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Thursday, February 12, 2009

Antropologando

... e eles vagam com suas manias de pequenos prazeres, sorrindo a cada sinal que só eles entendem, fazendo piada com os próprios erros, saboreando a pequena amora diária chamada ‘felicidade’.
E irritam. E incomodam. E chateiam. E amedrontam.
Porque eles não sabem viver (como qualquer um de nós não sabe e deve – isso sim é a tarefa da vida – aprender e aperfeiçoar o ofício durante todos os dias próximos), mas eles seguem na tentativa ‘risco-acerto-erro’, como quem adentra todo dia na toca do coelho branco de Lewis Carroll e descobre um novo País.
A sobriedade é carrancuda, então eles vivem na eterna crise econômica do moralismo: ninguém lhes dá o devido crédito. Não se pode levar a sério alguém feliz em tempo integral. Atribuem à leviandade, talvez à inocência, ou até mesmo pensam ‘borrifaram Prozac em seus quartos’. Mas não, ninguém pensa que essa é a loucura mais sã, a tarefa mais difícil: permanecer sorrindo enquanto o mundo - veja só você - está como está.
Perto, mais perto deles, toda aproximação é um paradigma quebrado. Surpreendem. São na verdade os opostos de si mesmos, enquanto confrontam-se na verdadeira essência com sua imagem: são outros para o mundo e guardam-se para si. E amedrontam por isso.

Está se descrevendo como espécie? ... porque... está parecendo...

Talvez Gabriel... na verdade, acredito que eles existam e adoto seus pensamentos e hábitos como uma antropóloga antropofágica de uma forma ideal. Estudo-os, imito-os e penso que sou uma Lévi-Strauss platônica: meu campo de estudo é o meu próprio Mundo das Idéias.


Em busca da forma pura e ideal de mim.
Em busca da medida do meu ser.






Wednesday, January 07, 2009

A Colhedora de filosofias clandestinas

Andavam pela Paulista no seu Dia de Programação Cultural. Eles percorriam juntos a avenida invadindo exposições, pesquisando as peças de teatro, espionando filmes no HSBC Belas Artes e esparramando-se nos pufes da Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Créditos de Imagem: Getty Images


Colho filosofias clandestinas. É minha mania de colecionadora. Justifico o hábito estranho: colecionar filosofias clandestinas não exige espaço, nem caixas. Requer uma certa manutenção, mas em vez da faxina que me renderia uma rinite certeira, o cuidado vira passatempo em que troco algumas horas de sono a brincar de lego com a minha coleção de teorias indigentes alheias e construo outros mundos.

A verdade é que tenho um critério para organizá-las. Apesar de serem filosofias clandestinas, elas não são anônimas. Sei bem quem é o autor de cada uma. Se foi o taxista a falar sobre a vida, generais e batalhas; se foi o amigo físico a detalhar um gráfico dos afetos; se foi a senhorinha no ônibus a acidentalmente me despertar uma filosofia interior (atribuo a autoria a ela); se foi o desconhecido que trombei em um lugar qualquer da universidade e me apresentou a filosofia das pipocas de queijo do Departamento de Ciência Política da FFLCH.

Confesso que esse quase vício em colecionar filosofias indigentes acaba sendo incômodo. Me faz ser uma aristotélica contemporânea incisiva. Mas uma aristotélica ao inverso: tento provocar uma maiêutica não para ensinar uma sabedoria maior (quem me dera), mas para instigar qualquer idéia alheia de se me mostrar, para fins de uma colecionadora um pouco egoísta.

Não sei bem ao certo quando comecei com a coleção. Certamente não foi uma decisão assim, deliberada num dia, de repente. Deve ter sido em alguma boa conversa que despertou a mania natural - de repente me via conversando mais facilmente com estranhos e refletindo as entrelinhas do que me diziam. Do cotidiano saem reflexões incríveis. E essas são raras porque são mais difíceis de se dar com elas. É porque para o cotidiano é preciso olhos e ouvidos atentos: as raridades se disfarçam de rotina e é preciso cultivar o esforço da eterna novidade do mundo.

Duvido.

Não duvide! Vamos tentar para você me entender. Sei lá, me conta alguma história, alguma coisa que aconteceu ou alguma opinião sua sobre alguma coisa banal.

Hmmm... Forçado assim é difícil. Eu poderia falar sobre muitas coisas banais agora. Eu passei a tarde toda falando de várias. Mas agora que você me pediu, é um esforço quase sobrenatural lembrar de qualquer fato.

Pois bem, disso já tiro mais uma peça da minha coleção Gabriel. Obrigada!
... tá bom, não me olha com essa cara de ludibriado. Eu explico. A sua observação aparentemente comum me faz concluir

- a espontaneidade não se pede.

Isso me faz pensar em como tudo pode ser tão precioso sem nem nos darmos conta. A naturalidade das coisas. Temos a percepção errada de que o normal é um comum sem valor. Só porque as coisas seguem o curso normal não quer dizer que não sejam especiais. O são porque não podem ser induzidas. A naturalidade exige seu tempo certo e tem uma vontade própria rebelde: é só forçarmos sua incidência e ela propositalmente não se deixa acontecer. É um dos poucos fenômenos sobre os quais o homem ainda não tem controle.

Vale para coisas bobas como para os sentimentos maiores. Tente se forçar a amar alguém. Amar exige a rebeldia da naturalidade e do espontâneo. E talvez só por isso seja tão raro. Porque é rebelde. E porque é espontâneo. Um dos poucos fenômenos sobre os quais o homem ainda não tem controle.

