Showing posts with label escrever. Show all posts
Showing posts with label escrever. Show all posts

Saturday, September 29, 2018

Script

gif por Mindaugas Dudenas















Saboreio cada coincidência da vida
com a inocência burra
de que seja um sinal
vindo de algum diretor ou roteirista
que esteja querendo me dizer:
- tá uma bosta essa cena
arruma isso aí!

Mas já deu
Porra
Em todos esses anos
Será que ainda não perceberam
Que eu não
decorei as falas?
entendi a trama?
incorporei a dama?
Eu nem sei a cara

que é suposta de eu fazer
pra performar em cima desse palco
no foco dessas luzes
no buraco que é esse teatro

EU NÃO SOU ATRIZ
eu berro
eu nego
seguir aquele script

meu ato é bater tecla
meu vício é vomitar inícios
eu sou do backstage
eu escrevo os destinos
eu que crio os conflitos
e me entretenho com todos eles
rindo da pequenez dos egos
expondo as sombras de todos os personagens
é tão divertido
que me boto a pensar

Que se Deus
tiver o mesmo gosto de autor que eu
estamos mesmo todos
fodidos.


Saturday, April 07, 2018

Algum interpretador de sonhos?



Eu estava andando numa terra desconhecida e tinha botinas. Nas costas uma mochila com quase nada. Eu respirava paz na brisa. E eu falava mil línguas diferentes. Tantas que nem lembrava qual era a minha língua materna.

Era um parque. Num outono. Fazia vento frio e folha caindo. Eu fazia o que sempre gostei de fazer quando é outono: pisar nas folhas enroladinhas e secas daquelas que fazem barulho quando pisadas.

Aquilo que não grita quando pisado não merece nem a pena.

Meu cachecol parecia que ia me enforcar de calor na nuca e eu tinha paz. As pessoas passavam com passos apressados nas calçadas, mas eu tinha paz.


===

nota: A verdade é que eu nunca consegui deixar esse espaço, mas me aposentei dele voltando de vez em quando, na frequência de quando a gente abre um baú cheio de fotos antigas e se enche de nostalgia lembrando que aqueles sim, eram bons tempos. Tempos em que eu me permitia sonhar.

Mas eu quero me permitir também agora. Afinal, nunca deixei de ser a otária que acredita em mundos onde os pequenos detalhes comunicam poesia. Nunca deixei de procurar por pessoas que falassem essa língua. Por olhos que se permitissem enxergar ao invés de só serem sedados pela luz da tela de um smartphone. Por papos raros, que de tão raros, quando acontecem, abraçam a alma e nos esvaziam do peso que nem sabíamos que arrastávamos com o pesar das nossas pálpebras.

Eu ainda sou essa otária. Nada mais justo que retornar.

Eis-me aqui, ainda sonhadora. Ó ela resiste. ainda em 2018. Ela ainda insiste 
- em sonhar.

Wednesday, April 05, 2017

A Borralheira

O céu quando se tinge de anoitecer, bem no final da tarde. Eu não sei se é a alma ou se é a busca, sinto a urgência de me desvendar bem ali naquele momento. Naquele prazo do céu. Antes de fechar mais um dia e o enigma todo se reorganizar na madrugada do sono e eu já ser outra na manhã seguinte.

Mas aí. O pôr do sol.

E eu ainda não tinha descoberto.

O coração ainda dando coices no tórax.

Por dentro.

Esse cavalo selvagem.

É cansativo. É estranho.

É inconveniente.

Tenho a escrita cansada. As palavras perdidas. As frases curtas, porque minha alma ofega. Não aguenta mais períodos longos. Tem pressa. Tem urgência. Meus dedos são pulmões de fumante. Que exageraram de aspirar a sujeira do grafite dos lápis. Soprando anotações nebulosas no moleskine a tiracolo. Carbono. Se fosse outra composição. Meus dedos estariam com diamantes. Mas apenas coleciono obsessões

pelo inesperado.

E me borrei de carvão.

(dos rabiscos amassados de Junho de 2015)

Tuesday, March 12, 2013

A minha arma


Sou mulher e escrevo. Sou plebeia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi coisas maravilhosas em minha vida. Fiz coisas maravilhosas em minha vida. Durante algum tempo, o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou.

(...)

