Tenho impressão de que quase tudo mudou
(na verdade, acho que tudo)
Olho ao meu redor como se nada estivesse fora do lugar
Embora reconheça pouca coisa de tudo isso
Eu tento rastrear o passado
Mas o passado apagou as pegadas antigas
Então eu brinco de inventar histórias
Pra preencher as lacunas
Daquilo que eu não deveria estar adivinhando
Eu me distraí
Parei meus olhos em alguma parte do caminho
lá atrás
Perdi meu coração em algum ponto anterior que não sei dizer se foi
aqui ou
acolá.
Eu não tenho tristezas
Só guardo as solidões
Como se fossem feias demais para correrem soltas por aí
resolvo prendê-las aqui
Comigo
E as vivo todas ao mesmo tempo
Pra não esquecer como cada uma tem um jeito particular de doer
E eu gosto que doam.
Eu não tenho tristezas
Essas eu deixo ir embora
Porque se eu não as deixo
Elas ficam
E fazem amizade com as solidões de todos os tipos
E fofocam
Organizam eventos
E até constituem família.
As tristezas eu deixo que corram pra longe
Que se percam
Gosto de exercitar a falta de memória com elas:
(nesse dia fiquei muito triste
mas não me lembro por quê.)
Exercitar o esquecimento é fundamental.
Pra sobreviver
Pra não endurecer demais
(só um pouquinho)
Pra sobreviver a gente tem que esquecer muita coisa
Pra não enlouquecer
a gente tem que abrir um pouco mão de ser são.
Tudo isso eu sei
eu sei.
Mas ainda tenho que aprender a deixar
de tentar adivinhar o script.
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Monday, August 10, 2015
Sete
Sabe de uma coisa? Existe muita força naquilo que mais parece frágil. E existe muita fragilidade naquilo que mais parece forte. Porque o mundo todo na verdade é um jogo dos sete erros em que procuramos as falhas no outro quando elas estão alojadas no peito da gente. Sete. Que é também o número de pecados capitais. E o número de amores que a gente terá na vida há de ser um múltiplo de sete. Não que eu seja supersticiosa. A verdade é que é impossível chegar-se aos múltiplos. Se me disserem: tive mais que sete amores nessa vida - duvido. Pra amar setenta vezes sete, só sendo um deus. Ou filho dele.
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Monday, July 08, 2013
As marcas de expressar

Eu me sinto assim às vezes...
como se o início já fosse tarde demais
como se eu fosse uma jovem moça
com um vestido muito, muito antigo
Aquela sina de sobreviver somente quando me deixo ser possuída pela minha própria voz
- escrever
Mais assustador ser possuído por si mesmo do que por qualquer coisa que venha
- de fora
Dou passos, rodopio, na busca de adivinhar minha própria música com os pés
- dançar
Mais arriscado apostar em um passo em falso quando se corre atrás de si mesma
- acompanhar
Eu me sinto assim sempre...
como se o fim já fosse agora mesmo
como se eu fosse uma senhora idosa
com um rosto muito, muito novo
- minhas pupilas não têm idade
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Monday, April 01, 2013
Pensando em meu próprio renascimento na pós-Páscoa
Quando viajei, a melhor coisa é que eu não tinha nada de repente. Entrar em um boeing cheio de despedidas, saudades, lágrimas, expectativas e desembarcar em uma terra sem... nada.
Toda a minha vida de um ano estava ali em uma mala. Pouco. Só o necessário. Dava medo dessa coisa exata demais. E se faltasse?
Mas foi ali, no minimalismo, que eu conheci a
- liberdade
Era eu e uma mala. E só.
Quando eu tinha MENOS, de repente me senti tendo MAIS. Estar em um contexto em que você não possui nenhuma ligação, referência, contato... é como ter a oportunidade de nascer de novo
- lembrando da sua vida passada
É ter a oportunidade de experimentar a ausência total de expectativas em relação a você, a liberdade de poder ser. Só e simplesmente. Autenticamente...
-você.
