O céu quando se tinge de anoitecer, bem no final da tarde. Eu não sei se é a alma ou se é a busca, sinto a urgência de me desvendar bem ali naquele momento. Naquele prazo do céu. Antes de fechar mais um dia e o enigma todo se reorganizar na madrugada do sono e eu já ser outra na manhã seguinte.
Mas aí. O pôr do sol.
E eu ainda não tinha descoberto.
O coração ainda dando coices no tórax.
Por dentro.
Esse cavalo selvagem.
É cansativo. É estranho.
É inconveniente.
Tenho a escrita cansada. As palavras perdidas. As frases curtas, porque minha alma ofega. Não aguenta mais períodos longos. Tem pressa. Tem urgência.
Meus dedos são pulmões de fumante. Que exageraram de aspirar a sujeira do grafite dos lápis. Soprando anotações nebulosas no moleskine a tiracolo. Carbono. Se fosse outra composição. Meus dedos estariam com diamantes. Mas apenas coleciono obsessões
pelo inesperado.
E me borrei de carvão.
(dos rabiscos amassados de Junho de 2015)
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Wednesday, April 05, 2017
Monday, October 06, 2014
Wabi-Sabi
![]() |
| imagem de Robert Moses Joyce |
Quem me olha por fora
Acha que estou por dentro
Mas não percebe meu olhar
Parado nas coisas do mundo
A tentar comprovar de fato
Que o mundo é um grande relato
Onde não cabe o meu absurdo.
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Sunday, December 16, 2012
tríade
Na busca incansável e irrefreada pelo imprevisível e pelo impossível, às vezes esquecemos de parar e pensar no que realmente importa. Por vezes olhamos o mundo e tudo que há de errado nele, e tudo que há de mesquinho na política, nos países, na pobreza e na falta de caráter... e vemos as nossas próprias pequenas injustiças do dia a dia. Aquelas que por vezes cometemos sem perceber e também naquelas que cometem conosco. A cada dia se torna mais difícil pensar em meio a esse ritmo desenfreado da busca por sucesso e status.
Difícil alguém que pare para responder a si mesmo - quem é você? o que te faz transbordar? o que te formiga os pés? onde você está?
Difícil alguém que pare para responder a si mesmo - quem é você? o que te faz transbordar? o que te formiga os pés? onde você está?
Estamos acostumados a não pensar e quando pensamos, acabamos focados em nós mesmos - culpa de um ranço de egocentrismo infantil, talvez. Mas esquecemos que muito do que nos molda vem de fora: das circunstâncias em que vivemos, do país e da política que nos governa, do pensamento vigente, da filosofia cotidiana que orquestra nossa agenda e nem percebemos: trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, festa, baladas, futebol e mais trabalho, trabalho...
Não sobra tempo para pensar no Grupo Clarín e sua luta contra a censura de Kirchner, no atentado nos EUA que matou 20 crianças, na vitória do Corinthians, na investigação do envolvimento de Lula no mensalão e no buraco negro 17 bilhões de vezes maior que o Sol descoberto pelos astrônomos...
e questiono:
qual o sentido disso tudo? onde foi que perdemos a noção das coisas? ou nunca na história da humanidade realmente tivemos qualquer noção?
Vi incontáveis menções na timeline do meu Facebook sobre a vitória do Corinthians hoje, mas nenhuma menção ou indignação quanto ao juiz argentino derrubar a liminar que beneficiava o Grupo Clarín... nem mesmo qualquer frase sobre o homem que matou 20 crianças numa escola em Connecticut - ou algo até mesmo mais próximo da nossa realidade: nenhuma reflexão sobre o envolvimento de Lula no processo do mensalão.
Não sou contra a diversão: não torço o nariz ao entretenimento como uma velha carrancuda (dei meus gritos de torcedora assistindo à final) mas continuo sempre a não aceitar a disseminação massiva do entretenimento em detrimento ao enfoque de questões relevantes da nossa vida. Isso é onde estamos - o que de qualquer forma define um pouco do que somos.
Essa postura da grande mídia me incomoda, mas me incomoda mais ainda a posição inerte e alienada de todos nós. Quando foi que nos perdemos? aliás... quando foi que paramos de querer nos encontrar?
Tenho tido preguiça de gente e fome de personalidade. Enjôo de picuinhas e sede de implicâncias astutas. Tédio de falas clichês e empolgação por questionamentos incomuns.
Quanto mais aprendo, troco, duvido e debato, mais paixão tenho de viver, mais curiosidade tenho sobre o mundo ao meu redor, mais entendo que nada sei, mais me empenho em conhecer, em descobrir.
Quanto mais aprendo, troco, duvido e debato, mais paixão tenho de viver, mais curiosidade tenho sobre o mundo ao meu redor, mais entendo que nada sei, mais me empenho em conhecer, em descobrir.