As boas mulheres rezam. Eu escrevo. É minha maior vitória, minha conquista, o dom do qual me sinto mais orgulhosa; e as palavras, embora estejam sendo devoradas pelo grande silêncio, hoje constituem minha única arma.


(Rosa Montero)

Tuesday, January 08, 2013

Vísceras

"Escrever um livro é sempre desenterrar, acho eu. As palavras estão em algum lugar bem fundo de nós. Não um fundo que conhecemos, mas aquele lugar sem lugar que fica abaixo do fundo falso que existe em nossos interiores. Desenterrá-las significa arrancar um pouco de sangue dos nossos confins. Um livro é sempre meio ensanguentado, um pouco de vísceras, alguns miolos, um resto que não se sabe se é humano ou alienígena."

(Eliane Brum)


ilustração de Gabriel Moreno


Friday, October 26, 2012

Talvez algum capítulo qualquer

art by Carne Griffiths

Era um dia difícil, daqueles em que o sol trava batalha com cinzas nuvens, condensação de poluição e desesperanças sublimadas. Não se sabia se era outono ou se era só São Paulo mesmo acordando em mais um dia de concreto e luzes artificiais.

Um cigarro queimava entre dois dedos sinalizados com duas unhas vermelhas descascadas. Era seu árido café-da-manhã habitual. Herança herdada da época em que a humanidade absorveu até os trejeitos das máquinas a vapor: era moderno soltar fumaça. Sinal de tecnologia e refinamento. Hoje, tecnologia era reduzir tudo às mínimas gramas e com fonte de energias renováveis. O trend era ser ecofriendly. Ela tinha nascido na época errada.

De camiseta grande e calcinha, finalizava o visual da manhã com cabelos desgrenhados e olhos fundos em pernas compridas de flamingo. Estava sexy em ser largada: a ousadia de se contrariar a ditadura de baby-dolls e robes de seda.
[foda-se.]
A mão esquerda formigava.

Olhou pro despertador velho. Marcava as cinco e meia. Às cinco e quarenta e cinco acendia o segundo cigarro do dia.

[desodorizador de ambiente.]
Era só isso que a mãe falava nas desagradáveis vezes em que aparecia por ali remexendo em cada rachadura e lasca de tinta descolada das paredes da quitinete alugada. De mau gosto.

Ela achava confortável e lhe bastava. Que fosse limpo quatro vezes por semana e que, claro, tivesse um cinzeiro e uma sacada. E bastava. Neide sabia como ninguém que a praticidade era a única decoração do espaço. Nada de bibelôs, porta-retratos, quadros ou bobeirinhas de quem idolatra o passado, faz da estante um altar e transforma a sala num templo místico da vida pregressa. Ela não tinha passado. Tinha somente o hoje e quem tinha escolhido permanecer nele. Simples. E bastava.

E facilitava o trabalho da Neide na limpeza.

Tomou seu banho rápido com a precisão higiênica de uma enfermeira. Sabonetes antibacterianos eram o seu perfume diário e a sua tranquilidade na batalha contra germes e inimigos ocultos.

Vestiu a camisa e imobilizou-se na saia-lápis finalizada com scarpin. Contornou os olhos desenhando a moldura da seriedade para suas pupilas - 

[que se alguém parasse para reparar, eram de um pouco de doçura perdida.]
A maquiagem era sua pintura moderna de guerra. Suspirou sem sentimento e bateu a porta à chave deixando um recado grudado na geladeira para Neide. E seria o último recado que escreveria dessa vez.

Tuesday, October 23, 2012

How old is your soul?












Carta de Bukowski quando finalmente consegue fazer da escrita sua profissão e meio de vida.

---------

You know my old saying, “Slavery was never abolished, it was only extended to include all the colors.”

And what hurts is the steadily diminishing humanity of those fighting to hold jobs they don’t want but fear the alternative worse. People simply empty out. They are bodies with fearful and obedient minds. The color leaves the eye. The voice becomes ugly. And the body. The hair. The fingernails. The shoes. Everything does.

As a young man I could not believe that people could give their lives over to those conditions. As an old man, I still can’t believe it. What do they do it for? Sex? TV? An automobile on monthly payments? Or children? Children who are just going to do the same things that they did?

