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Thursday, April 07, 2016

Pandora


(ou "Me disse aquela menina")

Desde cedo eu quis caber numa caixinha. E ser igual a todo mundo. Porque todo mundo era junto e pra ser junto tinha que ser parecido. Então eu quis caber naquela caixinha. E não cabia de jeito nenhum. Não tinha uma caixinha pra mim. E eu descobri que talvez eu pudesse me embalar feito um presente. Os presentes são únicos e todos gostam deles. Eu queria ser um presente de laçarote e papel bonito. Mas o que tinha dentro daquela caixa de presente eu não queria dar. Pra ninguém. Porque nem eu tive coragem de olhar o que era.

Mas então eu estava em um dilema: jamais descobriria o que tinha na porra da caixinha. Então eu quis. Eu quis oferecer a alguém que aceitasse aquele presente. Desembrulhasse e visse que a caixinha debaixo do papel era um pacote estranho e incomum. Mas mesmo assim, continuasse na coragem de segurar aquela caixinha e abrir finalmente. Abrir e contar pra mim o que era que tinha nela.







- mas no final, ela mesma vai abrir. 
em breve. 
daqui uns meses.

Saturday, October 05, 2013

Napoleão

Quando ele acordou, o relógio marcava dez horas e dezessete minutos da manhã do sábado. Respirou fundo e saltou da cama com o ímpeto de qualquer atleta ao performar um salto importante - o choque pra ele sempre foi mais eficaz do que o lento espreguiçar da indecisão. Saiu do apartamento vazio de mobília e pensou na possibilidade de não preencher aquele espaço amplo pra que a sensação de recém-chegada ou partida próxima permanecesse. Era o que ela faria enquanto penduraria os quadros pequenos na parede, na contradição eterna que era sua essência - mesmo nas partidas desapegadas há de se haver quadros nas paredes. Ele desistira de entender, embora sempre achasse que o maior charme dela residia naquelas maluquices todas.

Da partida para Amsterdam só ficou o gato Napoleão. Ele logo a caçaria pelo mundo atrás dos planos mirabolantes de grandeza que ela enfiava na cabeça e que - puta que pariu - conseguia, cedo ou tarde, que dessem certo de algum jeito; embora ele desconfiasse que ela na verdade não planejava nada: aceitava desafios.

Levaria Napoleão. Tinha certeza que ela sentia falta dos miados objetivos e resolutos que ele soltava pelo silêncio da casa. Ela interpretava os miados de Napoleão como se fossem sempre de uma entonação de parecer decisório - na língua dos felinos. Só poderia ter nome de imperador.

Ele já tinha comprado o vôo e aceitado plenamente o pensamento da manhã de deixar para lá o trabalho de mobiliar o apartamento que, já sabia, ficaria vazio até que ele voltasse emputecido com as malas, ou com ela - emputecida. Tinha comprado as passagens em um impulso da mesma qualidade de seus saltos ao acordar: firme e resoluto. Agora não sabia o que fazer com o imóvel na ruazinha tranquila do bairro das Laranjeiras. Não daria tempo pra resolver nada. Pensou em Antônio. Seu Antônio comentou que precisava mudar de ares. Ele poderia ficar com o imóvel até lá. Não tenho prazo para voltar seu Antônio: pode ser logo, pode demorar... para o negócio de que vou tratar, tudo é possível. Você já conhece a peça mais do que eu. Ele entenderia. Era um homem desagradável, mas razoável, apesar de feder a cachimbo e suor. Menos mal, pensou, que aquilo ali não esteja mobiliado para absorver o cheiro de tabaco e o azedume biológico do seu Antônio.

Colocou o capacete, as luvas, acelerou a moto em direção à estrada. O acidente. Napoleão ficou sozinho em casa e passou fome na noite daquele dia, porque seu Antônio ainda não tinha sido avisado que a fatalidade tinha saltado - firme, resoluta - na colisão daquele final de tarde.

Monday, September 23, 2013

Complô

Antônio tinha medo. Não suportava a escuridão. Nela perdia a batalha contra sua própria imaginação que tratava de criar sempre os piores presságios. Evitava todas ocasiões em que estivesse em lugares altos, olhando para baixo – logo imaginava-se caindo; nunca voando. Não gostava do barulho de bule com água fervendo. Não gostava dos gatos que miavam de noite pela sua rua. Não gostava de riscar livros. Não gostava de comprar livros. Não gostava das livrarias nem das bibliotecas. Imaginava sempre a impossibilidade de se ler tudo aquilo e sentia um terrível mal-estar. Como se fosse uma grande sacanagem expor em estantes tudo aquilo que ele nunca viria a conhecer na totalidade. Não gostava de conversar. Principalmente sobre coisas pessoais. Imaginava sempre o que a outra pessoa estaria pensando durante a conversa e ficava irritado com a possibilidade de que fosse algo desagradável – que ele nunca saberia por completo. Tudo no mundo parecia um imenso complô de coisas que ele nunca teria pleno acesso. Como se a vida fosse um conjunto de segredos insondáveis. Como se ele não tivesse nenhum tão importante para guardar para si e resguardar do resto do mundo. E ele sentia que o mundo todo tinha um segredo importante que ele não poderia jamais saber. E tinha raiva quando pensava que nunca descobriria.


Ele sabia que precisava de um grande segredo.

Tuesday, February 05, 2013

O continuista


Pra quem se encontrava encerrado, você apareceu e me recomeçou. Depois dos agradecimentos no epílogo, eu já encerrava com a minha bibliografia de homem cheirando a solidão de cigarro, mas você entendeu que aquilo seria só um prólogo extravagante. E você quis continuar a ler o que eu já tinha decidido que não teria continuação.

Mas você me recomeçou.

Perguntava sempre com o jeito cômico de quem irritantemente interage no meio de um filme no cinema e compartilha enredos: “e depois? o que acontece?... e agora? o que virá?”. E eu mostrava pra você que não viria mais coisa nenhuma. Que a minha história já tinha acabado. Que a minha fé já tinha sido testada, estragada e rebatizada como fazem com os mortos que viram lendas.