Pode ser uma fase intelectual addicted, mas nada me dá mais tesão ultimamente do que a tríade:
aprender - escrever - debater
e espero não sair tão cedo desse ciclo vicioso.
"Escrevo pra derramar meu excesso. E enquanto escrevo, produzo o dobro. Quadrado vicioso."
aprender - escrever - debater
e espero não sair tão cedo desse ciclo vicioso.
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Tuesday, November 13, 2012
Alma
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| imagem via Ramona Ring |
Numa noite em que o calor se escondia debaixo das estrelas, apareceu de emboscada após muitos anos. O melhor ataque tem como estratégia o inesperado. E foi no inesperado que, como lobo faminto, invadiu cada cômodo, cada pedaço, cada vazio. Ela tremeu. Revirou na cama como quem se afogava nos lençóis. Urrou. Gritou. Engasgou no silêncio infinito que era o sono eterno dos olhos abertos. E sentiu. O todo do que era a incompletude.
Uma hora. Não bastava. Mais uma hora e meia. Tentava sobreviver à tempestade dentro de si e gostava. Saboreou a contradição ainda por duas horas - ou mais - já não sabia, pois o tempo de repente deixou de existir.
E quando esqueceu exatamente o que era o tempo, foi que conseguiu a liberdade de abandonar o corpo naquela estranha sensação. Num repente era só
-alma
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Thursday, June 14, 2012
Momento
![]() |
| Escultura de arame de David Oliveira |
Onde jurava perdão era medo
Onde acusava o medo, contramão
Onde andava a esmo, desatino
Onde estava a loucura, a razão
Onde esperava o frio, vinha o vento
E onde a brisa batia, coração
Onde apertava o peito, desespero
Onde se ouvia o eco, solidão
E perceber que a angústia é momento
E esperar da vida
- direção
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Sunday, May 27, 2012
Wednesday, April 11, 2012
Complexo de Rubik
ou ainda, cogito ergo sum
Em quase todas as vezes que ocorria de repetir o episódio, voltar era parte quase de um despertar assustado de quem dormiu demais e ia acabar perdendo a hora. Corre-se aloucadamente na esperança de retomar o tempo perdido (isso se alguma vez na vida pudemos ter o tempo em posse, para dizer então, que em algum momento o perdemos).
- Uma mente não é como aldeia que se despovoa. Mais fácil ser uma colônia de ursos que às vezes entram em hibernação. Mas que depois acordam e fatalmente urram de novo. Eudaimonia.
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Thursday, November 17, 2011
Travesseiro
Empregamos palavras
Sem ouvir o tom
o som
das vozes que já se calaram
e que falavam bem mais
do que hoje nos dizem as músicas
no rádio.
Mastigamos afetos
Sem degustar o sabor
o torpor
das essências dos abraços
que aconchegam mais além
do que as dores às quais nos apegamos
e às quais nos agarramos
no meio da noite
insone
pra que sintamos que pelo menos
estamos vivos
só porque escorremos
pelos olhos.
Escorri escondida.
Hoje moro no meu travesseiro.
Sem ouvir o tom
o som
e que falavam bem mais
do que hoje nos dizem as músicas
no rádio.
Mastigamos afetos
Sem degustar o sabor
o torpor
das essências dos abraços
que aconchegam mais além
do que as dores às quais nos apegamos
e às quais nos agarramos
no meio da noite
insone
pra que sintamos que pelo menos
estamos vivos
só porque escorremos
pelos olhos.
Escorri escondida.
Hoje moro no meu travesseiro.
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Thursday, September 29, 2011
Desabafo
O problema todo é que eu não tenho timing nenhum com a vida. Sou a garota carente, fofa, inocente, idiota, dependente de cada gesto e aprovação do mundo todo e a vida vai lá me dar umas porradas bem bravas pra parar de ser sonhadora, brega e... canceriana chorona. Daí depois de alguns anos de árduo treinamento e dedicação, viro um protótipo fudido de self-confidence, segura e independentezinha emocionalmente (e isso dá um trabalho dos inferno) e aí a vida fica mandando mensagens aleatórias travestidas de sinais pra eu parar de assustar as pessoas com o "dá-aqui-que-eu-sei-me-virar-sozinha"?
Afinal não é como se precisasse de algum outro tipo de comportamento que me torne MENOS popular. O "i can't relate with 99% of humanity" voltou a vigorar com força e não estamos exatamente fazendo esforços contrários.
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Saturday, July 02, 2011
Solenidade
Descobri que o excesso de saúde adoece e que a polidez impecável é má-educação das piores. Existe uma frieza na perfeição que ofende, arranha, mata qualquer humanidade. Às vezes o descontrole é sinônimo de cuidado e a briga, manifestação suprema da atenção. Quem se importa exige sempre mais de nós. E quem exige mais, é porque é capaz de perder tempo rememorando detalhezinhos e projetando, planejando um futuro do qual quer participar, meter o bedelho, palpitar e insinuar.