Fiquei preocupada. Como se isso pudesse ser um sintoma de que talvez tivesse vestido a máscara de uma personagem em minha vida brasileira, e agora - aliviada da fantasia em terras estrangeiras - percebesse o peso do erro. Mas não. No final do ano, eu havia me tornado a mesma de antes para as novas pessoas. Era eu mesma - reconheci e confirmei renascendo exatamente igual. De novo.
Então, qual o peso que eu havia aliviado antes? Se me tornei eu mesma novamente depois desse experimento de "renascimento", o que pesava então?
Medo.
O medo de errar. E de não ser suficientemente boa.
O medo de não bastar.
Puro e simples medo.
A gente devia era se libertar
-de nós mesmos
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Thursday, March 14, 2013
Da burrice dos inteligentes
A indiferença vai nos contagiando aos poucos sob o disfarce de uma mente aberta e um espírito livre. Começamos a vitimar nossas vidas, a construir barreiras em nossa interação com os outros: nos encontramos de repente isolados sem ao menos perceber o porquê. Nos tornamos deficientes de sentimento e gentilezas. O mundo diminui de tamanho e o som da nossa própria voz aumenta. Ao invés de ampliar os círculos, reduzimos a órbita para uma trajetória em torno apenas do que já conhecemos - nós mesmos. Então nos consideramos auto-suficientes (por ilusão)
- e isso não me parece nem um pouco inteligente
Como ouvi certa vez de um amigo: tem gente que se acha tão livre e cabeça aberta que não percebe que é um pássaro carregado por ventos de todos os lados. E ventos de todos os lados não faz ninguém voar pra direção alguma - só a rodopiar em voltas infinitas em torno de si mesmo.
(trechos do papo de homem)
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Sunday, January 27, 2013
Indomável
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| escultura via Shintaro Ohata |
"Não é porque se sabe de uma coisa que se pode impedi-la; mas temos pelo menos as coisas que averiguamos, se não entre as mãos, ao menos no pensamento, e ali estão à nossa disposição, o que nos inspira a ilusão de exercer sobre elas uma espécie de domínio."
Marcel Proust
No caminho de Swann - pg. 372
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Sunday, December 16, 2012
tríade
Na busca incansável e irrefreada pelo imprevisível e pelo impossível, às vezes esquecemos de parar e pensar no que realmente importa. Por vezes olhamos o mundo e tudo que há de errado nele, e tudo que há de mesquinho na política, nos países, na pobreza e na falta de caráter... e vemos as nossas próprias pequenas injustiças do dia a dia. Aquelas que por vezes cometemos sem perceber e também naquelas que cometem conosco. A cada dia se torna mais difícil pensar em meio a esse ritmo desenfreado da busca por sucesso e status.
Difícil alguém que pare para responder a si mesmo - quem é você? o que te faz transbordar? o que te formiga os pés? onde você está?
Difícil alguém que pare para responder a si mesmo - quem é você? o que te faz transbordar? o que te formiga os pés? onde você está?
Estamos acostumados a não pensar e quando pensamos, acabamos focados em nós mesmos - culpa de um ranço de egocentrismo infantil, talvez. Mas esquecemos que muito do que nos molda vem de fora: das circunstâncias em que vivemos, do país e da política que nos governa, do pensamento vigente, da filosofia cotidiana que orquestra nossa agenda e nem percebemos: trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, festa, baladas, futebol e mais trabalho, trabalho...
Não sobra tempo para pensar no Grupo Clarín e sua luta contra a censura de Kirchner, no atentado nos EUA que matou 20 crianças, na vitória do Corinthians, na investigação do envolvimento de Lula no mensalão e no buraco negro 17 bilhões de vezes maior que o Sol descoberto pelos astrônomos...
e questiono:
qual o sentido disso tudo? onde foi que perdemos a noção das coisas? ou nunca na história da humanidade realmente tivemos qualquer noção?
Vi incontáveis menções na timeline do meu Facebook sobre a vitória do Corinthians hoje, mas nenhuma menção ou indignação quanto ao juiz argentino derrubar a liminar que beneficiava o Grupo Clarín... nem mesmo qualquer frase sobre o homem que matou 20 crianças numa escola em Connecticut - ou algo até mesmo mais próximo da nossa realidade: nenhuma reflexão sobre o envolvimento de Lula no processo do mensalão.
