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Friday, October 26, 2012

Talvez algum capítulo qualquer

art by Carne Griffiths

Era um dia difícil, daqueles em que o sol trava batalha com cinzas nuvens, condensação de poluição e desesperanças sublimadas. Não se sabia se era outono ou se era só São Paulo mesmo acordando em mais um dia de concreto e luzes artificiais.

Um cigarro queimava entre dois dedos sinalizados com duas unhas vermelhas descascadas. Era seu árido café-da-manhã habitual. Herança herdada da época em que a humanidade absorveu até os trejeitos das máquinas a vapor: era moderno soltar fumaça. Sinal de tecnologia e refinamento. Hoje, tecnologia era reduzir tudo às mínimas gramas e com fonte de energias renováveis. O trend era ser ecofriendly. Ela tinha nascido na época errada.

De camiseta grande e calcinha, finalizava o visual da manhã com cabelos desgrenhados e olhos fundos em pernas compridas de flamingo. Estava sexy em ser largada: a ousadia de se contrariar a ditadura de baby-dolls e robes de seda.
[foda-se.]
A mão esquerda formigava.

Olhou pro despertador velho. Marcava as cinco e meia. Às cinco e quarenta e cinco acendia o segundo cigarro do dia.

[desodorizador de ambiente.]
Era só isso que a mãe falava nas desagradáveis vezes em que aparecia por ali remexendo em cada rachadura e lasca de tinta descolada das paredes da quitinete alugada. De mau gosto.

Ela achava confortável e lhe bastava. Que fosse limpo quatro vezes por semana e que, claro, tivesse um cinzeiro e uma sacada. E bastava. Neide sabia como ninguém que a praticidade era a única decoração do espaço. Nada de bibelôs, porta-retratos, quadros ou bobeirinhas de quem idolatra o passado, faz da estante um altar e transforma a sala num templo místico da vida pregressa. Ela não tinha passado. Tinha somente o hoje e quem tinha escolhido permanecer nele. Simples. E bastava.

E facilitava o trabalho da Neide na limpeza.

Tomou seu banho rápido com a precisão higiênica de uma enfermeira. Sabonetes antibacterianos eram o seu perfume diário e a sua tranquilidade na batalha contra germes e inimigos ocultos.

Vestiu a camisa e imobilizou-se na saia-lápis finalizada com scarpin. Contornou os olhos desenhando a moldura da seriedade para suas pupilas - 

[que se alguém parasse para reparar, eram de um pouco de doçura perdida.]
A maquiagem era sua pintura moderna de guerra. Suspirou sem sentimento e bateu a porta à chave deixando um recado grudado na geladeira para Neide. E seria o último recado que escreveria dessa vez.

Sunday, October 21, 2012

O livro que não se deixava escrever

Carne Griffiths - artist work in ink tea and alcohol
Deitou-se na banheira e deixou-se afundar no líquido com a temperatura ideal. Quente, suave, aquela sensação de não saber mais o que era interno ou externo. A equivalência da temperatura dissolvia o corpo com os sais de banho. O mundo era vaporoso e abafado como um útero.

Se de repente morresse, queria morrer enrugada naquela banheira como um feijão, que num potinho com algodão, foi regado demais e apodreceu. Ela morreria agora. Não de tristeza, mas de puro contentamento e plenitude de quem está na Terra sem missão nenhuma.

Abriu os olhos e já era uma outra era. Conferiu as pontas dos dedos: enrugadas. Fosse um desmaio e acordava já renovada como se tivesse morrido e renascido.

Levantou-se e sentiu o mundo mais pesado. Fora dali, os azulejos pesavam, o vapor do banheiro pesava, o ar pesava, a toalha pesava. Quando se enxugou ela tinha 130 quilos.

Monday, November 07, 2011

Les enfants

Sempre quando parecia que de repente, os pés perdiam o chão, abaixava devagarzinho por precaução e se estirava ali, onde não se ultrapassava em queda. Invadissem o quarto e veriam um ser estirado no chão a olhar o teto branco, a de repente sentir a percepção de um mundo de gigantismos. Funcionava bem. Era como um desmaio voluntário. Não esperava a obrigação da inconsciência: se largava ali ao solo por uns minutos, por deliberada escolha.

O chão estava ali ainda. Sentia pelas costas. Espalmava os dedos grudando-se no plano. Impensável. Os pés a dizerem que o tinham perdido. Ma che brutta figura! Não se pode nunca confiar nas solas dos próprios pés. Dançarinos atrapalhados. Errantes. E reticentes.