Engraçado como a gente aprende primeiro os conceitos através das palavras, e só depois vai riscando alguns, enquanto tenta viver na prática cada um deles, na tentativa de perceber se existem de fato ou não. Muita gente cagou nos conceitos que eu mais gostava enquanto eu testava se eles existiam ou eram só palavras vazias. A maioria sempre foram só palavras. E aí me vi rico de um vocabulário múltiplo e sem conexão real com a vida. E já que a realidade era uma bosta, e eu estava inundado em um monte de palavras, palavras e mais palavras... colecionei todas e decidi virar o pior dos escritores.

Mas você me recomeçou.

Chegou sem pretensão. Chegou secundária, no meio de uma multidão de figurantes. Chegou implicante, perguntando do próximo parágrafo, do próximo capítulo, da próxima edição especial encadernada. Cacete criatura! Não tem mais livro não... não tem mais história nenhuma! Acabou! The end! Créditos subindo,  trilha sonora principal ao fundo... entendeu?

"Lógico que tem continuação. O seu erro de sempre é ser um escritor que se acha cineasta. Aqui não é Hollywood, meu bem. Aqui é a terra de Hemingway, onde se pergunta eternamente por quem os sinos dobram. Aqui o único epílogo aceito é o epitáfio. Você continua sim a escrever história sem saber. E é melhor o fazer sabendo. É melhor seguir sabendo."

E me recomeçou.

Friday, July 27, 2012

Metal


imagem via: Stephen Criscolo
Poderia ter pegado o caminho normal, mas preferiu desviar. Com passos lentamente propositais, caminhou na velocidade oposta de seus pensamentos. Pigarreou. A barba por fazer. Os dedos doíam. A planta na varanda do apartamento morria pela falta de água. Dizia sempre para as visitas que a cultivava pela beleza do verde, justificando a pergunta que certamente viria. Era precavido.

Nessa tarde - a do desvio - seguiu a rota sem rumo prestando atenção na cidade. Prestando atenção aos desconhecidos na rua. Olhava a todos nos olhos. Ali, no fundo das pupilas. Buscava desesperadamente enxergar alma na paisagem de pessoas que se amontoavam nas calçadas. Chegava a ser obscena a intensidade com que procurava os olhos dos desconhecidos que passavam por ele na rua: todos absortos, zumbis, evitando qualquer contato visual entre si, como se fosse proibido perceber que existiam outras almas. Existiam?

Mordeu o lábio desistindo. Bufou. Passou pela mente o som daquela orquesta tocando o Cinema Paradiso. Queria ter aprendido violoncelo. Queria ter feito tanta coisa. Ainda era novo. Mas não.

A corrente do pescoço. Não conseguia livrar-se dela. De prata. Estava escura. Era coisa de secreção da pele que ia escurecendo o metal. Assim disseram. Nada que ficasse dependurado por muito tempo em seu pescoço conseguiria reluzir. Ela também não. Paciência.

Dobrou a esquina. Tentou afastar pensamentos indolentes. Chegou numa praça abandonada. Sentou-se no banco. Tirou do bolso da calça o moleskine. Rabiscou uns desenhos. Não sabia falar. Não sabia escrever. Era péssimo com palavras. Então rabiscava. Os mais próximos olhavam e tentavam atribuir significado. Ele achava bom que ninguém entendesse. Ainda ganhava status de incompreendido. Todo artista quer a incompreensão. Ele a tinha sem nenhum esforço.

Terminou o desenho. Folheou as páginas passadas. Sentiu o estômago revirar. Parou. Pensou de novo na orquestra. Pensou de novo no Cinema Paradiso. Queria ter aprendido violoncelo. A corrente de prata escura. Pensou que ia chorar. Mas não.

Tirou a correntinha. Ficou olhando a peça na palma da mão. Estava bem mais escura que da última vez que tinha prestado atenção ao espelho. Fechou com força o punho num golpe de adeus. Depois abriu mão. Ele escurecia metais. Já não queria.

Não mais.

Tuesday, August 23, 2011

Happy Hour

Nos bolsos cheios de coragem, tentou esquentar os dedos gélidos do frio paulistano. Torceu para achar uma luva no chão, um cobertor nas esquinas, um aquecedor de alma. Caía garoa fina. Por fim, a coragem caiu do bolso enquanto remexia velhos pensamentos que levava a tira-colo. Não se deixaria mais encontrar facilmente: se esgueirou como ratazana pelos bueiros da cidade. Os passos largos e rápidos entraram num pub cheio de pessoas programadas para sorrir naquela sexta-feira em que a felicidade tinha hora marcada e dia da semana definido. Como se pode viver num mundo desse? Com poucos que podem viver de sonhos. Com poucos que podem realmente escolher. Com muitos que se enganam transferindo a frustração em extravagância nas compras de itens desnecessários e geringonças tecnológicas de nomes futuristas. Para quê? Pediu uma cerveja. Jogou o cotovelo direito sobre o balcão com a raiva de um golpe destinado a falhar. Ruiu um pouco por dentro e apoiou o queixo barbado no punho aberto que doía.

Pensou nos punhos abertos que se abriam e fechavam não sabia ainda como. Talvez fosse a alma escorrendo pelos punhos, a vida vazando pelas palmas das mãos. Doía pra cacete. Mais do que cortar a cara fazendo a barba pela manhã. Fria.

Eram dias de vento cortante e canelas resfriadas. Ele desdenhava do frio, recusava abrigo de guarda-chuvas, ignorava a existência de cachecóis ou luvas. Lembrava-se da utilidade de todos eles somente quando gelava embaixo da garoa fina: saboreava um arrependimento expresso e depois esquecia quando o sentimento de sobrevivência inflava seu orgulho. Hábito adquirido de menino. Ele enfrentava o tremor e dentes batendo com ousadia e teimosia. Mania de topar sermões maternos, de querer provar o misticismo errôneo da ligação friagem e sucesso das investidas do vírus da gripe. Não desistiria tão fácil da luta inconsciente. Haveria de morrer de resfriado. E imaginar para si esse final sarcástico, o fazia sorrir com ironias penduradas na argola do piercing que furava seu lábio ressecado pela baixa temperatura. Não existia calor em São Paulo. Não existia amor em São Paulo. Encostava o gargalo da garrafa na boca que ardia e se contentava com a leve dor irritante. Como se os pequenos incômodos que suportasse fossem troféus, ele escolhia não se privar de nenhum. Passatempos para se distrair de um incômodo maior, a verdadeira arte na vida era saber como enganar a si próprio - por questões de sobrevivência.