O realmente se importar é abrir mão de protocolos, é permitir-se a liberdade da intimidade. A solenidade é arma de quem quer preservar o espaço, é a diplomacia de uma guerra fria em que não há perdedores ou ganhadores: é a imobilidade da indiferença, o reinado da frieza distante.
Na vida, tudo que é estático não é natural. Se não acrescentou ou mesmo desfalcou algo em nós, não paga a conta sequer do arrependimento. Antes a derrota do que o não afetar ou ser afetado. Transformação é conseqüência: significar é dádiva dos atentos.
‘É bom perder-se bem acompanhado’
O que nos faz bem é o que nos inspira.
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Friday, January 28, 2011
Sim?
Existe. Existe uma pergunta que sempre esteve por perto. Como um rosto familiar de um desconhecido, de uma sombra sempre em cena que nunca se faz notar o suficiente para ultrapassar o papel de figurante. Ah, essa pergunta! Sempre rondando, perscrutando, me olhando de canto de olho. Às vezes dava uma piscadela, tentava um charme de longe - nada muito agressivo. Táticas de guerrilha não faziam parte de sua estratégia: logo desvanecia com um incidente qualquer e já não se fazia lembrar, retornava-se desconhecidamente familiar.
Topei-a numa ocasião e dessa vez não passei reto. Não aceitei a passagem que ela me ofereceu para continuar meu caminho ilesa. Me detive. Ela sorriu como se achasse piada do enigma, que comédia! De poucas palavras, sonoreou com uma pontinha de sarcasmo:
- prazer, sou a sua pergunta e ouso propor tornar-me possibilidade.
De acordo com o roteiro eu deveria rir e continuar meu caminho, mas me deu um calafrio de bravura e estou ainda encarando com expressão séria a inalar a fumaça do que é metade coragem, metade loucura. O diretor da peça está a gritar impropérios, palavrões e as maiores obscenidades. Escolho manter a tensão do momento alongando-o com a disciplina da power-yoga. E por enquanto esse trecho termina assim
[com o pulmão embalado em magipack e sem alívio ou catarse nenhuma para afrouxar qualquer nó de marinheiro engenhosamente feito no meio da garganta. O barco esperava ancorado.
imagem: escultura "Girl Babtized In Gold" do finlandês Kim Simonsson
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Friday, December 03, 2010
Declaração de Guerra
De repente nem adianta mais, sabe? O adiante. Adiantar sentimentos, premeditar ciladas, caçar o coração pelos becos desconhecidos. Eu me procuro. Sem saber se é bom o que vou acabar achando. Lá no adiante, no pra frente, no inverno de suores frios. Um dia eu dormi e acordei e então tudo girava. Labirintite? Rodava eu no mesmo labirinto de sempre. Tonta, lúcida, ausente. Aquele desperdício conjunto de gritar o eu. Estamos todos ocupados demais em gritar. Mesmo no silêncio a gente grita. Rasgando por dentro. E acha que é loucura. Eu sei que é sanidade. Porque eu não confio em nada que não grite. Mesmo que grite em silêncio, que grite com outros gritos senão a voz. Que grite com ações, destemperamentos. Que grite em manias. Que grite em gestos, modas, estilos. Que grite em rabiscos, em música, em controle. Tem vezes que não tem como explicar que a felicidadezinha do dia não vem. Deixa o corredor vazio, irrequieto. Eu só quero um isolamento que é estranho além de mim. O necessário é às vezes tão estranho. Chega requerendo, alterando, impondo. Eu sou um animal arisco que não foi devidamente sinalizado. Me olham de início e acham fácil aquele sorriso meigo, ou talvez a quietude dos braços. Entendi que mesmo não querendo eu tenho a necessidade doentia de solidão. Quem me dera fosse extravagância.
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Sunday, November 28, 2010
Dessincronia
![]() |
| Imagem via: Géraldine Georges |
aquilo que era uma vontade terrível
de dividir desesperadamente com alguém
-qualquer um
aquela intensidade toda de vida que chegava de espreita
e assaltava, assediava, urrava
bem no meio da noite tornada então insone
E o que se podia fazer? A vida escolhera bem o meio de uma solidão de madrugada pra coçar a alma
mas não tem ninguém por aí pra ouvir os turbilhões de pensamentos, de samba, de planos, de vontades que eclodiam aos milhares jorrando naquela inquietação nervosa.
Fechar os olhos.
Era só o que se poderia fazer.
Fechar os olhos e esperar que aquela terrível abundância de vida passasse silenciosa.
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