
Centenas de pensamentos perambulam soltos na rua a esta hora. Milhares de olhares agora recostam-se em travesseiros solitários a olhar o branco do teto, as paredes mudas e uma luz que difusa indireta do abajur. Imaginava os pensamentos invadindo as ruas invisíveis como uma grande passeata, cobrindo o asfalto, adentrando as bocas-de-lobo, escalando prédios enormes e tomando-a de assalto.
Olhava para o céu promissor de estrelas infiltradas atrás de pesadas nuvens cinzas. Promessas não são nada mais do que ilusões manipuladas ou doces paliativos. E assoprava a fumaça cinza de seus pulmões, convicta de que escondia milhares de estrelas ao leve sopro.
Pensar nas coisas causava uma irritação desnecessária. As coisas eram. Ela era sendo. Sempre nunca mesma tanto. A vida que cuidasse do resto. Cuidasse do acaso, dos desencontros e coincidências. Sua tarefa era simplesmente ser a cada segundo. Existir. E isso era tanto.
Dedilhou acordes imaginários. Sentiu a alma vibrar junto com o som. Ela produzia. Sorriu satisfeita. A vida era uma grande música que não acabava nunca. Ela ouvia a confusão das melodias e quase sempre se irritava com perfeccionismo ofendido de regente desobedecido. Ah, aquela mania de controle... ainda causaria indiferença.
As pessoas são atrevidas. Claramente estúpidas e orgulhosas. Ela era claramente uma pessoa. Era? Mediava dois mundos completamente diferentes. O de dentro e o de fora. Era preciso filtrar sempre, lembrava da avó fazendo o café de manhãzinha. O mundo o de dentro não é suportável para ninguém. O compartilhável era raro. Tão raro que virava clichê: era pouco o que havia de realmente importante para ser dito. Quando alguém ligava conjunções, palavras, pontes que tornava o que era inexpressível, dito, todos repetiam como papagaios enjaulados. O clichê é a condição humana.
Sempre havia aquela palavra não dita por existir. Às vezes ela tentava balbuciar numa dificuldade de parto natural. Nada saía. Era uma palavra órfã de som, sequer ainda não existia. Respirava alto irritada. Sentia sempre algo que não ousava deixar-se palavrear. Irritada porque sem palavras, não podia examinar o que era aquilo dela à luz de sua própria compreensão. Tão difícil ser mistério, carregar-se e não saber do que se trata.