Sozinho, começou a contar quantos sorrisos iludidos esticavam-se ao seu redor. Descortinavam dentes brancos, dentes de fumantes, dentes tortos ou recém-endireitados por aparelhos metálicos. Sentia pena daqueles dentes. Sentia-se solidário a todas as arcadas dentárias expostas assim, por nada. Sem justificativa cabível. Ainda mais neste frio, pensou lambendo os lábios ardidos. Nenhum hidratante labial. Recusava também esse conforto. Não admitiria trazer no pescoço a cara de alguém que parecia acabar de comer um frango assado e desconhecer o que era um guardanapo. Preferia a boca rachada e sangrando no dia seguinte ao mínimo sinal de estiramento dos lábios. Ao menos era improvável que ele sorrisse nos próximos meses, ou ainda nessa vida, portanto, sem ameaças. Tudo estava então em paz. Absoluta paz. Bocejou entediado. O lábio esticou. Rachou.

Sangrou.

Tuesday, June 14, 2011

Do que se ouve com olhos

Numa tarde atarefada, deu a suspirar, a Luzia. Não era um suspiro que remete às paixões ou obras de cupido, tampouco chegava a ser o bufar da raiva escapulindo pelas vias aéreas: o suspiro de Luzia era diferente, abstrato como enigmas que recorriam a cada trinta minutos entre um gole de café ou outro, entre o rumor de uma hora ou outra.

Constantes também se tornaram os olhares ao redor reparando, censurando, ouvindo estupefatos os alvéolos de Luzia na manifestação incoerente. Porque as pessoas... sabem como são: ouvem os suspiros com os olhos. Já aguardam de regra uma cara besta de quem mandou a alma pra marte e deixou o corpo pra honrar o armageddon de dois mil e doze neste planetinha. Mas Luzia não! Tinha o corpo e a alma por aqui mesmo, bem por aqui, se sabia. Nada escapava de sua atenção entre um suspiro e outro contrariando toda a regra primordial que aprendemos desde remotos tempos - de que os suspiros indicavam avoamento da cabeça por outros mundos.

E se passaram dois dias, três semanas, um mês e quinze horas. Luzia - a suspirar atenta, atenta - a moça do rosto estampado de sardas. E todos já não mais podiam com aquilo. Que gritasse, que chorasse, que desabafasse uma paixão impossível com o colega do lado. Aquilo já estava que não se bastava. Até a renomada especialista comportamental do escritório já bolava a proposta para iniciar um estudo de caso de nossa Luzia. "O absurdo da linguagem corporal". Não demorou muito para acontecer um bolão para quem adivinhasse o motivo dos suspiros. Rifas foram feitas para adivinhar quantos suspiros seriam dados naquele dia de trabalho. Todo um comércio ilegal foi criado em cima do caso curioso. Do mistério de tanto suspirar.

Cá entre nós, não é à toa que o respirar é inconsciente. Viver não foi escolha, o diafragma também não o é. Já o suspiro, com seus mistérios, é uma racionalidade do respirar. Fato é que suspira-se quando está com algo a passar pela mente, sejam preocupações maciças e sóbrias ou mesmo devaneios idiotas - sempre está a passar qualquer coisa pelo pensamentozinho quando o sopro despressuriza o de dentro de nossos pulmões carregados. E é aí que qualquer coisa se rebela e determina o ritmo um pouco mais longo do respirar, que já é suspiro. Ultrapassa o movimento involuntário da sobrevivência, grito rebelde contra a marcha inevitável da bipolaridade da troca - gás carbônico, oxigênio.

Mas não se saberia nunca porque Luzia suspirava. Não se poderia saber. Os bolões não tiveram seus vencedores, os suspiros constantes continuaram, o enigma manteve-se irritantemente. Ela perdeu amigos, colegas, as pessoas a evitavam no desconforto cutucante do mistério insolúvel, despidas da coragem da interrogação direta. Luzia, que nada sabia do motivo do afastamento geral, não ficou triste não. Nem mesmo ficará ressentida com a porcaria de final que escrevi pra sua história. Luzia nunca ficava ressentida com nada. E esse era outro de seus muitos mistérios.

Friday, November 26, 2010

Caprichos

Quisera eu passar a tarde pensando só na próxima coisa agradável a se fazer no instante seguinte. Viver para mim, digo. Porque se a gente for bem fundo na ferida, talvez façamos mais coisas pelos outros do que por nós mesmos. Amputamos nossos caprichos e ficamos a vagar aleijados das nossas pequenas satisfações - ouso dizer que sejam talvez as únicas substancialmente verdadeiras nessa vidinha. Por exemplo: quando criança me agradava um bocado recolher as guimbas de cigarro que meu pai jogava ao chão com muita classe finalizando com a pisada - como quem dissesse "feito". Não sei explicar o porquê, mas me fascinava que cada uma fosse diferente, terminasse num tamanho diferente e tinha ainda a marca do pisão feito digital. Ah, eram únicas. A arte-final da expressão blasé da fumaça.
Minha mãe quando me percebeu recolhendo as pontas de cigarros pelo chão tão logo eram pisadas, objetou numa obviedade horrorizada e nojenta. Esse menino tinha mesmo manias muito estranhas.
Pois bem, parei. Mas gostava um bocado da minha coleção que nunca ultrapassava três cigarros apagados. A velha era a fiscal mais dedicada, recolhendo os itens ilegais da minha caixinha. Um dia me agradecerá performizava convicta. É por você mesmo!