Sabia que isso na verdade era hábito de infância - de quem achava que ao dormir na parte debaixo do beliche, estava era se escondendo debaixo da cama.

A maldição imposta é de que repetirei minha infância até me enjoar de crescer.

Wednesday, October 19, 2011

Atlântida

imagem via: Audrey Kawasaki
Existem momentos em que o mundo pára de rodar e as borboletas dançam em câmera lenta no ar. Momentos em que o tempo subsiste dentro de um segundo que parece infinito e estamos todos submersos numa liquidez imprevisível, afogando em nossas próprias ideias.

Nessas horas agradeço por ter barbatanas e guelras. Pairo por sobre todo o meu próprio universo e reino imperceptível no contratempo dessa outra dimensão. Tento pescar as leis, mas a elas nada atrai que seja pendurável num anzol. As regras devem ser recriadas e eu não sei inventar nada que não seja discutível e duvidoso. Embora reine.

Quando escapo do instantâneo líquido e, enfim – respiro – ninguém, nenhum deles prestou atenção ou percebeu que eu acabara de voltar de uma viagem distante, bem distante. Mesmo eu estando a carregar pesadas bolsas da viagem e a mantê-las debaixo dos olhos. É imperceptível.

- O que foi?

Então balanço a cabeça – movimento padrão de quem acaba de sair de um profundo mergulho - e sorrio da forma mais banal possível “nada”.

E me concentro em retomar o exercício dos pulmões e da pleura. Nos últimos tempos tem sido tão mais fácil respirar por brânquias, que vez ou outra me pegam com um olhar de peixe morto vislumbrando qualquer coisa distante num horizonte entre uma gargalhada despretensiosa e outra – naqueles desprotegidos milésimos de segundo em que se está com a guarda baixa.

Não faz mal. Aprendi muito rápido a retomar o posto e o mais importante – a sorrir
voluntariamente.

Tuesday, August 23, 2011

Happy Hour

Nos bolsos cheios de coragem, tentou esquentar os dedos gélidos do frio paulistano. Torceu para achar uma luva no chão, um cobertor nas esquinas, um aquecedor de alma. Caía garoa fina. Por fim, a coragem caiu do bolso enquanto remexia velhos pensamentos que levava a tira-colo. Não se deixaria mais encontrar facilmente: se esgueirou como ratazana pelos bueiros da cidade. Os passos largos e rápidos entraram num pub cheio de pessoas programadas para sorrir naquela sexta-feira em que a felicidade tinha hora marcada e dia da semana definido. Como se pode viver num mundo desse? Com poucos que podem viver de sonhos. Com poucos que podem realmente escolher. Com muitos que se enganam transferindo a frustração em extravagância nas compras de itens desnecessários e geringonças tecnológicas de nomes futuristas. Para quê? Pediu uma cerveja. Jogou o cotovelo direito sobre o balcão com a raiva de um golpe destinado a falhar. Ruiu um pouco por dentro e apoiou o queixo barbado no punho aberto que doía.

Pensou nos punhos abertos que se abriam e fechavam não sabia ainda como. Talvez fosse a alma escorrendo pelos punhos, a vida vazando pelas palmas das mãos. Doía pra cacete. Mais do que cortar a cara fazendo a barba pela manhã. Fria.

Eram dias de vento cortante e canelas resfriadas. Ele desdenhava do frio, recusava abrigo de guarda-chuvas, ignorava a existência de cachecóis ou luvas. Lembrava-se da utilidade de todos eles somente quando gelava embaixo da garoa fina: saboreava um arrependimento expresso e depois esquecia quando o sentimento de sobrevivência inflava seu orgulho. Hábito adquirido de menino. Ele enfrentava o tremor e dentes batendo com ousadia e teimosia. Mania de topar sermões maternos, de querer provar o misticismo errôneo da ligação friagem e sucesso das investidas do vírus da gripe. Não desistiria tão fácil da luta inconsciente. Haveria de morrer de resfriado. E imaginar para si esse final sarcástico, o fazia sorrir com ironias penduradas na argola do piercing que furava seu lábio ressecado pela baixa temperatura. Não existia calor em São Paulo. Não existia amor em São Paulo. Encostava o gargalo da garrafa na boca que ardia e se contentava com a leve dor irritante. Como se os pequenos incômodos que suportasse fossem troféus, ele escolhia não se privar de nenhum. Passatempos para se distrair de um incômodo maior, a verdadeira arte na vida era saber como enganar a si próprio - por questões de sobrevivência.