(...)
They never pay the slaves enough so they can get free, just enough so they can stay alive and come back to work. I could see all this. Why couldn’t they? I figured the park bench was just as good or being a barfly was just as good. Why not get there first before they put me there? Why wait?

(...)
So, the luck I finally had in getting out of those places, no matter how long it took, has given me a kind of joy, the jolly joy of the miracle. I now write from an old mind and an old body, long beyond the time when most men would ever think of continuing such a thing, but since I started so late I owe it to myself to continue, and when the words begin to falter and I must be helped up stairways and I can no longer tell a bluebird from a paperclip, I still feel that something in me is going to remember (no matter how far I’m gone) how I’ve come through the murder and the mess and the moil, to at least a generous way to die.

To not to have entirely wasted one’s life seems to be a worthy accomplishment, if only for myself.

yr boy,

Monday, October 22, 2012

The challenge


Tuesday, May 15, 2012

Do que me assaltava o inesperado

imagem via Langdon Graves
Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura. O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”


(...)



“Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

Clarice Lispector

Wednesday, April 11, 2012

Complexo de Rubik

ou ainda, cogito ergo sum


Em quase todas as vezes que ocorria de repetir o episódio, voltar era parte quase de um despertar assustado de quem dormiu demais e ia acabar perdendo a hora. Corre-se aloucadamente na esperança de retomar o tempo perdido (isso se alguma vez na vida pudemos ter o tempo em posse, para dizer então, que em algum momento o perdemos).




- Uma mente não é como aldeia que se despovoa. Mais fácil ser uma colônia de ursos que às vezes entram em hibernação. Mas que depois acordam e fatalmente urram de novo. Eudaimonia.

Friday, July 08, 2011

Daquilo que é o começo da minha escrita

Acontece apesar de.
mais ou menos assim:



Saturday, July 02, 2011

Criação

De repente, modelo silêncios. O que é mais importante do que o que se escreve, é aquilo que não se escreve. O que se deixou de escrever é aquela parte obscura que só sabe aquele que riscou parágrafos ou até mesmo páginas completas. E talvez essa seja a parte mais importante: o que se escolheu não dizer. Não por covardia, mas por opção de criação. Escrever é brincar um pouco com o poder.

- uma forma primitiva e pífia de poder, mas ainda, poder

Wednesday, January 26, 2011

Sensibilidade a sangue frio


“Escritores são seres muito, muito cruéis. Estão sempre matando a vida, a procura de histórias.”
Caio F. Abreu.

Wednesday, January 19, 2011

ponteiro



por Frank Chimero
via donttouchmymoleskine

Tuesday, January 11, 2011

Francamente

Eu sou terrível quando escrevo. Mas pior ainda quando deixo de fazê-lo.

.
Chamem do que quiserem.

Saturday, December 18, 2010

Foi

... e depois de tantas reticências, foi pontuando o meu último pensamento anterior nesse blog que encontrei finalmente o meu ponto final justo para esse espaço aqui. Injustificável em palavras, mas com um grande sentido pro de cá das coisas que me são íntimas. Ontem aconteceu de eu ver - de repente - com olhos que já não eram os meus.

Enfim, pra quem sempre viveu de reticências, asseguro que há de se encontrar o ponto final em algum momento. E a partir de então, um novo parágrafo a ser escrito

- que pode mudar o curso da história toda.


Imagem via: /davidsurfer

Posfácio (???)

Escrever e saber que alguém podia me ler e compartilhar comigo de um pensamento que antes só dividia com meu travesseiro e meu caderninho de sobrevivências, me possibilitou - se não chegar às respostas - ao menos aprimorar minha capacidade de formular as perguntas certas. Foi escrevendo aqui que foi crescendo a sensação de que não existe uma verdade a ser procurada. Existem as dúvidas. E eu que sempre tinha procurado quais seriam as minhas verdades, sem saber que o mais importante era saber quais eram as minhas questões.