Não me lembro eu quantas manias já tolhi pelos outros. Coisas que me davam prazer por mais estranhas que fossem. Por exemplo na hora de comer. Nunca gostei da textura da cenoura cozida ao ser mordida. Me agradava amassá-la com o garfo criando meu purê individual laranja. Que desgosto quando no jantar num restaurante, Mariana me olhou com aquele ar de terror indignado. Por que? Porque eu gosto oras. É uma tradição minha instaurada há muitos anos. Ela chiou. Eu parei mesmo enfrentando os horrores da abstinência. Um dia fui a jantar com a família da namorada e a mania repreendida explodiu no garfo inconsciente que amassava as cenouras cozidas para o horror da etiqueta. A vergonha dela ganhou a batalha, assim como também a persuasão materna sentenciadora da sogra. Um coração partido por uma tradição alimentar. Não tinha adiantado nada parar de amassar as cenouras. Mas mesmo com o lapso persisti na minha recuperação e agora digerir cenouras é uma das atividades que faço com maior elegância.

Tiveram também as anotações palmares. Digamos lá que minha memória não é das melhores e a bic tatuava sempre algum lembrete na palma da mão. Beatriz reclamava. Que não se podia andar de mãos dadas porque as dela acabavam azuladas. Resolvi parar com as anotações mesmo pensando que era ela que deveria suar menos nas mãos. O caos instaurou-se, minha vida desregulou-se, saiu dos eixos dos compromissos. Acabei esquecendo o dia do aniversário de namoro. Fim.

Mais um término e lá vai mais um gasto nas contas do mês pela compra do moleskine. E os lembretes ficavam ali pra consulta, mas nunca mais ao alcance rápido das mãos: procurava nos bolsos da calça, folheava paciente por entre as páginas. Era um trabalho que me desgostava até que comecei a tomar gosto por escrever. Uma página era um universo maior que as linhas tortas da quiromancia e passei a escrever sem o fundo das linhas das mãos que as ciganas sempre se ofereceram pra ler nas calçadas. Ultrapassei a necessidade dos lembretes. Passei a anotar impressões. Idéias. Histórias. Pensamentos. Viciei-me. Lá estou  eu sempre a anotar coisas no caderninho a tiracolo.

Agora é a Débora que implica com o moleskine. Quer porque quer lê-lo e ainda se defende dizendo que não é por caprichos de curiosidade. Joga a cartada suja da confiança. Não confia em mim? O que você tanto escreve aí que eu não posso saber?
Segurei a vontade de mandá-la à puta que a pariu, mas dessa vez não largo mão. É pela honra das bitucas de cigarro, das cenouras amassadas e da brancura das minhas palmas. Ela que trate as inseguranças e faça feliz uma terapeuta. Por capricho meu.

imagem via: zupi.com.br

Tuesday, October 26, 2010

Na soleira da porta


imagem via: gettyimages

Era nas palmas das mãos e na articulação dos joelhos que se apoiava toda a minha curiosidade. Não só a minha. A de meu primo e a de minha irmã caçula. Era só chegar visita na casa da vó que logo deixávamos o esconderijo-mirim e engatinhávamos invisíveis para detrás do sofá da sala onde os adultos conversavam coisas secretas. Em todas as vezes os assuntos eram ininteligíveis, chatos e entediantes, mas sempre continuávamos com o ritual. Era quase como se fossem as nossas boas-vindas.

Vó não se importava. Ria até. Olhava pra visita com cara de "crianças-sabe-como-são" e escapava um risinho orgulhoso, mimo de seus netinhos. Era carinhosa a vó. Com a delicadeza e a paciência que cultivou em épocas de trabalho e suor na lavoura.

Acabava que não obtínhamos nenhuma informação interessante na conversa da sala, mas na verdade o interesse real era sempre substituído pela alegriazinha esfuziante de acreditar-se invisível. Criávamos rotas por detrás dos sofás, engatinhando com destreza como faria Sherlock Holmes - se engatinhasse. Soltávamos risinhos de adrenalina. Como vó não falava nada, como se não estivéssemos ali a fazer barulhos esfolando joelhos nos tapetes, tínhamos a certeza de que ninguém nunca soubera de nossas espionadas. Vó era patrocinadora oficial de nossa natureza curiosa e persuadia seus visitantes a conservar o faz-de-conta. As visitas então tornavam-se cúmplices e continuavam a tagarelar alegres com minha vó.

Meus joelhos raquíticos acabavam a aventura vermelhos e irritados como as palmas das mãos. Ganhavam por algumas horinhas uma outra textura doída. O tapete imprimia sem dó desenhos na nossa pele de molecada. Esfoliação têxtil, esfregávamos nosso DNA como se marcássemos território na sala de visitas da vó.

Hoje deixei a antiga tática do engatinhamento e sempre deixo minha curiosidade perder frente ao orgulho de nunca me deixar arrastar para colher qualquer informação que eu queira: mesmo as mais interessantes - aquelas que atiçam e fazem coceguinhas na consciência da gente.

Fiquei indiferente e nem sei como isso se deu. Deve ser resultado de muita ameaça de ditado popular: que a curiosidade matasse só o gato. Quanto a mim, não quero mais saber não. Vó deve estar agora indignada no céu. Devia era ter dado bronca, enxotado a gente da sala já que tudo se acabaria assim tão maduramente sem-graça, sem-interesse, sem-mistério-a-ser-solucionado.

Talvez eu devesse exercitar mais minha curiosidade enxerida. Me vi então subindo devagar as escadas do prédio até o andar de cima. Era sempre à noitinha que todo o barulho começava. Pareciam passos estrondosos que não andavam: terremoteavam num compasso lento no teto de casa. Encostei meu ouvido na porta do 304 e tentei ouvir qualquer diálogo, qualquer voz humana. Nada. Só uma música tranquila quase inaudível. Brrraaaam! ... Brrraam! Só o barulho de um corpo caindo no chão repetidas vezes e uma respiração calma e bem marcada.