Sozinho, começou a contar quantos sorrisos iludidos esticavam-se ao seu redor. Descortinavam dentes brancos, dentes de fumantes, dentes tortos ou recém-endireitados por aparelhos metálicos. Sentia pena daqueles dentes. Sentia-se solidário a todas as arcadas dentárias expostas assim, por nada. Sem justificativa cabível. Ainda mais neste frio, pensou lambendo os lábios ardidos. Nenhum hidratante labial. Recusava também esse conforto. Não admitiria trazer no pescoço a cara de alguém que parecia acabar de comer um frango assado e desconhecer o que era um guardanapo. Preferia a boca rachada e sangrando no dia seguinte ao mínimo sinal de estiramento dos lábios. Ao menos era improvável que ele sorrisse nos próximos meses, ou ainda nessa vida, portanto, sem ameaças. Tudo estava então em paz. Absoluta paz. Bocejou entediado. O lábio esticou. Rachou.

Sangrou.

Tuesday, June 21, 2011

Às vezes a coragem inédita nasce de habituais covardias

A vida é bela se a gente se esforça
e permanece atento
mesmo quando parece só existir

-silêncio

Wednesday, June 01, 2011

Palavra do dia

Acordei no frio preguiçoso da manhã que quer estender a madrugada no travesseiro. Raramente me lembro do que sonhei. Tenho esperanças de que talvez um dia venha a me divertir com todos esses sonhos extraviados e imagino que nas horas finais, ao invés de ver o filminho da minha vida repassando todos os momentos na agonia do fim, eu vá ver tudo aquilo que esqueci ao acordar pelas manhãs. Essa amnésia despertante deve ser porque eu viva muito e sempre de sonhos nas horas impróprias e não sobre muita coisa pro descanso no dormir. Deve de existir uma cota de sonhos para cada vida. E a minha, esgoto-a de olhos abertos.

Hoje de manhã acordei me esquecendo de tudo que vivi nas últimas seis horas de escuridão e curiosamente me veio logo uma palavra na cabeça. Liberdade. Não sei se a você acontece muito isso, mas comigo é até recorrente. Acordar e ter uma palavra na cabeça. Qualquer uma... objeto, verbo, conjunção, adjetivo... Um dia acordei com a palavra 'vidro' na cabeça. Ficava saboreando o fonema engraçado da consoante dupla: vidrrrrro. Parecia que degustava mais a palavra do que o café da manhã. Outro dia acordei com a palavra 'jagunço' e fiquei pensando em como é engraçada. Às vezes acordo com o verso de um poema na cabeça: 'diga trinta e três'. Loucurinhas inexplicáveis que me valem o dia.

Hoje porém a palavra foi meio clichê. Gosto quando acordo com uma palavra exótica tipo 'bromélia', mas o que tinha pra hoje era 'liberdade' mesmo. Chato. Desejo do mercado de luxo das almas do mundo. Ao pronunciar as sílabas sinto só um frescor de hortelã de bala imaginária na língua. LIBERDADE.

Tentei enxotar a palavra como quem espanta um mosquito que insiste em perturbar. Sacudi a cabeça, tentei queimá-la com o secador de cabelos. Palavra inconveniente. Liberdade...

Liberdade do quê?

Eis que comecei meu monólogo maiêutico logo pela manhã antes de tomar minha dose de coragem diária para enfrentar pela milésima vez o caos do metrô de são paulo.

imagem via pekka
Liberdade... Liberdade é escolher aquilo à que vamos nos prender. Porque nenhum homem é livre. Todos somos presos às nossas escolhas. Liberdade é então o luxo de poder decidir ao que estaremos presos. Embora a gente não note, temos todos essa liberdade: o momento em que a vida nos coloca algumas questões para decidirmos ao que nos prender. Percebi muito que essa escolha deve ser feita pelo coração, e como isso é clichê... Existe uma revolta constante contra o clichê como se ele fosse pecado. Fiquei pensando em como a vida nos exige pouco que insistimos em complicar no muito. Parei com o coração na boca enquanto sapateava correndo pra mais um dia igual a todos os outros:

- se for para ser presa, quero o aperto de um nó no punho com um laço eterno que dure uma vida toda.

Suspeitei desde o muito antes: a única coisa que me parece durável por toda uma vida e que parece realmente valer a pena no final das contas são as idéias.

Definitivamente sou o clichê de uma romântica idealista. Eis a minha surpresa. Eis a minha descoberta. E a minha reinvenção.

Pelo menos a de hoje.