Não sou contra a diversão: não torço o nariz ao entretenimento como uma velha carrancuda (dei meus gritos de torcedora assistindo à final) mas continuo sempre a não aceitar a disseminação massiva do entretenimento em detrimento ao enfoque de questões relevantes da nossa vida. Isso é onde estamos - o que de qualquer forma define um pouco do que somos.
Essa postura da grande mídia me incomoda, mas me incomoda mais ainda a posição inerte e alienada de todos nós. Quando foi que nos perdemos? aliás... quando foi que paramos de querer nos encontrar?
Tenho tido preguiça de gente e fome de personalidade. Enjôo de picuinhas e sede de implicâncias astutas. Tédio de falas clichês e empolgação por questionamentos incomuns.
Quanto mais aprendo, troco, duvido e debato, mais paixão tenho de viver, mais curiosidade tenho sobre o mundo ao meu redor, mais entendo que nada sei, mais me empenho em conhecer, em descobrir.
Quanto mais aprendo, troco, duvido e debato, mais paixão tenho de viver, mais curiosidade tenho sobre o mundo ao meu redor, mais entendo que nada sei, mais me empenho em conhecer, em descobrir.
Pode ser uma fase intelectual addicted, mas nada me dá mais tesão ultimamente do que a tríade:
aprender - escrever - debater
e espero não sair tão cedo desse ciclo vicioso.
"Escrevo pra derramar meu excesso. E enquanto escrevo, produzo o dobro. Quadrado vicioso."
aprender - escrever - debater
e espero não sair tão cedo desse ciclo vicioso.
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Wednesday, November 14, 2012
Fugere populus
“Nos solitários cânions da cidade moderna, não existe emoção mais estimada que o amor.
Entretanto não se trata do amor que a religião fala, é uma variedade mais ciumenta, restrita e no fim mais mesquinha. É um amor romântico que nos põe em uma busca maníaca de uma única pessoa em particular que nos dispensará de qualquer necessidade por gente em geral.”
Alain de Botton
Alain de Botton
...
O envolvimento usual entre duas pessoas parece causar uma crescente solidificação de identidades. Quanto mais eles se conhecem, mais excluem outras possibilidades. Fecham espaço para surpresas e ainda tem a coragem de reclamar disso ao fim: “Não dava mais, acabei. Era tudo muito previsível, parou de me surpreender…”.
Desenvolvemos um padrão de relacionamento com o outro, começamos a surgir de um único jeito, começamos a vê-la de um único jeito e, quando menos percebemos, nunca mais desconfiamos de que talvez o outro seja muito mais do que aparece para nós, de que outros a ativem de outro modo, de que ela encarne outros personagens com outras risadas, outras piadas, outros olhares, outros gestos.
Gustavo Gitti
...
Existe uma multiplicidade que não se deixa ver ou não se deixa conhecer sem o esforço dedicado de uma percepção atenta do outro.
Alguns percebem apenas um lado e querem matar todas as outras identidades, acabando com uma pessoa mutilada do lado. Quem quer uma personalidade inteira, tem que lidar com um exército diferente de identidades diversas de um mesmo indivíduo. Ou senão amarga do próprio veneno: acaba azedando, se entediando e perdendo a oportunidade de conhecer verdadeiramente um universo interessantíssimo - que permanecerá sem ser desvendado para todo o sempre.
Fatalidades acontecem. Aprendamos com elas.
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Wednesday, November 07, 2012
Sobre mudanças
A maioria das pessoas tem medo de mudanças...
eu tenho é medo de que as coisas nunca mudem.
eu tenho é medo de que as coisas nunca mudem.
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Thursday, June 07, 2012
Parejas
para toda mazela, quimera
para todos os vícios, indícios
para todo exagero, despeito
para todo descaso, o ocaso
para toda uma vida
amor
?
para todos os vícios, indícios
para todo exagero, despeito
para todo descaso, o ocaso
para toda uma vida
amor
?
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Onde?
longe se vai
sonhando demais
-mas onde se chega assim?-
vou descobrir
o que me faz sentir
eu...
sonhando demais
-mas onde se chega assim?-
vou descobrir
o que me faz sentir
eu...