Curiosa, curiosa, pude ouvir o risinho da vó consentindo. Ajoelhei e tentei espiar pela fresta debaixo da porta. Me cheiraram os olhos. Fungaram. Quando percebi meu delator canino do outro lado, abriram a porta e flagraram minha curiosidade ali, apoiada nas palmas das mãos e nas articulações dos joelhos. Vi os pés grandes descalços, fui erguendo minha cabeça e enxergando: calça de moletom, uma camiseta branca, cabelos bagunçados e uma cara divertidíssima. Nunca te disseram que a curiosidade matou o gato?

Olhando rapidamente para dentro da sala à procura de alguma pista para que ao menos solucionasse o caso já que minha dignidade estava perdida mesmo, o vizinho de cima me convidou para entrar. Então, o que fazia além de olhar por debaixo das frestas das portas dos outros? Relatei que na verdade sempre à noite ouvia barulhos pesados no andar debaixo e não tinha conseguido identificar. Pensei que pudessem talvez ser alguém desastrado o suficiente para viver caindo de meia em meia hora. Talvez um cego. Ou um velhinho orgulhoso que precisasse de ajuda. O som de um corpo caindo toda hora ao chão como um saco de batatas de toneladas não podia ser bom sinal. Ele riu e se desculpou: é que eu sempre faço yoga em casa quando volto do trabalho. São umas sequências, que exigem que eu fique de pé e depois caia o peso do corpo no chão em posição de flexão, troque a posição das pernas, treine meu equilíbrio, enfim... Hatha Yoga, conhece?

Matriculei-me no dia seguinte em uma escola. Talvez eles me ajudassem com a minha curiosidade irremediável. Quanto ao vizinho, nunca mais tive a capacidade de cumprimentá-lo sem enrubescer: minha dignidade praticamente caiu de joelhos em sua soleira e nunca mais foi recuperada. O vizinho colocou enfim um capacho para a vedação da porta. Não fui lá conferir uma segunda vez. Foi para evitar correntes de ar, entrada de sujeira e vizinhas curiosas, ele brincou quando topei-o no elevador.

Vó lá de cima só riu.

Sunday, October 24, 2010

Pessoa

por Tiago Marques

- Mãe, olha o que eu achei!
- Que isso?
- Uma pessoa, mãe! Parece que nunca viu!
- Eu sei o que é! Eu quero saber o que tá fazendo dentro de casa?
- Ela veio me seguindo, mãe! Posso ficar?
- Tá maluco? Pessoa dentro de casa só dá trabalho.
- Mas mãe, eu cuido direitinho! Será que é homem ou mulher?
- É mulher, não tá vendo... é, hmm... os... com os peitos desse tamanho aí e você não sabe? E ainda por cima é mulher fresca, a gente não tem como cuidar. Óculos escuros, chapinha. bolsa Louis Vuitton. Quem é que tem dinheiro pra manter tudo isso?
- Mas mãe, o José Vitor tem uma pessoa em casa e a mãe dele deixa.
- Aposto que ele achou um mendigo na rua. Esses são fáceis de cuidar, qualquer coisa que ganham, estão felizes. E essa aqui? Vai querer carro importado, blackberry, ipod, acessórios pra combinar com a blusinha. E se ela fica grávida? Já pensou?
- Mas mãe!
- Chega! Pessoa, não! Se quiser, te dou uma tartaruga.
- Tá bom... que saco, nunca posso ter nada que eu quero.

Friday, October 22, 2010

Você suporta?

ou, o ridículo da intimidade


Ele estava lá parado no muro do grande parque. Espreitava as ruas ansioso. Depois de muitos meses de olhares e risinhos no intervalo das aulas, finalmente o encontro. Com data, hora e local marcados. Um bilhete subversivo no meio da aula de geometria, rabiscado com a pressa necessária de quem não queria pensar muito pra não filtrar a ação. Encontre-me hoje à tarde. Em frente ao parque. Marcelo. E depois do azul da Bic, o transporte das mãos no repasse do bilhete. Nunca viu um carregamento tão demorado. E enfim, os olhos pretinhos de jabuticaba. Leram e releram. Ou não acreditava na ousadia, ou a letra saiu garranchada demais. E depois aqueles olhos o morderam. Pronto, o importante foi decodificado. Ela sabia que era dele.

E agora esperava. Esperava os olhos de jabuticaba. Esperava o rabo-de-cavalo e as pernas finas. Esperava o sorriso envergonhado dela.

Então ela começou a despontar do horizonte da calçada. Bem devagarinho despontando: o rabo-de-cavalo, as jabuticabas, as pernas finas de pescoço fino também. Oi. Que legal que você veio. Você conhece esse parque? Hoje tem sol e é muito legal ver a fonte que reinauguraram. Terminaram o conserto.

Ela só ouvia. Era mesmo muito linda.

Olha, posso te pedir uma coisa? Uma coisa?! Pode me pedir o que quiser, sou doido, doidinho por você desde a terceira série! Mas só pensou. Assentiu com a cabeça, respeitoso com seus doze anos de maturidade.

Foi então que ela abriu a bolsa com muitas coisas estranhas. Um monte daquelas bugigangas festivas: óculos gigantescos coloridos, chapéus bizarros, linguas de sogra. E começou a escolher com carinho tudo o que ele vestiria, como se estivesse treinando a escolha diária de gravatas do futuro marido. Quando o mistério carrega a esquisitice, ou a gente se cala, ou a gente abraça a indignação.

O que é isso??!! E ela sem jeito no início e depois convicta da resolução explicou colocando os óculos verdes de estrelas gigantes: é que às vezes a gente tem que se disfarçar pra se reconhecer. Terminou colocando um chapéu, uma peruca e um nariz horrendo. E lá se foram os olhinhos de jabuticaba. Escolhi esses pra você. E ele então foi colocando contrariado as orelhas gigantes, o chapéu de guizos e um óculos vermelho. Silêncio. Olharam um pro outro muito sérios. E aí ela explodiu em uma gargalhada gostosa. Aquela gargalhada que dói inseguranças.

Tacou tudo na calçada do parque e correu de volta pra casa com muita raiva o Marcelo. Que menina esquisita!