Tuesday, May 17, 2011

Os ombros

imagem via gettyimages

As passadas por entre os passantes tinham urgência desconhecida. Desconfiavam que era a emergência do hábito de se ter pressa sem fim específico: - por rotina. Essas passadas carregavam ombros que formigavam emocionados com sei-lá-sabe-se-o-quê. Diziam que era uma percepção interminável do que era mistério. Tão torturante ter consciência plena e irremediável de que é no instante próximo que pode morar a resolução de todo o enigma. Pois bem. Esses ombros tremiam imperceptíveis porque por alguma maldição tinham despertado para o caos da espera.

Estavam vivos. Estavam ansiosos por um toque diferente do peso de uma bolsa. Arrepiavam-se imaginando o futuro imediato das possibilidades inúmeras do universo. E depois desapareceram na multidão de um vagão de trem que carregava tudo menos a sutileza dos toques. Foi no esbarrão da mal-educação que os ombros anestesiaram-se novamente na truculência do que era massivo - do que era cinza e urbano na cidade. Um dia despertariam do cotidiano de carregarem o peso das alças de bolsas antiquadas e voltariam de novo a sonhar.

Porque os ombros também sonham.
Verdade.

Thursday, February 10, 2011

La polvere

Dentro un raggio di sole che entra dalla finestra,
talvolta vediamo la vita nell'aria.
E la chiamiamo polvere.
(Stefano Benni)
Dentro de um raio de sol que entra pela janela,
às vezes, vemos a vida no ar.
E a chamamos de poeira.
(Stefano Benni)





Um filme produzido e dirigido por um amigo italiano querido e talentoso, Giuseppe Carrieri na Índia. Só existe a versão traduzida em italiano, mas já pedi por uma versão em inglês. Por enquanto, tentem ver a poesia que existe nas imagens. A menina que cultiva flores no asfalto e se perde por entre os carros enormes. O garoto que encontra a premiação mais valiosa do mundo em uma flor.

No começo do filme: "Non si vince tanto facilmente. Ma ogni mattina mi sembra un po' troppo!".
Cada manhã é uma vitória sim! Pra quem sabe enxergar a beleza da vida em cada gesto. E em cada flor.

Tuesday, February 01, 2011

Vilanidade

Precisando de motivações a gente pode enxergar coisas muito estranhas. Dizem por aí

- serás teu pior e único inimigo por toda a vida.

Eu??? Recuso-me! É a comprovação da solidão sem escapatória, da arena deserta desprovida de golpes, sem os arautos marciais, sem arte, sem duelos ou dualidade. Recuso. Minha fraqueza pede um suporte, uma cara, um nome, um alvo. Pede substância pro tiro. Requer a emoção da reação, do ataque, do desvio. Precisa da atenção no movimento do outro, da bofetada do alter, da acusação nominada pra reagir.

Digo conscientemente:
- preciso mesmo é de um arqui-inimigo cruel.

Perdoem-me os especialistas do auto-conhecimento e da auto-superação. Preciso projetar meus ódios, meus medos, meus amores em suportes alheios. Não me serve pintá-los no espelho. Disso vem também o de escrever. Boto em letras o de mim, sim, mas sempre na provocação causada pelo outro, pela cena do outro, pela história do outro, pela fala do outro, pelo choro do outro. Vivo do comensalismo. Sem a alteridade não há.

Bem que sempre soube ser assim, mas tentei. Tentei projetar o vilão e o adversário dentro de mim, ser eu mesma aquilo a se combater, mas não surtiu o efeito: sou uma vilã condescendente demais com meus próprios medos. Tento a ridicularização mas só resulta numa auto-piedade sádica. Serve ao final pra só rir, e rir tira todo o crédito do maquiavélico. Não sirvo como meu próprio vilão, a sério.

-eu sempre precisei da projeção e não do reflexo.






The Hollywood Issue - Fourteen Actors Acting
The New York Times Magazine

Wednesday, January 12, 2011

Habitual

Joga-se na cama e a sensação do banho nos minutos anteriores já é o portal pro sono. Fácil assim. Só que não foi dessa vez: a cafeína resolveu que seria justo hoje o dia a mostrar a que veio. Encontrou dois olhos arregalados e três cadernos antigos revisitados. E talvez um novo sonho. Outro ou o de sempre.

Friday, October 29, 2010

Cactos esquecidos


Hoje eu tirei três horas e fiquei conversando com a minha mãe. Gosto por demais da conta. Hoje eu acordei e pensei em três coisas muito bonitas. Hoje eu não sinto cheiro de aborrecimentos, ou chateações, ou mágoas. Tô respirando tranquilidade (que preciso muito nesse período).


imagem via: ffion-atkinson

Deixei todos os pequenos cactos que cultivo, completamente esquecidos na beirada da janela.

