Desde cedo eu quis caber numa caixinha. E ser igual a todo mundo. Porque todo mundo era junto e pra ser junto tinha que ser parecido. Então eu quis caber naquela caixinha. E não cabia de jeito nenhum. Não tinha uma caixinha pra mim. E eu descobri que talvez eu pudesse me embalar feito um presente. Os presentes são únicos e todos gostam deles. Eu queria ser um presente de laçarote e papel bonito. Mas o que tinha dentro daquela caixa de presente eu não queria dar. Pra ninguém. Porque nem eu tive coragem de olhar o que era.
Thursday, April 07, 2016
Pandora
Desde cedo eu quis caber numa caixinha. E ser igual a todo mundo. Porque todo mundo era junto e pra ser junto tinha que ser parecido. Então eu quis caber naquela caixinha. E não cabia de jeito nenhum. Não tinha uma caixinha pra mim. E eu descobri que talvez eu pudesse me embalar feito um presente. Os presentes são únicos e todos gostam deles. Eu queria ser um presente de laçarote e papel bonito. Mas o que tinha dentro daquela caixa de presente eu não queria dar. Pra ninguém. Porque nem eu tive coragem de olhar o que era.
Saturday, October 05, 2013
Napoleão
Monday, September 23, 2013
Complô
Tuesday, February 05, 2013
O continuista
"Lógico que tem continuação. O seu erro de sempre é ser um escritor que se acha cineasta. Aqui não é Hollywood, meu bem. Aqui é a terra de Hemingway, onde se pergunta eternamente por quem os sinos dobram. Aqui o único epílogo aceito é o epitáfio. Você continua sim a escrever história sem saber. E é melhor o fazer sabendo. É melhor seguir sabendo."
Friday, July 27, 2012
Metal
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| imagem via: Stephen Criscolo |
Tuesday, August 23, 2011
Happy Hour
Tuesday, June 14, 2011
Do que se ouve com olhos
Friday, November 26, 2010
Caprichos
![]() |
| imagem via: zupi.com.br |
Tuesday, October 26, 2010
Na soleira da porta

Sunday, October 24, 2010
Pessoa
Friday, October 22, 2010
Você suporta?
Thursday, October 21, 2010
Bigodes

Tuesday, October 12, 2010
O grito raivoso da existência
ou existir é se chamar

Monday, December 21, 2009
No varal
Eu gosto de organizar as coisas naquele fio bem esticado e linear. Vou pendurando tudo, botando ordem - se o importante nasce na direita ou na esquerda? - e assim categorizo tudo naquela suspensão existencial de pregadores coloridos.
Me deixa feliz a ordem das coisas, uma sucedendo a outra assim tão perfeitamente como só as fileiras podem ser. Uma coisa de cada vez, cada vez com sua coisa.
Eu nunca gostei mesmo daqueles móbiles coloridos e tão desordenadamente dançantes que me provocavam um choro irritado de sono de berço importunado. O varal era tão mais bonito!
Desde sempre assim. Gostava e ponto.
Gostava de pendurar tudo, qualquer coisa. Olhava quietinha o vento bater e quase balançar, bagunçar, mas nada não rodava não. Resistência e flexibilidade. No máximo balançava com ritmo de pêndulo teimoso e depois quando parava o vento, voltava pro lugar pregado. Tudo é que devia de ser assim.
Todo esse mundo caótico devia era ser pregado no varal. Não teria mais nada de móbile do universo com esse monte de planeta girando e rodopiando em volta do sol. Bate um ventinho mais forte e os fios se enroscam todos, colisão, colisão, colisão. Caos. Imprevisibilidade. E 2012.
Todo esse mundo caótico devia era de ser pregado no varal. Já falei pra mamãe tirar aquele móbile do berço...
Sunday, November 22, 2009
Remoto controle