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Wednesday, April 11, 2012
Complexo de Rubik
ou ainda, cogito ergo sum
Em quase todas as vezes que ocorria de repetir o episódio, voltar era parte quase de um despertar assustado de quem dormiu demais e ia acabar perdendo a hora. Corre-se aloucadamente na esperança de retomar o tempo perdido (isso se alguma vez na vida pudemos ter o tempo em posse, para dizer então, que em algum momento o perdemos).
- Uma mente não é como aldeia que se despovoa. Mais fácil ser uma colônia de ursos que às vezes entram em hibernação. Mas que depois acordam e fatalmente urram de novo. Eudaimonia.
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Friday, September 30, 2011
Looking across the water
'well, sometimes I go out by myself
and I look across the water'
Repara.
... and I look across the water
Valerie - Amy Winehouse
and I look across the water'
Repara.
... and I look across the water
Quem já olhou através, sabe o que isso quer dizer. Sabe quando a alma inunda os olhos e a escolha é não deixar escorrer? Por algum motivo você retém um oceano de qualquer coisa entre as pálpebras e... olha através da água. E engole o espírito. E respira fundo. E vaza pra dentro.
Eu sei. E ainda é bonito.
Valerie - Amy Winehouse
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Wednesday, September 28, 2011
Um pouco de ignorância
"Há muitas coisas que quero, de uma vez por todas, não saber. A sensatez estabelece limites mesmo ao conhecimento"
Nietzsche, O Crepúsculo dos Ídolos
Desenvolto um transtorno obsessivo em experimentar, em descobrir e em saber, fica difícil tentar abandonar o hábito. Mas é fato que nem todas as coisas da vida merecem ser experimentadas e mesmo conhecidas. Compreensível a fome de querer saber tudo. Mas se não for construído um filtro, as coisas todas não farão sentido algum dispostas assim, sem critério. É difícil, mas a velha história de que não se pode ter tudo valida o pensamento de que se tenha que escolher o aquilo que nunca teremos na vida. E talvez seja essa a liberdade: a de se poder escolher o que nunca saberemos e o que nunca viveremos.
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Friday, August 26, 2011
Ponto final da discussão insone
O que é o tempo?
O tempo é só um ponto de vista dos relógios
.
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Friday, July 08, 2011
Montanha Russa
Toda teimosia é uma persistência inconveniente. Insistir é acreditar que em todo novo segundo há uma chance – os teimosos são os que acreditam nisso tão plenamente que elevam o otimismo ao patamar do transtorno obsessivo compulsivo.
Um pouco irritante conversar com alguém de otimismo arraigado. A síndrome de Pollyanna cheira a morfina e pra mim, o melhor remédio é a imersão e não a fuga. Tem alegria pra hoje? Viro criança feliz e bebo até o último gole do dia liquefeito em sorrisos e gargalhadas. Só temos tristeza pra hoje? Tranco-me no calabouço mais escuro de mim e escorro todo pessimismo degustando gota a gota daquilo amargo, saboreando a pontada na alma, atenta a toda variação de soluços que minha garganta é capaz de emitir. Faço questão de aproveitar o tudo do nada e o vazio do pleno.
Anestesiar enquanto a vida é tão curta? Não pensaríamos sequer em fazer isso se percebêssemos que felicidade e tristeza são apenas variações ascendentes e descendentes de um estado de espírito. Permanecer no ponto médio, em linha reta: - é a inércia. Pra que haja o elevamento da potência do espírito, deve haver o rebaixamento – por alteridade. Me ofereçam merthiolate mas nunca um tranqüilizante. Me dou ao luxo da descida em alta velocidade só pelo prazer do impulso na subida.
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Thursday, July 07, 2011
Placebo
A imparcialidade cobra caro. Não acreditar em uma verdade única não significa que se possa permanecer impune da escolha de algumas verdades que se deva ajuntar pra que a vida tenha ao menos um senso harmônico. Tudo que existe é matematicamente arquitetado. Probabilidades existem para serem calculadas e no final, toda possibilidade um dia vira um resultado exato com seus decimais desnecessários.