E gostei. O caos pode morar fora. Mas aqui dentro
paz de espírito.


Tuesday, October 26, 2010

Na soleira da porta


imagem via: gettyimages

Era nas palmas das mãos e na articulação dos joelhos que se apoiava toda a minha curiosidade. Não só a minha. A de meu primo e a de minha irmã caçula. Era só chegar visita na casa da vó que logo deixávamos o esconderijo-mirim e engatinhávamos invisíveis para detrás do sofá da sala onde os adultos conversavam coisas secretas. Em todas as vezes os assuntos eram ininteligíveis, chatos e entediantes, mas sempre continuávamos com o ritual. Era quase como se fossem as nossas boas-vindas.

Vó não se importava. Ria até. Olhava pra visita com cara de "crianças-sabe-como-são" e escapava um risinho orgulhoso, mimo de seus netinhos. Era carinhosa a vó. Com a delicadeza e a paciência que cultivou em épocas de trabalho e suor na lavoura.

Acabava que não obtínhamos nenhuma informação interessante na conversa da sala, mas na verdade o interesse real era sempre substituído pela alegriazinha esfuziante de acreditar-se invisível. Criávamos rotas por detrás dos sofás, engatinhando com destreza como faria Sherlock Holmes - se engatinhasse. Soltávamos risinhos de adrenalina. Como vó não falava nada, como se não estivéssemos ali a fazer barulhos esfolando joelhos nos tapetes, tínhamos a certeza de que ninguém nunca soubera de nossas espionadas. Vó era patrocinadora oficial de nossa natureza curiosa e persuadia seus visitantes a conservar o faz-de-conta. As visitas então tornavam-se cúmplices e continuavam a tagarelar alegres com minha vó.

Meus joelhos raquíticos acabavam a aventura vermelhos e irritados como as palmas das mãos. Ganhavam por algumas horinhas uma outra textura doída. O tapete imprimia sem dó desenhos na nossa pele de molecada. Esfoliação têxtil, esfregávamos nosso DNA como se marcássemos território na sala de visitas da vó.

Hoje deixei a antiga tática do engatinhamento e sempre deixo minha curiosidade perder frente ao orgulho de nunca me deixar arrastar para colher qualquer informação que eu queira: mesmo as mais interessantes - aquelas que atiçam e fazem coceguinhas na consciência da gente.

Fiquei indiferente e nem sei como isso se deu. Deve ser resultado de muita ameaça de ditado popular: que a curiosidade matasse só o gato. Quanto a mim, não quero mais saber não. Vó deve estar agora indignada no céu. Devia era ter dado bronca, enxotado a gente da sala já que tudo se acabaria assim tão maduramente sem-graça, sem-interesse, sem-mistério-a-ser-solucionado.

Talvez eu devesse exercitar mais minha curiosidade enxerida. Me vi então subindo devagar as escadas do prédio até o andar de cima. Era sempre à noitinha que todo o barulho começava. Pareciam passos estrondosos que não andavam: terremoteavam num compasso lento no teto de casa. Encostei meu ouvido na porta do 304 e tentei ouvir qualquer diálogo, qualquer voz humana. Nada. Só uma música tranquila quase inaudível. Brrraaaam! ... Brrraam! Só o barulho de um corpo caindo no chão repetidas vezes e uma respiração calma e bem marcada.

Curiosa, curiosa, pude ouvir o risinho da vó consentindo. Ajoelhei e tentei espiar pela fresta debaixo da porta. Me cheiraram os olhos. Fungaram. Quando percebi meu delator canino do outro lado, abriram a porta e flagraram minha curiosidade ali, apoiada nas palmas das mãos e nas articulações dos joelhos. Vi os pés grandes descalços, fui erguendo minha cabeça e enxergando: calça de moletom, uma camiseta branca, cabelos bagunçados e uma cara divertidíssima. Nunca te disseram que a curiosidade matou o gato?

Olhando rapidamente para dentro da sala à procura de alguma pista para que ao menos solucionasse o caso já que minha dignidade estava perdida mesmo, o vizinho de cima me convidou para entrar. Então, o que fazia além de olhar por debaixo das frestas das portas dos outros? Relatei que na verdade sempre à noite ouvia barulhos pesados no andar debaixo e não tinha conseguido identificar. Pensei que pudessem talvez ser alguém desastrado o suficiente para viver caindo de meia em meia hora. Talvez um cego. Ou um velhinho orgulhoso que precisasse de ajuda. O som de um corpo caindo toda hora ao chão como um saco de batatas de toneladas não podia ser bom sinal. Ele riu e se desculpou: é que eu sempre faço yoga em casa quando volto do trabalho. São umas sequências, que exigem que eu fique de pé e depois caia o peso do corpo no chão em posição de flexão, troque a posição das pernas, treine meu equilíbrio, enfim... Hatha Yoga, conhece?

