a rabiscar, a criar e a escrever. Penso que o papel e a tinta foram mais úteis aos mortais do que o fogo que nos trouxe Prometeu. Que Zeus descanse em paz com sua labareda: o que eu preciso é só de uma bic e folhas vazias.

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Queria saber escrever poemas. Escrever poemas é filtrar a essência, dizer só o que realmente importa. Depois penso mais um pouco e tenho medo. As palavras pra mim sempre saíram exatamente porque eu não sabia como dizer o que se queria dizer. A partir do momento que eu souber, não me sairá nenhum poema


– e tudo será silêncio.

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Quando se ama e se é amado, o mistério do mundo toma a forma concreta. E mesmo mantendo-se segredo, já não se incomoda com ele: permite-se que continue indecifrável. Prefere-o assim: perto e incompreensível. Uma sabedoria tranqüila toma conta de nós; não temos mais a necessidade de explicações viciantes ou filosofias pretensiosas. Tudo de repente começa a bastar. É uma doçura de contentamento. É quando fazemos as pazes com o universo e com o que há de mais ousado e corajoso em nós.

Sunday, January 01, 2012

New Year's wishlist

Tudo é um misto de erros, acertos e imprevisibilidades. Que meus passos ritmados saibam perder-se em descompassos que ditam o coração, mas que retomem seu caminho confiando sempre que a felicidade maior me encontrará - por mais cética que minha alma tenha sido criada. E que eu sempre acredite na magia daquilo que é inominável - e mantenha essa crença forte quando mais precisar dela.

E que eu erre. Que eu conserte. E que me refaça.

Que eu permita que os sonhos me alcancem, e que me lembre sempre que até a felicidade exige. Que eu tenha coragem sempre de estar presente no batalhão daqueles sedentos por amor, porque é só assim quando se bota em fome que se alimenta a alma.

Que eu possa sempre encontrar novas maneiras de recriar tudo o que for encanto e que a razão finque meus pés no chão, mas nunca limite a minha esperança no inacreditável. Que eu saiba viver leve, alegre, e que continue sempre despertando pra eterna novidade do mundo.

Enfim, que eu não seja moldada somente por pensamentos e lucidez... que eu saiba sempre perder-me pra poder encontrar-me.

E QUE VENHA 2012!!!

Thursday, December 29, 2011

Cuore


Se pudesse, teria um coração conceitual e puro, inchado de bondade. No entanto tinha um coração que não se parecia com os corações de pelúcia que se vendem no Dia dos Namorados nas floriculturas. Tinha era um dínamo cheio de tubos, sangrentos e feios, nojentos como os corações de galinha que se comiam em churrascos.

Era um coração feio que bombeava sangue. Era um trabalhador braçal. Operacional. Com ventrículos, sístoles e diástoles. As tarefas mais elitizadas ficavam mesmo era com a tal de “alma”. Refinada, tão refinada que era invisível. Seu coração nunca tinha visto essa tal de “alma” que, diziam - era quem mandava em tudo, tudo. Ele só continuava na exaustiva tarefa de impulsionar sangue que deveria passar pelas vias maiores até os capilarezinhos. Exigia uma bruta força. Era um trabalho exaustivo. E ele era um trabalhador operacional.

Não lhe incomodava sua fama de ser ligado às mais puras intenções humanas, mas nada disso ele entendia. Esse coração não entendia como pesava em suas costas a responsabilidade toda de carregar os sentimentos em si. Não sabia dessa história e tampouco pensava nisso. Só curtia os momentos inexplicáveis em que acelerava sua árdua tarefa de bombear e, no extremo desse trabalho, sentia um pouco do que era felicidade – se não se tratasse de um infarto. Era uma eterna criança, esse coração. Desde sempre tão exigido, tão cobrado.

Se pudesse, teria um coração conceitual e puro, inchado de bondade e perfeição. Mas ele tinha era um coração de verdade: sangue e músculo – força bruta que teimava em querer acertar. Embora vivesse errando nos entrecompassos. Mas era um coração bom. E assim como errava, acertava também no incrível mistério que é ser mortal, imperfeito e humano;
[demasiado humano.

Tuesday, December 27, 2011

Original reprovado


Na busca por inspiração comecei rabiscando assim: 'uma vez de cada vez'. Matei o texto prematuramente. Já tinha dito tudo.