Saturday, November 01, 2008

Vacine-se! Para prevenção da fatalidade, a reflexão

Sentaram no banco do parque a olhar crianças correndo e brincando nas gangorras e balanços.

Sabe, venho aprendendo a conviver e aceitar algumas fatalidades. E isso não é conformismo.
Fatalidades são como as regras de um jogo que se tem que aprender a respeitar. Por aceitar as regras do jogo, você não se torna mau jogador: ao contrário, consegue fazer as melhores estratégias e obter os melhores resultados. E estava refletindo que assim também é com a fatalidade e com a vida.

Fatalidade não é destino traçado que tira toda a responsabilidade e impacto das nossas escolhas e ações (ou a falta delas). Ao contrário, fatalidade é a consequência inevitável das apostas que fazemos e das omissões a que nos damos o luxo de ter em alguns casos. Mas apostar ou ser omisso é um livre arbítrio. Nós fazemos a jogada. Não há destino que escolha nosso futuro por nós. Mas qualquer aposta carrega consigo

- a fatalidade.

Cada aposta possui seu risco. Cada ação, sua conseqüência. Fatalidade é a regra da inevitabilidade das conseqüências de cada ação. A conseqüência de cada escolha faz-se sentir. Cedo ou tarde. É a regra. Isso é fatalidade.

Quando se percebe e se entende essa lei da Física da vida de ação e reação, a gente começa a pensar melhor nas escolhas. Porque a fatalidade não é isenção de culpa dos fatos que acontecem na nossa vida. Eu comecei a questionar as inconseqüências que cometo a torto e a direito. Acabei me deixando acostumar com esse luxo. Mas quando a gente toma consciência de certas coisas, o luxo passa a ser futilidade.

E aí eu estou me sentindo meio fútil, Gabriel.

Fútil?

É... pensar às vezes pode ter essas reações adversas. E pensar não tem bula. Mas o mal há de sarar. É preciso estimular os anticorpos e até hoje, só descobriram que é preciso injetar um pouco do mal dentro de nós e esperar

- que o organismo reaja.

Eu penso como modo de me vacinar: injeto um pouco de mal-estar dentro de mim e aguardo a reação da minha reflexão para prevenir meu espírito de toda doença maior.

Monday, October 27, 2008

O alerta de um milagre

Primeiro eu pensava que o grande erro das pessoas era demonstrar dor. A força deveria vir do hábito de fazer-se forte a si mesmo e aos outros. Depois percebi que o hábito da aparência não ajudava em nada no processo de tornar-se forte.

Então passei a acreditar que o grande erro das pessoas era deixar-se sentir dor. A força viria do ato de prevenção e combate à causa direta. Você só poderia sentir dor se quisesse e se permitisse. Mais tarde vi que não deixar-se afetar pela dor só trazia a insensibilidade e a indiferença pelas coisas do mundo. Nada tinha a ver com a força, e ainda perdia-se a sensibilidade não só à dor, mas também a todas as outras coisas boas de se sentir.

Gastei uns tempos de reflexão para erguer alguma nova teoria a ser experimentada. Perdi minutos de sono e várias folhas do bloco de anotações na cabeceira da cama e enfim pensei concluir: o maior erro das pessoas era ter medo da dor. A vida era de um equilíbrio antagônico, e tanto a dor como a alegria deviam ser componentes da felicidade. Sim, reconstruir o ideal de felicidade que sempre ouvi descreverem como a ausência absoluta de dor foi um processo difícil de se colocar em prática para o bem experimental da minha própria filosofia. Quando enfim consegui, notei que não temer a dor, isto também não fazia sentir-me mais forte. Era como se ignorasse um alerta do organismo, como se ignorasse o queimar dos dedos perto da fogueira e isso não era bom: acabava-se queimando. A dor é um alerta.

A dor é um alerta.

A idéia grudou nos meus ouvidos e nos meus cabelos. Repetia muitas vezes ao dia, escrevia rabiscando em qualquer papel, e não me saía nada além disso:

A dor é um alerta. A dor é um alerta. A dor é um alerta.
A dor é um alerta.

Crédito da imagem: Flickr por lomokev

Numa noite insone, enfim meus dedos mudaram para uma caligrafia rompante de parto nas folhinhas do meu bloco de anotações. O grande erro das pessoas não é demonstrar dor, nem permitir-se sentir dor, nem temer a dor. O grande erro é ignorar a dor como alerta de algo que não vai bem na alma e acabar não refletindo sobre a própria dor.

Porque nos incomoda, tentamos a todo custo evitá-la, temê-la, ignorá-la, quando na verdade acredito que ela seja um alerta para pensarmos naquilo que causa sua existência. E pensar a dor só é possível vivendo-a, sentindo-a tranquilamente para que possamos entendê-la e descobrirmos um pouco de nós.

Não se trata de uma filosofia masoquista, Gabriel. Já está me olhando com uma cara de quem vai contra-argumentar minhas horas de sono em claro e papel rabiscado! Veja, o masoquista é tudo menos forte. Ele na verdade é um eterno revoltado por acreditar fielmente na idéia de que a felicidade seja a ausência total de dor. E isso nunca acontece a ele. Então como forma de rebelar-se, intensifica a dor e nela procura a fuga. Porque teme mais a idéia de que a felicidade não nos livre da dor, do que viver por escolha própria na dor eterna e intensa.

Por isso esse meu rascunho de filosofia não pode ser masoquista. Intensificar a dor, ou provocá-la não é felicidade. A dor vem naturalmente do mistério de estarmos vivos, porque a própria condição de existir como ser humano é sobrenatural.

Existir é sobrenatural?

É... às vezes eu sinto que eu ser, assim, existindo, sou um milagre que nem eu mesma me explico.