Suspeito que cada um carregue uma dúvida importante que deve ser descoberta. Não se trata de desvendar qual é a sua verdade, mas sim qual é a sua pergunta, a sua autêntica pergunta. Não raramente criamos milhões de outras dúvidas desimportantes a atrapalhar a nossa reflexão sobre o que realmente importa pra nossa vida, pra nossa alma (ah sim, no último post desse blog, ouso citar a "alma"!). Claro que não poderia ser fácil, sempre há espaço pra auto-sabotagem. Sempre! Mas começo a acreditar que quanto mais procurarmos saber quais são as nossas dúvidas reais - aquilo que realmente queremos saber, o que realmente nos importa perguntar - é que começaremos a refletir e trilhar um caminho em que nos surpreenderemos conosco, nos pegaremos boquiabertos ao desvendarmos nossas próprias manias, hábitos, medos, vícios, defeitos, qualidades, fraquezas, forças...

E é por isso que escrever me é tão importante. É por isso que adiei por pelo menos umas quatro vezes a tentativa de finalizar esse blog. Porque é aqui que me estruturo para conseguir ser desestruturada. Foi aqui que treinei a organizar aquilo que era caos - minha mente - e percebi que deveria aprender a organizar esse caos de maneira caótica. É difícil. Ainda não consegui totalmente. Mas chegar a esse pensamento, a essa tímida conclusão de que é preciso aprender a respirar o caos e a abandonar a ilusão de verdades absolutas, que me faz perceber que cheguei ao ponto. Ao ponto em que me deparei comigo, com uma eu que era aquela eu que eu estava precisando ser no início disso tudo.

Não sei se cabe aqui um "obrigada". Eu já deveria estar treinada, mas é estranho se referir de modo pessoal ao vento de pessoas imaginárias e futuras que possam ler essas palavras. Cabe de qualquer forma um "obrigada" que agradeça aos comentários de amigos leitores, ao carinho dos visitantes, às pontuações de anônimos.

Não deixa de ser difícil.
Era pra terem saído 7 linhas finais, afinal um ponto final é rápido. É pontual. Mas me permito (ou melhor, me rendo) à vontade de alongar quase em reticências homeopáticas o que é fatalidade. Uma fatalidade feliz. De um ponto final em que os sonhos não serão mais extraviados.

É feliz.


Thursday, September 30, 2010

Livre-arbítrio

Eu escrevo pra nada e pra ninguém. Se alguém me lê é por conta própria e auto-risco.

Thursday, September 09, 2010

Durian

Tenho um problema. Dos grandes.
Tentei diversas vezes escrever e não consegui. Fiquei com medo. Pensei, talvez, que minha capacidade de olhar pras coisas e pensar sobre elas tivesse sido extinta. Como quem abre uma janela pra querer refrescar o ar parado de uma sala e acaba por apagar a chama de uma vela por causa do turbilhão de uma corrente de ar que invade o espaço.
Eu precisava mesmo de uma corrente de ar. Mas o que entrou quando abri essa janela foi um tornado. Gigantesco, furioso, que carregava a vida do mistério do universo em seus rodopios. Pronto, pensei. Não tenho mais nem aquela chamazinha que era a única coisa que iluminava todo aquele quarto confuso e desarrumado (mal iluminava, mas ao menos aquela luz amarela permitia ver esboçados vultos). Estou no escuro. Sozinha. Silêncio. Imobilidade.
Sorrio.
Não tenho mais a tarefa de descrever todo aquele tufão. Sei bem que foi um recado da Via Láctea.
Não tem como descrever o indizível.

Thursday, October 29, 2009

Distúrbio

Talvez
a certeza seja uma tábua a qual fatalmente
nos agarramos em meio ao dilúvio caótico cotidiano...
mas com certeza a dúvida é necessária:
amplia horizontes alarga
nossas mentes a possibilidades
múltiplas, enriquecedoras, interessantes
e que nos fazem
seres humanos - se não melhores - ao menos
menos pretensiosos.

Eu juro que toda vez que venho tentando escrever ou exprimir algum pensamento ele me sai assim: paradoxal, péssimo e auto-anulante. Volto quando disser coisa com coisa.

Wednesday, July 01, 2009

Dia Monde

, e então de repente a narrativa perdeu-se em um capítulo qualquer através das páginas e a trama continuou rotina não digna de se declarar roteiro.

Estagnou.
Reiterava um ato em cem maneiras diferentes. Girava e tonteava num rodar cíclico infinito

era apenas:
o desgaste/ do grafite
o riscar/ do carbono [numa folha


de papel]



e pensar que poderia ter sido diamante
por uma simples
questão de
pressão