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Thursday, September 29, 2016
Sunday, December 27, 2015
Antônimos
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| Imagem via Jason Thielke |
- O contrário do amor não é o ódio.
- Não?...
- Nem um pouco. O contrário do amor é o medo.
O ódio é outra coisa.
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Friday, June 19, 2015
O mergulhador
Veio desbravar minhas terras antes que eu pudesse saber teu nome. Conheceu meu lar, meu chão, minha terra, as nuvens que estavam sobre a minha cabeça. Provou da neve que despencava por aqui. Alimentou-se da minha comida, inebriou-se com os perfumes que eram meus. Sobrevoou essas águas antes que eu pudesse te alcançar na fronteira do que eram as tuas costas. Sem saber como, vim parar aqui, na tua casa. Depois de cruzar o oceano sem saber que antes você já tinha ultrapassado o meu.
Quis te ensinar o mundo todo submerso que existe. Te disse que os mundos cobertos pelas águas são menos explorados do que o solo lunar. E quis mergulhar não só nos teus pensamentos, mas naquilo tudo que era você.
Mas esqueci que para conhecer essas profundezas, nem mesmo milhões de tubos garantiriam meu oxigênio. Eu era ingênuo.
Queria a liberdade de inspirar e expirar. De suspirar. De bufar e de pegar num grande respiro o ar do meu próximo grito. Mas quando se está no abismo do outro, é preciso enxergar a beleza que nos faz prender a respiração. E restar em silêncio.
Eu nunca soube mergulhar.
Tuesday, May 05, 2015
A alpinista
Eu sou aquela que com relutância aprendeu a se apaixonar pela vida mais do que por mim mesma. Eu sou aquela - antes limitada, apequenada pela ditadura do amor próprio - que aprendeu a abraçar sua própria história – sem medo algum. A checar os fins e pormenores. A ir até a beirada do precipício, ultrapassando um pouco o limite do que se é possível e recomendável, e olhar para baixo para conferir se o então seria precipício ou escondia um belo mar. Em todas as beiradas que ousei me debruçar enfrentando a altura, o medo, o vento e o tremor... o então sempre foi penhasco.
Nas primeiras vezes, sempre me entristeci. Achava que minha ousadia e coragem de ter ido até aquele ponto deveria ter rendido algo muito maior do que a frustração e o sentimento de não ter tido a alma abraçada e compreendida. Só ficava o gosto ruim da adrenalina forte, o coração batendo raivosamente, as pernas amolecendo solitárias e desabando o corpo cansado.
Depois mudei. Aprendi a vislumbrar as vistas dos penhascos. Perdi o medo da altura – porque sonhar é ousar subir a montanha.
Ainda assim não me atiro neles. Continuam sendo penhascos. Como sempre, impulsiva e sem medo de seguir o próprio coração, vou até aquela beiradinha do precipício. Pra checar. E os novos penhascos que conheci continuaram doendo e ecoando meu amor no vazio. Mas eu aprendi a admirar a vista e os horizontes que eles me mostravam. Aprendi que enxergar os horizontes daquilo que eu não queria para mim, era de certa forma ter chegado num ponto alto onde era possível enxergar outros caminhos de cima. E dentre esses caminhos, um seria o meu caminho. Aquele que eu escalaria sem medo, como o de costume:
- tentando, insistindo, brigando, errando e esperando a mesma intensidade de volta -
mas ali, em cima do topo, chegando na beirada, eu gritarei mais uma vez meu coração. E será tudo, tudo, menos um eco vazio.
E se eu não encontrar esse mar disfarçado de precipício, a vista fará valer a pena. Porque eu estou aprendendo sempre mais sobre enxergar
nos diversos horizontes
- aquilo que sou eu
Wednesday, March 06, 2013
Romance
"O amor feliz não tem história na literatura ocidental. A felicidade dos amantes só nos comove pela expectativa da infelicidade que os ronda. Sem sofrimento não há romance. O romance de Tristão e Isolda tornou-se um modelo de todas as histórias de amor até hoje. Os amantes se amam, mas não conseguem superar os obstáculos e serem felizes. Esse é o segredo do sucesso de Tristão e Isolda e foi isso que os poetas europeus da Idade Média descobriram: o amor recíproco infeliz."