Matriculei-me no dia seguinte em uma escola. Talvez eles me ajudassem com a minha curiosidade irremediável. Quanto ao vizinho, nunca mais tive a capacidade de cumprimentá-lo sem enrubescer: minha dignidade praticamente caiu de joelhos em sua soleira e nunca mais foi recuperada. O vizinho colocou enfim um capacho para a vedação da porta. Não fui lá conferir uma segunda vez. Foi para evitar correntes de ar, entrada de sujeira e vizinhas curiosas, ele brincou quando topei-o no elevador.

Vó lá de cima só riu.

Monday, October 25, 2010

Mentira Poética


imagem via: gettyimages

Numa conversa, sentimentalismo afetado é como o clichê redundante: irritante. É preciso tomar cuidado. Já a praticidade óbvia tira todo e qualquer tesão. É o cúmulo da banalidade. Resultado talvez de uma vida sem imaginação, pobre, desnutrida de mentiras, de poesia. Gosto de conversar com quem foi um bom mentiroso poético. É sempre uma surpresa de definições simples que a gente nunca ousou imaginar: novo porque original, jamais afetado porque não clichê.

Mentira poética nasceu da insônia de ontem. Não uma teoria - porque minha falta de sono não buscava entender nada: tava mesmo é encharcada no ócio. Mentira poética foi praticamente um suspiro. Explico.

Mentiras poéticas são as que a gente aprende a contar pra explicar o que não entende. Aprende-se e exercita-se na infância. É mais ou menos como foram os Mitos. Na infância da nossa civilização, lá estava a mentira poética. Não a má-fé. Não a canalhice. Não o oportunismo. Era só a lacuna de mistério: fértil, arada, puro algodão molhado prum feijão.

A mentira poética exercita a imaginação, o sonho, o incrível. O céu tá assim porque caiu glitter do espaço. Tênis fica apertado pra gente poder ganhar outro no Natal. Água cai do céu porque a nuvem tá peneirando o ar. Bolha de sabão é o seu sopro aprisionado. Feio é só quando a gente fica meio desencontrado. A lua vai sumindo porque ela pisca em câmera lenta. Saudade é dente que cai e só assim que a gente sente falta.

Pipoca é flor do milho que não quis florescer
[e explodiu.

A mentira poética são as primeiras tarefas de brincar com as palavras, de ultrapassar o óbvio, o visível, o clichê. É a liberdade mais gostosa da mentira: não tem contra-indicação. Passatempo que pode preencher um caderninho de anotações todinho. Melhor que contar ovelhas pra conseguir dormir. Foi assim que eu, desde pequena vencia minhas batalhas contra a insônia há muitos anos atrás. Ontem ela ressurgiu mais forte do que nunca. Depois de muito revirar lençóis, chutar almofadas e inventar jingles patéticos, relembrei da antiga tática que nem tinha nome. Então comecei: ... água cai do céu porque a nuvem tá peneirando o ar, feio é só quando a gente fica meio desencontrado, bolha de sabão...
...
e dormi.
e no dia seguinte de manhã apanhava no ar com a caneta todas as que eu ainda conseguia me lembrar.


Essa li de um que deve ter sido um bom mentiroso poético na infância:
Amar é invasão,
só depois é que a gente tenta organizá-la em intimidade
.

Saturday, October 23, 2010

Sonoridades #3

.


quem disse que o cotidiano tem que ser sem-graça?


Thursday, October 21, 2010

Bigodes


imagem via: giovanni_ha


Na porta tem um sininho dos ventos. Sempre teve porque minha mãe diz que deve-se saber quando alguém chega em casa. Mais do que uma ingênua e ineficaz medida de segurança de vila pacata de interior, ela dizia que era porque ninguém merece voltar para casa sem ser recebido.