Thursday, October 21, 2010

Bigodes


imagem via: giovanni_ha


Na porta tem um sininho dos ventos. Sempre teve porque minha mãe diz que deve-se saber quando alguém chega em casa. Mais do que uma ingênua e ineficaz medida de segurança de vila pacata de interior, ela dizia que era porque ninguém merece voltar para casa sem ser recebido.

Desde pequenos montávamos uma mini-comitiva de recepção para meu pai todo dia que ele chegava cansado do trabalho com suas rugas emburradas e seus sapatos engraxados. Éramos eu e minhas duas irmãs. Elas tratavam de toda parte decorativa da recepção diária: pinturas em guache, faixas de papel com seu nome, florzinhas arrancadas do parque. Eu não. Sempre cuidava da parte burocrática da operação. Joana deveria anunciar com animação a chegada do Seu Oliveira enquanto Betinha seria a multidão toda em seus gritinhos de 5 anos. Eu o receberia com meus ares de diplomata verbalizando o boas-vindas. Como foi o dia de trabalho sr. Oliveira? Agora trate de descansar e aproveitar o conforto desta poltrona. Nossa camareira Joana lhe servirá dentro de minutos um delicioso suco de goiaba. E então ela corria toda feliz pra cozinha, onde mamãe a esperava com um copo gelado e fresco nas mãos. Betinha pulava no colo do velho encerrando toda a encenação e arruinando meu comitê receptivo. Sai daí Betinha! A multidão não pode importunar seu Oliveira! Ele está cansado da labuta!

Mas eu acabava sempre por perder. Meu formalismo nunca teve vez contra a espontaneidade da caçula. Seu Oliveira desatava suas rugas em expressões amáveis que cheiravam a amaciante, dava um cafuné nos cabelos curtinhos espevitados e agradecia, agradecia. Logo se embrenhava nos noticiários da noite meio sonolento, meio acordado.

Eu já começava a bolar o comitê receptivo do dia seguinte, acumulando as longas frases nunca ditas das tentativas frustradas anteriores. Talvez devêssemos substituir as faixas borradas da Betinha e profissionalizar com recortes de jornal. Joana me ouvia com seriedade de secretária, mas algumas horas depois já se largava no tapete da sala olhando a tv como se estivesse interessada na voz entediante da jornalista. Era seu passatempo preferido para compartilhar suas únicas horas do dia com o pai. Anos mais tarde pegaria seu diploma de Jornalismo.

Seu Oliveira a algum ponto já roncava pesado no sofá. Eu sentava no chão do canto da sala a olhar praqueles bigodes tão imponentes. Um dia seria como seu Oliveira! Teria grandes tufos de bigodes! E terminávamos assim mais um dia. Pra no outro passar todas as horas bolando a próxima recepção. Esperando pela volta do pai. Esperando o tilintar do sininho.

Hoje sinto saudades. Meus planos nunca vingaram. Betinha continuou a levar a melhor mesmo quando já contava vinte anos. Hoje seu Oliveira não tem as recepções diárias espalhafatosas de outrora, mas minha mãe compensa sempre com um abraço carinhoso e o famoso suco de goiaba. Ele nunca parou de trabalhar, o Seu Oliveira. Dizia que tinha sido mal acostumado. Gostava das recepções. Devemos partir todo dia se quisermos voltar, ressoava a voz de barítono.

Quanto a mim, cultivo meus bigodes e moro sozinho num apartamento na Vila Madalena. Quando abro a porta ouço o tilintar de um sininho dos ventos que minha mãe pendurou ali. Presente para a casa nova. Sempre me deparo com a escuridão da sala e o tilintar do sininho me cumprimenta. Isso nunca me chateou. Hoje porém é meu aniversário, e minha mãe deve vir às dez me trazer um bolo e seus presentes. Seu Oliveira também vem. Assim como Betinha e Joana. Trarão meus sobrinhos.

Isso nunca me chateou. Hoje porém é meu aniversário. E quando voltei para casa o tilintar e a escuridão me cumprimentaram. Comprarei um gato amanhã. Ninguém merece voltar para casa sem ser recebido.

Tuesday, October 12, 2010

O grito raivoso da existência

ou palavras concretas de uma boca inexistente
ou existir é se chamar


para ler a primeira parte: Sobre a responsabilidade de se ter olhos quando outros não enxergam

... E então de repente toda a proteção das grandiosas construções ruiu. A sensação tão confortante da invisibilidade tinha sido violada. Seu corpo todo parou em meio ao fluxo ordenado da grande avenida atrapalhando o tráfego de pedestres hipnotizados. Ela existia.

E um cego confirmara isso. Não era preciso que visse seu corpo magro murcho ou seus olhos caídos que piscavam nervosamente rápidos. Ele havia percebido. Talvez sua respiração inaudível, suas passadas marchantes de libélulas cautelosas... não! Impossível! Era tudo de uma mudez harmônicamente impecável. Até para os sentidos aguçados de um cão. Eles, que nunca abanavam os rabinhos quando ela era a visita. Suas orelhinhas permaneciam sempre murchas e dormentes quando ela passava quieta, a personificação daquilo objeto da indiferença.

Sentiu o peito pesar opressão. As sobrancelhas desbalancearam como gangorras enferrujadas, e penderam seu lado mais pesado no meio da raiz das narinas, rangendo. Os cantos dos lábios finíssimos se curvaram à lei da gravidade. Era mais difícil respirar. Ofegou. Contrariada.

Sentia a raiva. Certeira, bruta, cruel.

E assim ficou: imóvel no meio da calçada. O corpo todo inerte, carente da energia que se acumulava naqueles músculos faciais que pela primeira vez exercitavam expressão própria, não copiada. Era novidade.

Trombada. Algum terno engravatado declamou impropérios. Mais um! Empurrão. O ombro sujo e uniformizado, operário, prosseguiu resmungando. Irritação. As rugas de cabelos brancos que sustentavam o óculos e a bengala Jandira reclamavam falta de respeito com idosos. Ansiedade. Uma mochilinha com agasalho nos quadris infantis tentava uma manobra para desviar do conjunto irreconhecível de gangorras enferrujadas enraivecidas e inertes no meio da calçada. Xingamento. O coque bem feito de saia maquiada sapateava um salto indignado:

- Mas que palerma!!!!