− Amor recíproco infeliz não existe. O único sofrimento de amor é não ser correspondido. Eu já sou feliz só por você gostar de mim.
− Ah, mas é muito fácil gostar de você… eu não tenho mérito nenhum nisso.
(...)
− Dá até um pouco de ciúme desse amor de teatro... quem sabe se você não tá representando também comigo?
− Ah mas quando a gente faz uma cena de amor termina amando um pouco o outro personagem. E quando a gente ama alguém de verdade também representa um pouco.
− Ah é?
− Ah... a gente representa o amor que sente por aquela pessoa. Como todo amor é verdade... e representação. Ao mesmo tempo.
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Wednesday, February 27, 2013
Um minuto pleno
Eu já tinha falado da Marina Abramovic e Ulay aqui, e de como suas performances me marcaram. Contei da performance final da Muralha da China em 1975. Só não sabia que 23 anos depois, em 2010, eles se reencontrariam, sem planejamento, em uma outra performance de Marina.
Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.
23 anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse à sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse e… foi assim:
(via Razões Para Acreditar)
Tento imaginar o que passou na cabeça dos dois nesse eterno 1 minuto de silêncio que eles ficaram se olhando. Cada expressão facial, cada gesto mínimo... sobre o que será que eles conversaram sem nada dizer?
Nunca uma performance me emocionou tanto, ou me contou tanta coisa quanto essa.
Sunday, February 24, 2013
Elo
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| imagem via Michael Oneil |
“O amor acaba”, disse Paulo Mendes Campos, em sua crônica mais bonita; só não disse o que fica no lugar. É na esperança, talvez, de entender essa estranha melancolia, esse vazio preenchido por boas lembranças e algumas cicatrizes, que nos encontramos a cada ano ou dois. Marcamos um almoço num dia de semana. Falamos do passado, mas não muito. Falamos do presente, mas não muito. Há uma vontade genuína de se aproximar e o tácito reconhecimento dessa impossibilidade.
Dois velhos amigos, quando se reveem, voltam no ato para o território comum de sua amizade. Reconstroem o pátio da escola, o Centro Acadêmico, o prédio em que moraram –e o adentram. Em três chopes, refez-se o antigo elo. Para os ex-amantes, no entanto, é impossível restabelecer o elo, o elo morreu com o amor, era o amor. O que sobra é feito um cômodo dentro da gente, cheio de móveis e objetos valiosos, porém trancado. Nesses almoços, estamos sempre no corredor, olhando para a porta fechada. Sentimos saudades do que está ali dentro, mas não podemos nem queremos entrar. Como disse um grego que viveu e amou há 2.500 anos: não somos mais aquelas pessoas nem é mais o mesmo aquele rio.
Ex, por Antonio Prata, na Folha
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Tuesday, February 05, 2013
O continuista
Pra quem se encontrava encerrado, você apareceu e me
recomeçou. Depois dos agradecimentos no epílogo, eu já encerrava com a minha
bibliografia de homem cheirando a solidão de cigarro, mas você entendeu que
aquilo seria só um prólogo extravagante. E você quis continuar a ler o que eu
já tinha decidido que não teria continuação.
Mas você me recomeçou.
Perguntava sempre com o jeito cômico de quem irritantemente
interage no meio de um filme no cinema e compartilha enredos: “e depois? o que
acontece?... e agora? o que virá?”. E eu mostrava pra você que não viria mais
coisa nenhuma. Que a minha história já tinha acabado. Que a minha fé já tinha
sido testada, estragada e rebatizada como fazem com os mortos que viram lendas.