Desde pequenos montávamos uma mini-comitiva de recepção para meu pai todo dia que ele chegava cansado do trabalho com suas rugas emburradas e seus sapatos engraxados. Éramos eu e minhas duas irmãs. Elas tratavam de toda parte decorativa da recepção diária: pinturas em guache, faixas de papel com seu nome, florzinhas arrancadas do parque. Eu não. Sempre cuidava da parte burocrática da operação. Joana deveria anunciar com animação a chegada do Seu Oliveira enquanto Betinha seria a multidão toda em seus gritinhos de 5 anos. Eu o receberia com meus ares de diplomata verbalizando o boas-vindas. Como foi o dia de trabalho sr. Oliveira? Agora trate de descansar e aproveitar o conforto desta poltrona. Nossa camareira Joana lhe servirá dentro de minutos um delicioso suco de goiaba. E então ela corria toda feliz pra cozinha, onde mamãe a esperava com um copo gelado e fresco nas mãos. Betinha pulava no colo do velho encerrando toda a encenação e arruinando meu comitê receptivo. Sai daí Betinha! A multidão não pode importunar seu Oliveira! Ele está cansado da labuta!

Mas eu acabava sempre por perder. Meu formalismo nunca teve vez contra a espontaneidade da caçula. Seu Oliveira desatava suas rugas em expressões amáveis que cheiravam a amaciante, dava um cafuné nos cabelos curtinhos espevitados e agradecia, agradecia. Logo se embrenhava nos noticiários da noite meio sonolento, meio acordado.

Eu já começava a bolar o comitê receptivo do dia seguinte, acumulando as longas frases nunca ditas das tentativas frustradas anteriores. Talvez devêssemos substituir as faixas borradas da Betinha e profissionalizar com recortes de jornal. Joana me ouvia com seriedade de secretária, mas algumas horas depois já se largava no tapete da sala olhando a tv como se estivesse interessada na voz entediante da jornalista. Era seu passatempo preferido para compartilhar suas únicas horas do dia com o pai. Anos mais tarde pegaria seu diploma de Jornalismo.

Seu Oliveira a algum ponto já roncava pesado no sofá. Eu sentava no chão do canto da sala a olhar praqueles bigodes tão imponentes. Um dia seria como seu Oliveira! Teria grandes tufos de bigodes! E terminávamos assim mais um dia. Pra no outro passar todas as horas bolando a próxima recepção. Esperando pela volta do pai. Esperando o tilintar do sininho.

Hoje sinto saudades. Meus planos nunca vingaram. Betinha continuou a levar a melhor mesmo quando já contava vinte anos. Hoje seu Oliveira não tem as recepções diárias espalhafatosas de outrora, mas minha mãe compensa sempre com um abraço carinhoso e o famoso suco de goiaba. Ele nunca parou de trabalhar, o Seu Oliveira. Dizia que tinha sido mal acostumado. Gostava das recepções. Devemos partir todo dia se quisermos voltar, ressoava a voz de barítono.

Quanto a mim, cultivo meus bigodes e moro sozinho num apartamento na Vila Madalena. Quando abro a porta ouço o tilintar de um sininho dos ventos que minha mãe pendurou ali. Presente para a casa nova. Sempre me deparo com a escuridão da sala e o tilintar do sininho me cumprimenta. Isso nunca me chateou. Hoje porém é meu aniversário, e minha mãe deve vir às dez me trazer um bolo e seus presentes. Seu Oliveira também vem. Assim como Betinha e Joana. Trarão meus sobrinhos.

Isso nunca me chateou. Hoje porém é meu aniversário. E quando voltei para casa o tilintar e a escuridão me cumprimentaram. Comprarei um gato amanhã. Ninguém merece voltar para casa sem ser recebido.

Monday, September 20, 2010

New Age Girl

A vida me parece simples hoje. Como antes poderia ter parecido tão complicada? Talvez foi um lampejo de um sonho muito bom que ecoou durante todo o meu dia. Sei lá. Só sei que toda preocupação, mesmo não tendo sido dissolvida, de repente fez todo o sentido que deveria fazer, com suas proporções no tamanho certo – e não exageradamente aumentadas como eu faço sempre com meus olhos de lentes grossas, hiperbólicas.

A vida foi muito leve hoje. Como pára-quedas das sementes de dente-de-leão que sempre adoro assoprar. Dá aquela sensação de benfeitora dos propósitos da mãe-natureza. Assim. Não sei explicar. Mais ou menos como um tipo assoprador de beija-flor humano. Faz sentido? Não é pra fazer. Talvez porque hoje procurar o que faz sentido me pareça muito, muito pedante.

A vida hoje é inspirar e expirar. Inspirar, expirar. Sorrir também - nos entremeios. Andar descalça e não ligar pra sola dos pés suja. Ler um livro bobo. Cantar alto no banho. Rabiscar desenhos ilógicos. Reler coisas que escrevi há muito tempo só praquela eu do futuro ler. E rir das tragédias passadas, exageradamente dramatizadas e acabar tomando consciência de que sim, sou a drama queen!

