Saturday, November 21, 2009

Remoto controle


Centenas de pensamentos perambulam soltos na rua a esta hora. Milhares de olhares agora recostam-se em travesseiros solitários a olhar o branco do teto, as paredes mudas e uma luz que difusa indireta do abajur. Imaginava os pensamentos invadindo as ruas invisíveis como uma grande passeata, cobrindo o asfalto, adentrando as bocas-de-lobo, escalando prédios enormes e tomando-a de assalto.

Olhava para o céu promissor de estrelas infiltradas atrás de pesadas nuvens cinzas. Promessas não são nada mais do que ilusões manipuladas ou doces paliativos. E assoprava a fumaça cinza de seus pulmões, convicta de que escondia milhares de estrelas ao leve sopro.

Pensar nas coisas causava uma irritação desnecessária. As coisas eram. Ela era sendo. Sempre nunca mesma tanto. A vida que cuidasse do resto. Cuidasse do acaso, dos desencontros e coincidências. Sua tarefa era simplesmente ser a cada segundo. Existir. E isso era tanto.

Dedilhou acordes imaginários. Sentiu a alma vibrar junto com o som. Ela produzia. Sorriu satisfeita. A vida era uma grande música que não acabava nunca. Ela ouvia a confusão das melodias e quase sempre se irritava com perfeccionismo ofendido de regente desobedecido. Ah, aquela mania de controle... ainda causaria indiferença.

As pessoas são atrevidas. Claramente estúpidas e orgulhosas. Ela era claramente uma pessoa. Era? Mediava dois mundos completamente diferentes. O de dentro e o de fora. Era preciso filtrar sempre, lembrava da avó fazendo o café de manhãzinha. O mundo o de dentro não é suportável para ninguém. O compartilhável era raro. Tão raro que virava clichê: era pouco o que havia de realmente importante para ser dito. Quando alguém ligava conjunções, palavras, pontes que tornava o que era inexpressível, dito, todos repetiam como papagaios enjaulados. O clichê é a condição humana.

Sempre havia aquela palavra não dita por existir. Às vezes ela tentava balbuciar numa dificuldade de parto natural. Nada saía. Era uma palavra órfã de som, sequer ainda não existia. Respirava alto irritada. Sentia sempre algo que não ousava deixar-se palavrear. Irritada porque sem palavras, não podia examinar o que era aquilo dela à luz de sua própria compreensão. Tão difícil ser mistério, carregar-se e não saber do que se trata.

Saturday, November 14, 2009

Fato verídico

"Nunca terei pois uma diretriz (...). Resvalo de uma verdade a outra, sempre esquecida da primeira, sempre insatisfeita. Sua vida era formada de pequenas vidas completas, de círculos inteiros, fechados, que se isolavam uns dos outros. Só que no fim de cada um deles, em vez de Joana morrer e principiar a vida noutro plano, inorgânico ou orgânico inferior, recomeçava-a mesmo no plano humano. Apenas diversas as notas fundamentais. Ou apenas diversas as suplementares e as básicas eternamente iguais?

Era sempre inútil ter sido feliz ou infeliz. E mesmo ter amado. Nenhuma felicidade ou infelicidade tinha sido tão forte que tivesse transformado os elementos de sua matéria, dando-lhe um caminho único, como deve ser o verdadeiro caminho. Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Por que tão independentes, por que não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos que não precisavam de passado nem de futuro para existir. Traziam um conhecimento que não servia como experiência - um conhecimento direto, mais como sensação do que percepção. A verdade então descoberta era tão verdade que não podia subsistir senão no seu recipiente, no próprio fato que a provocara. Tão verdadeira, tão fatal, que vive apenas em função de sua matriz. Uma vez terminado o momento de vida, a verdade correspondente também se esgota. Não posso moldá-la, fazê-la inspirar outros instantes iguais. Nada pois me compromete".
Clarice Lispector - Perto do coração selvagem


Nada pois me compromete.

Friday, November 13, 2009

Una battaglia o un carnevale?


Come posso pensare in un'altra lingua? Sono i miei pensieri e miei pensieri sono in portoghese. Lo stesso portoghese di Lispector, Saramago e Bandeira. La lingua che amo, respiro e che sono io.

Io non sono.
I'm not.
No lo soy.



Eu sou.


(straniera di me? Chi sono io? Chi dovrèi essere? Un giorno lo saprò?)

Wednesday, November 04, 2009

Pisar este planeta como quem esmaga uma flor



não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase
(Paulo Leminski)




Hoje fui ver o projeto Ocupação Paulo Leminski no Itaú Cultural. Recomendo para quem quiser respirar um pouco de poesia - a inutilidade essencial. Me apaixonei!

Tuesday, November 03, 2009

Impulso


Anda coragem! ... na frente, que eu sigo logo atrás. Olha eu aqui no teu encalço; segue em frente que eu sou toda passos. Ganho teu impulso no pulo ao qual me jogo


ao mundo.

Wednesday, October 28, 2009

Distúrbio

Talvez
a certeza seja uma tábua a qual fatalmente
nos agarramos em meio ao dilúvio caótico cotidiano...
mas com certeza a dúvida é necessária:
amplia horizontes alarga
nossas mentes a possibilidades
múltiplas, enriquecedoras, interessantes
e que nos fazem
seres humanos - se não melhores - ao menos
menos pretensiosos.

Eu juro que toda vez que venho tentando escrever ou exprimir algum pensamento ele me sai assim: paradoxal, péssimo e auto-anulante. Volto quando disser coisa com coisa.

Sunday, October 25, 2009

look at me


Wednesday, October 21, 2009

Envernizados


De repente caí na armadilha do platonismo de amar um ideal enquanto não fosse possível alcançá-lo. Toda aquela áurea de que se reveste o inalcançável, mal sabia eu, era o mistério a sustentar minha admiração contemplativa e até mesmo minha fúria do desejar.
Quando então as pinceladas concretas da realidade começaram a envernizar aquele sonho tão rogado e implorado

aos deuses,
à sorte,
às simpatias astrológicas
pasmem:

o panorama do quadro esquadrinhava um incômodo friozinho na barriga¹
¹ [vulgo medo]
Mi dispiace, coraggio: sono una ragazza che ha paura!