... Não! Tinha um nome senhora,
e era Rebeca!

Monday, December 21, 2009

No varal

Lá vai-se embora meu mundo sem mim...

Eu gosto de organizar as coisas naquele fio bem esticado e linear. Vou pendurando tudo, botando ordem - se o importante nasce na direita ou na esquerda? - e assim categorizo tudo naquela suspensão existencial de pregadores coloridos.

Me deixa feliz a ordem das coisas, uma sucedendo a outra assim tão perfeitamente como só as fileiras podem ser. Uma coisa de cada vez, cada vez com sua coisa.

Eu nunca gostei mesmo daqueles móbiles coloridos e tão desordenadamente dançantes que me provocavam um choro irritado de sono de berço importunado. O varal era tão mais bonito!

Desde sempre assim. Gostava e ponto.

Gostava de pendurar tudo, qualquer coisa. Olhava quietinha o vento bater e quase balançar, bagunçar, mas nada não rodava não. Resistência e flexibilidade. No máximo balançava com ritmo de pêndulo teimoso e depois quando parava o vento, voltava pro lugar pregado. Tudo é que devia de ser assim.

Todo esse mundo caótico devia era ser pregado no varal. Não teria mais nada de móbile do universo com esse monte de planeta girando e rodopiando em volta do sol. Bate um ventinho mais forte e os fios se enroscam todos, colisão, colisão, colisão. Caos. Imprevisibilidade. E 2012.

Todo esse mundo caótico devia era de ser pregado no varal. Já falei pra mamãe tirar aquele móbile do berço...

Sunday, November 22, 2009

Remoto controle


Centenas de pensamentos perambulam soltos na rua a esta hora. Milhares de olhares agora recostam-se em travesseiros solitários a olhar o branco do teto, as paredes mudas e uma luz que difusa indireta do abajur. Imaginava os pensamentos invadindo as ruas invisíveis como uma grande passeata, cobrindo o asfalto, adentrando as bocas-de-lobo, escalando prédios enormes e tomando-a de assalto.

Olhava para o céu promissor de estrelas infiltradas atrás de pesadas nuvens cinzas. Promessas não são nada mais do que ilusões manipuladas ou doces paliativos. E assoprava a fumaça cinza de seus pulmões, convicta de que escondia milhares de estrelas ao leve sopro.

Pensar nas coisas causava uma irritação desnecessária. As coisas eram. Ela era sendo. Sempre nunca mesma tanto. A vida que cuidasse do resto. Cuidasse do acaso, dos desencontros e coincidências. Sua tarefa era simplesmente ser a cada segundo. Existir. E isso era tanto.

Dedilhou acordes imaginários. Sentiu a alma vibrar junto com o som. Ela produzia. Sorriu satisfeita. A vida era uma grande música que não acabava nunca. Ela ouvia a confusão das melodias e quase sempre se irritava com perfeccionismo ofendido de regente desobedecido. Ah, aquela mania de controle... ainda causaria indiferença.

As pessoas são atrevidas. Claramente estúpidas e orgulhosas. Ela era claramente uma pessoa. Era? Mediava dois mundos completamente diferentes. O de dentro e o de fora. Era preciso filtrar sempre, lembrava da avó fazendo o café de manhãzinha. O mundo o de dentro não é suportável para ninguém. O compartilhável era raro. Tão raro que virava clichê: era pouco o que havia de realmente importante para ser dito. Quando alguém ligava conjunções, palavras, pontes que tornava o que era inexpressível, dito, todos repetiam como papagaios enjaulados. O clichê é a condição humana.

Sempre havia aquela palavra não dita por existir. Às vezes ela tentava balbuciar numa dificuldade de parto natural. Nada saía. Era uma palavra órfã de som, sequer ainda não existia. Respirava alto irritada. Sentia sempre algo que não ousava deixar-se palavrear. Irritada porque sem palavras, não podia examinar o que era aquilo dela à luz de sua própria compreensão. Tão difícil ser mistério, carregar-se e não saber do que se trata.

Wednesday, September 23, 2009

Acasos afortunados

Ela esfregava a louça fazendo surgir aquela espuma branquinha num movimento brusco. Era de um mecanicismo inconsciente e cheio de raiva. Ele permanecia do seu lado pegando automaticamente a peça ensaboada e posicionando embaixo da corrente de água límpida da torneira. Mudos. A discussão inacabada do almoço continuou suas reticências em silêncio e detergente. De vez em quando ela esbarrava a esponja na blusa e grunhia um protesto irritado de sons que escapavam da garganta. Ele parecia não se afetar pelos ruídos e pela agressividade. Aproveitava a sensação gelada da água nas mãos. Fazia calor lá fora. Foram garfos, copos, pratos, panelas... Agora já dava pra ver o mármore da pia. A louça empilhava-se no escorredor com o magistral esforço engenhoso dele em arranjar as coisas, em organizá-las de modo a ficarem equilibradas no pequeno espaço. Precisavam de um escorredor maior (ou mesmo lavar a louça com mais freqüência). E então sem querer, como quando a gente pertence de repente à dimensão dos acasos afortunados, ao enxaguar o copo espirrou água em seu rosto maquiado. Num gesto espontâneo de contra-ataque ela lambuzou-o de espuma com a esponja. E então toda a raiva deu lugar a uma risonha guerra de sabão e água na pequena cozinha do apartamento. E da janela do 507 voavam pelo ar bolhas de sabão.