Wednesday, September 23, 2009
Acasos afortunados
Thursday, August 27, 2009
O lusco-fusco do ato em fato: viver em significado

conforto para a dor
apoio para a fraqueza
Monday, August 10, 2009
O mendigo do girassol
Andava pelo Vale do Anhangabaú quando vi o mendigo e o vaso com um bonito girassol em suas mãos. Ele estava de pé todo garboso como se fosse uma estátua importante de algum duque dos girassóis. Olhava sempre para frente como se enxergasse alguma coisa invisível para os olhos dos outros. Ereto e firme, trazia ao redor dos pés descalços alguns trapos de mantas sujas que deveriam ser sua cama nas noites paulistanas e nos quais o mendigo permanecia de pé como se fosse um carpete vermelho hollywoodiano.
O sol das dez da manhã desenhava artes de sombras dos edifícios no chão e focava como um holofote natural o mendigo do girassol. Pernas andavam apressadas sapateando os segundos preciosos dos tempos escassos. O mendigo impassível não olhava ninguém e ninguém olhava o mendigo.
Aproximei-me receando que a curiosidade cobrasse um alto preço, mas antes ver de perto o mendigo do girassol do que seguir caminho como quem passa por onde não olha, não vê e não enxerga.
À minha presença, ele virou suavemente a cabeça com os cabelos em nó. Aposto que os grandes reis de épocas distantes teriam os mesmos meneios de cabeça e de olhares. Seu cheiro ardia minhas narinas para que me doesse também a sua pobreza, mas ele não inspirava pena, fraqueza ou qualquer sentimento de compaixão.
Devemos ter ficado nos encarando durante segundos que pareceram eternos. Ele então esticou os braços retos e firmes na minha direção e eu olhei para o girassol e para aquele amarelo em pétalas. Obedecendo ao gesto como uma ordem, segurei o vaso com as duas mãos e imediatamente o mendigo deu um passo atrás voltando à sua posição ereta de soldado e recolocando seu olhar no mesmo ponto longínquo de antes. Permaneci parado com meu terno, minha gravata e minha presença ignorada pelo mendigo do girassol. Devia ser assim que os súditos sentiam-se depois da última palavra do rei e do silêncio seqüencial que nada explicava: apenas aguardava a retirada do Palácio Real. Encabulado, também eu, já súdito do mendigo do girassol, retirei-me de sua presença, enquanto austero, ele permanecia de pé sem lançar-me olhar.
Cheguei ao trabalho naquela manhã com o girassol mais bonito que alguém haveria de ver na vida. Passei a regar-lhe e a cuidar de seu crescimento. Adubava a terra e o deixava ao sol durante algumas horas todos os dias. Na manhã seguinte ao encontro com o mendigo do girassol, procurei-o encorajado a solucionar o mistério, mas não o encontrei. Nunca mais o vi, nem nos 29 dias seguintes em que passei pelo local correndo meus olhos à procura dele. Por que o mendigo tinha um vaso de girassol em mãos nunca se saberá, e é preciso conformar-nos com isso como nos conformamos com a vida.
O girassol parece-me que é mágico. Está comigo há mais de sete anos e nunca houve tempo em que não estivesse florido com seu grande miolo marrom-sujo rodeado pela luz amarela das pétalas em ciranda. Parece até uma metáfora vegetal daquele mendigo sujo de pé em meio ao holofote de raios solares das dez da manhã.
Isso, se metáforas vegetais existissem.
Wednesday, July 01, 2009
Dia Monde
, e então de repente a narrativa perdeu-se em um capítulo qualquer através das páginas e a trama continuou rotina não digna de se declarar roteiro.
Reiterava um ato em cem maneiras diferentes. Girava e tonteava num rodar cíclico infinito
de papel]

e pensar que poderia ter sido diamante
Monday, June 01, 2009
Os cataventos coloridos - ou - Da dívida de viver
Todo adeus é diferente. Mas de uma mesma tristeza que mancha os olhos e que bota nas pupilas um feltro opaco. Olhos que baixavam ao chão e maldiziam a fatalidade, o acaso, ou qualquer coisa que fosse culpada por tudo aquilo.Era brisa leve e sol leve. Alguém dormia. E mesmo a mais forte intenção de não chorar, chorou. Não bastavam lembranças. Mesmo pequenos convívios. Coisas de rotina que vizinhos testemunham pelas frestas das janelas. Os passos sempre apressados e desengonçados. O arfar afobado que não se escondia entre as palavras numa conversa bruta de informações essenciais somente. O cumprimento de mão afastado já correndo para o próximo compromisso. A simplicidade de quem tentava superar as limitações daquela queda da laje na infância.