Certas coisas são inescapáveis. É nas fatalidades que a vida exercita a sua ironia.
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La Finestra
imagem via: cristianelisbôa
Beleza é enxergar significado em todo inexplicável da vida, trabalhar detalhes insignificantes, moldar ausências e lapidar silêncios. Porque o segredo não é preencher vazios, mas transformá-los em janelas. Ninguém pode dar uma chance a alguém senão a si mesmo. Existe sempre o pior castigo que é o imposto de dentro. Toda real prisão é decretada na solidão do eu. E só quem há de ter a chave é o carcereiro - aquele mesmo que está preso. Por não saber como criar janelas.
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Saturday, July 02, 2011
Criação
De repente, modelo silêncios. O que é mais importante do que o que se escreve, é aquilo que não se escreve. O que se deixou de escrever é aquela parte obscura que só sabe aquele que riscou parágrafos ou até mesmo páginas completas. E talvez essa seja a parte mais importante: o que se escolheu não dizer. Não por covardia, mas por opção de criação. Escrever é brincar um pouco com o poder.
- uma forma primitiva e pífia de poder, mas ainda, poder
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Ingenuidade
Não precisamos de grandes transformações. São as pequenas revoluções diárias e cotidianas que causam os impactos maiores: aquelas que se enraízam invisíveis como sementes em terra descampada e de repente surgem fortes e verdes, abarcando tudo com sua enorme sombra e frondosos ramos que barram ventos de todos os litorais. O espalhafato é alarde, recurso desesperado de publicidade para compensar a lacuna de propriedade. A melhor revolução e também a mais perigosa é aquela que nasce sem ritual de anunciação, aquela que cresce aos poucos e se faz notar quando já é irremediável.
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Se medica a insônia, a ansiedade, o pânico, se remedia a tristeza. Não se dá nunca atenção ao incômodo - simplesmente se extermina o indesejável. E se anestesia o espírito, e se negligencia a fala. A dor, quando sincera, emburrece. Só encontramos a serenidade quando o que desejamos não nos interessa mais. Desejar é o paradoxo platônico, o placebo da inquietação, a ilusão temporária ou eterna da experienciação. Se alcanço, já não desejo – possuo. O desejo tem por objetivo final a auto-aniquilação no realizável. Desejar é somente motivacional. É encanto. É alteração da polaridade da potência do espírito. E o paradoxo somente por ser paradoxo é que é possível, porque a vida exige alteridade e exige transição. E talvez, só talvez, o movimento da vida não seja nem progressivo, tampouco linear – mas cíclico. A necessidade somente do movimento injustificado, somente por mover, por transitar, sem o porto do “aonde”. Torturar-se por não saber em qual direção se está indo seria então inconcebível. E ilógico. Mas a contradição é a ironia de toda linha do pensamento que de repente risco sem disciplina: desconfio tanto do que faz sentido por demais. Sempre imagino que não se teve a coragem do aprofundamento no abismo. Boiar em águas mornas aonde o sol bateu à tarde. Não acredito em nada do que me chega convincente em pensamentos gratuitos da madrugada e que me assaltam descaradamente. E não tenho mais o tempo de épocas passadas para moldar um nexo entre isso ou aquilo: externalizar e já basta. O suficiente para manter o mínimo de sanidade. Desleixadamente garrancho letras e frases em papel barato e avulso pela necessidade e urgência daquela hora. Reluto depois em jogar fora: não consigo. Dobro-os então com remorso. Abandono com carinho em algum banco público. A esperança de encontrar eco mesmo em possibilidades remotas de leituras improváveis. Ou ao menos que joguem no lixo o que me faltou coragem para fazê-lo. E isso já é prepotência ou egoísmo. Ou pode ser simplesmente ingenuidade.
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Às vezes confundimos sabedoria com prevenção. Existe uma aura mística em torno da sabedoria como se ela fosse a bola de cristal pronta para revelar o futuro, prever a próxima catástrofe, evitar a mazela seguinte. Como se a adivinhação fosse o elixir da segurança. Quando na verdade seria o homicídio daquilo que resiste encantador na vida. O imprevisível só é adorno para corajosos ou em alguns outros casos, para os entediados.
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