Thursday, August 27, 2009

O lusco-fusco do ato em fato: viver em significado


Era uma vez ele, que vivia somente os fatos. Fadado a ver para todo o sempre a realidade visível somente. Vislumbrava a refração da luz nas gotículas do ar e só. Não havia algum lugar além do arco-íris. Era uma vez ele, que acreditava só naquilo que se comprovava. Era uma vez ele, que tinha contratos e não relacionamentos. Era uma vez ele, para quem a subjetividade era uma grande besteira e as terapias alternativas, as maiores lorotas da humanidade. Era uma vez ele, que pactuava com cláusulas de garantia. Era uma vez ele, amaldiçoado pelo empirismo radical dos contos da vida. Um dia então conheceu alguém imune a qualquer certificado científico, inclassificável de acordo com as regras universais, inapreensível por qualquer experiência indutiva ou dedutiva: nem a lógica garantiria. Alguém que não era princesa, não era perfeita e nem oferecia apólice de seguro. Com ela os fatos não cabiam, a lógica desbaratinava, a metodologia era infame. E então ele, que vivia somente de fatos, descobriu que a felicidade era significado e que, pelas regras da probabilidade, teria mais chance de adentrar em sua vida se ele então transformasse seus atos em fatos significativos. Porque viver ia além das funções biológicas, das sinapses ou de atividades enzimáticas. Ir além para viver significando:

amor para a tristeza
conforto para a dor
apoio para a fraqueza
lembrança para a saudade


de um alguém.

Monday, August 10, 2009

O mendigo do girassol

Andava pelo Vale do Anhangabaú quando vi o mendigo e o vaso com um bonito girassol em suas mãos. Ele estava de pé todo garboso como se fosse uma estátua importante de algum duque dos girassóis. Olhava sempre para frente como se enxergasse alguma coisa invisível para os olhos dos outros. Ereto e firme, trazia ao redor dos pés descalços alguns trapos de mantas sujas que deveriam ser sua cama nas noites paulistanas e nos quais o mendigo permanecia de pé como se fosse um carpete vermelho hollywoodiano.

O sol das dez da manhã desenhava artes de sombras dos edifícios no chão e focava como um holofote natural o mendigo do girassol. Pernas andavam apressadas sapateando os segundos preciosos dos tempos escassos. O mendigo impassível não olhava ninguém e ninguém olhava o mendigo.

Aproximei-me receando que a curiosidade cobrasse um alto preço, mas antes ver de perto o mendigo do girassol do que seguir caminho como quem passa por onde não olha, não vê e não enxerga.

À minha presença, ele virou suavemente a cabeça com os cabelos em nó. Aposto que os grandes reis de épocas distantes teriam os mesmos meneios de cabeça e de olhares. Seu cheiro ardia minhas narinas para que me doesse também a sua pobreza, mas ele não inspirava pena, fraqueza ou qualquer sentimento de compaixão.

Devemos ter ficado nos encarando durante segundos que pareceram eternos. Ele então esticou os braços retos e firmes na minha direção e eu olhei para o girassol e para aquele amarelo em pétalas. Obedecendo ao gesto como uma ordem, segurei o vaso com as duas mãos e imediatamente o mendigo deu um passo atrás voltando à sua posição ereta de soldado e recolocando seu olhar no mesmo ponto longínquo de antes. Permaneci parado com meu terno, minha gravata e minha presença ignorada pelo mendigo do girassol. Devia ser assim que os súditos sentiam-se depois da última palavra do rei e do silêncio seqüencial que nada explicava: apenas aguardava a retirada do Palácio Real. Encabulado, também eu, já súdito do mendigo do girassol, retirei-me de sua presença, enquanto austero, ele permanecia de pé sem lançar-me olhar.

Cheguei ao trabalho naquela manhã com o girassol mais bonito que alguém haveria de ver na vida. Passei a regar-lhe e a cuidar de seu crescimento. Adubava a terra e o deixava ao sol durante algumas horas todos os dias. Na manhã seguinte ao encontro com o mendigo do girassol, procurei-o encorajado a solucionar o mistério, mas não o encontrei. Nunca mais o vi, nem nos 29 dias seguintes em que passei pelo local correndo meus olhos à procura dele. Por que o mendigo tinha um vaso de girassol em mãos nunca se saberá, e é preciso conformar-nos com isso como nos conformamos com a vida.

O girassol parece-me que é mágico. Está comigo há mais de sete anos e nunca houve tempo em que não estivesse florido com seu grande miolo marrom-sujo rodeado pela luz amarela das pétalas em ciranda. Parece até uma metáfora vegetal daquele mendigo sujo de pé em meio ao holofote de raios solares das dez da manhã.

Isso, se metáforas vegetais existissem.

Wednesday, July 01, 2009

Dia Monde

, e então de repente a narrativa perdeu-se em um capítulo qualquer através das páginas e a trama continuou rotina não digna de se declarar roteiro.

Estagnou.
Reiterava um ato em cem maneiras diferentes. Girava e tonteava num rodar cíclico infinito

era apenas:
o desgaste/ do grafite
o riscar/ do carbono [numa folha


de papel]



e pensar que poderia ter sido diamante
por uma simples
questão de
pressão

Monday, June 01, 2009

Os cataventos coloridos - ou - Da dívida de viver

Todo adeus é diferente. Mas de uma mesma tristeza que mancha os olhos e que bota nas pupilas um feltro opaco. Olhos que baixavam ao chão e maldiziam a fatalidade, o acaso, ou qualquer coisa que fosse culpada por tudo aquilo.

Era brisa leve e sol leve. Alguém dormia. E mesmo a mais forte intenção de não chorar, chorou. Não bastavam lembranças. Mesmo pequenos convívios. Coisas de rotina que vizinhos testemunham pelas frestas das janelas. Os passos sempre apressados e desengonçados. O arfar afobado que não se escondia entre as palavras numa conversa bruta de informações essenciais somente. O cumprimento de mão afastado já correndo para o próximo compromisso. A simplicidade de quem tentava superar as limitações daquela queda da laje na infância.

Minha memória recorda as broncas das peraltices que eu incentivava na vizinhança. Ele carregava o peso da responsabilidade de adulto. E naquela época eu não sabia.

Agora a consciência adulta me entristecia a caminhada até o destino final daquela tarde. A minha esperança infantil me fez esboçar um sorriso pelos cataventos coloridos girando naquele gramado imenso de flores.

No meio de muitos vultos pretos tristes, um joão-de-barro fazia sua casa no topo da árvore que nos dava sombra a querer nos mostrar que o milagre da vida continua. E continuar da melhor forma possível era a única dívida de todos a ser acertada, não com ele (que foi embora cedo demais), mas consigo mesmos.