Minha mente ainda tenta dar uma rasteira entre o almoço e a tarde tranqüila de domingo. ‘Mas por que? Qual o motivo dessa felicidade gratuita?’ E eu só respondo com a paciência de quem estaria disposta a repetir três milhões de vezes se necessário fosse:

‘Porque sim cacete!’


*ps: pra animar.

Sunday, November 22, 2009

Remoto controle


Centenas de pensamentos perambulam soltos na rua a esta hora. Milhares de olhares agora recostam-se em travesseiros solitários a olhar o branco do teto, as paredes mudas e uma luz que difusa indireta do abajur. Imaginava os pensamentos invadindo as ruas invisíveis como uma grande passeata, cobrindo o asfalto, adentrando as bocas-de-lobo, escalando prédios enormes e tomando-a de assalto.

Olhava para o céu promissor de estrelas infiltradas atrás de pesadas nuvens cinzas. Promessas não são nada mais do que ilusões manipuladas ou doces paliativos. E assoprava a fumaça cinza de seus pulmões, convicta de que escondia milhares de estrelas ao leve sopro.

Pensar nas coisas causava uma irritação desnecessária. As coisas eram. Ela era sendo. Sempre nunca mesma tanto. A vida que cuidasse do resto. Cuidasse do acaso, dos desencontros e coincidências. Sua tarefa era simplesmente ser a cada segundo. Existir. E isso era tanto.

Dedilhou acordes imaginários. Sentiu a alma vibrar junto com o som. Ela produzia. Sorriu satisfeita. A vida era uma grande música que não acabava nunca. Ela ouvia a confusão das melodias e quase sempre se irritava com perfeccionismo ofendido de regente desobedecido. Ah, aquela mania de controle... ainda causaria indiferença.

As pessoas são atrevidas. Claramente estúpidas e orgulhosas. Ela era claramente uma pessoa. Era? Mediava dois mundos completamente diferentes. O de dentro e o de fora. Era preciso filtrar sempre, lembrava da avó fazendo o café de manhãzinha. O mundo o de dentro não é suportável para ninguém. O compartilhável era raro. Tão raro que virava clichê: era pouco o que havia de realmente importante para ser dito. Quando alguém ligava conjunções, palavras, pontes que tornava o que era inexpressível, dito, todos repetiam como papagaios enjaulados. O clichê é a condição humana.

Sempre havia aquela palavra não dita por existir. Às vezes ela tentava balbuciar numa dificuldade de parto natural. Nada saía. Era uma palavra órfã de som, sequer ainda não existia. Respirava alto irritada. Sentia sempre algo que não ousava deixar-se palavrear. Irritada porque sem palavras, não podia examinar o que era aquilo dela à luz de sua própria compreensão. Tão difícil ser mistério, carregar-se e não saber do que se trata.

Wednesday, March 25, 2009

Por tão pouco...

No meio de alguma tarde caótica no seu trabalho, você pode pensar que a vida deveria ser bem mais do que a rotina de fazer seu chefe ganhar mais dinheiro às custas da sua saúde física, psicológica e emocional.

Também pode desejar que um alguém instigante apareça na sua vida. Daqueles com conversas inteligentes e humor ácido sagaz que saiba dizer as coisas mais clichês das formas mais originais e inéditas. Daqueles que provocam seus neurônios sem parecer pedante.

Talvez chegue até a pensar momentos depois, que nem precisaria de ninguém... você se contentaria apenas com uma piada idiota contada por qualquer um. Se contentaria com um chiclete de melancia. Com um all-star ao invés do scarpan obrigatório.

Ficaria feliz até mesmo pela simples liberdade de poder usar da autenticidade e reagir às coisas sem precisar ficar se policiando o tempo inteiro no paranóico teatro do mundo empresarial.

Mas não: são oito horas por dia imersas em jogos de poder irritantes. E depois falam que loucura é o confinamento em uma mansão cheia de câmeras... Se lá existem os jogos psicológicos e o pior na natureza do homem pode ser despertado, aqui a situação é a mesma. Com a diferença de que não temos direito à TV de plasma gigantesca, piscina, academia e a folga de não fazer nada além de festinhas noturnas temáticas com figurinos da Globo.


E olha que no final não temos nem a possibilidade de sonhar em ganhar um milhão de reais.

Tuesday, February 10, 2009

A tentação na selva de pedra

Alguém me olhou hoje nos olhos e disse:
"Você não acha que essa sua ambição pode acabar te atrapalhando?"

Eu respondi olhando firme:

"Só se os meus sonhos fossem maiores do que a minha competência. Eu quero voar muito mais alto do que isso."



E não retiro nem uma palavra.