Engraçado como a gente aprende primeiro os conceitos através
das palavras, e só depois vai riscando alguns, enquanto tenta viver na prática
cada um deles, na tentativa de perceber se existem de fato ou não. Muita gente cagou
nos conceitos que eu mais gostava enquanto eu testava se eles existiam ou eram só
palavras vazias. A maioria sempre foram só palavras. E aí me vi rico de um
vocabulário múltiplo e sem conexão real com a vida. E já que a realidade era
uma bosta, e eu estava inundado em um monte de palavras, palavras e mais palavras... colecionei
todas e decidi virar o pior dos escritores.
Mas você me recomeçou.
Chegou sem pretensão. Chegou secundária, no meio de uma multidão
de figurantes. Chegou implicante, perguntando do próximo parágrafo, do próximo
capítulo, da próxima edição especial encadernada. Cacete criatura! Não tem mais livro não... não tem
mais história nenhuma! Acabou! The end! Créditos subindo, trilha sonora
principal ao fundo... entendeu?
"Lógico que tem continuação. O seu erro de sempre é ser um escritor que se acha cineasta. Aqui não é Hollywood, meu bem. Aqui é a terra de Hemingway, onde se pergunta eternamente por quem os sinos dobram. Aqui o único epílogo aceito é o epitáfio. Você continua sim a escrever história sem saber. E é melhor o fazer sabendo. É melhor seguir sabendo."
E me recomeçou.
Wednesday, November 14, 2012
Fugere populus
“Nos solitários cânions da cidade moderna, não existe emoção mais estimada que o amor.
Entretanto não se trata do amor que a religião fala, é uma variedade mais ciumenta, restrita e no fim mais mesquinha. É um amor romântico que nos põe em uma busca maníaca de uma única pessoa em particular que nos dispensará de qualquer necessidade por gente em geral.”
Alain de Botton
Alain de Botton
...
O envolvimento usual entre duas pessoas parece causar uma crescente solidificação de identidades. Quanto mais eles se conhecem, mais excluem outras possibilidades. Fecham espaço para surpresas e ainda tem a coragem de reclamar disso ao fim: “Não dava mais, acabei. Era tudo muito previsível, parou de me surpreender…”.
Desenvolvemos um padrão de relacionamento com o outro, começamos a surgir de um único jeito, começamos a vê-la de um único jeito e, quando menos percebemos, nunca mais desconfiamos de que talvez o outro seja muito mais do que aparece para nós, de que outros a ativem de outro modo, de que ela encarne outros personagens com outras risadas, outras piadas, outros olhares, outros gestos.
Gustavo Gitti
...
Existe uma multiplicidade que não se deixa ver ou não se deixa conhecer sem o esforço dedicado de uma percepção atenta do outro.
Alguns percebem apenas um lado e querem matar todas as outras identidades, acabando com uma pessoa mutilada do lado. Quem quer uma personalidade inteira, tem que lidar com um exército diferente de identidades diversas de um mesmo indivíduo. Ou senão amarga do próprio veneno: acaba azedando, se entediando e perdendo a oportunidade de conhecer verdadeiramente um universo interessantíssimo - que permanecerá sem ser desvendado para todo o sempre.
Fatalidades acontecem. Aprendamos com elas.
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Monday, September 24, 2012
Presente de Casamento da minha melhor amiga
No dia mais especial na vida de uma amiga, ela me fez um pedido: que eu escrevesse um texto para a cerimônia do casamento dela. Eis aqui um resultado que teve contribuições e falou sobre o motivo principal da noite: a celebração do amor -de um verdadeiro amor-.
***
Para os que não me conhecem, meu nome é A. e foi com grande alegria que recebi esse convite da P. e do R., para oficializar essa união perante suas famílias e os amigos mais queridos.
E o meu discurso essa noite será a de mais um amigo, que assim como todos aqui, faz parte da vida desse casal. Chegou a hora deles celebrarem com a gente essa história que já compartilham há quase cinco anos. Então, a partir de agora, todos que estão aqui, que de um jeito ou de outro ajudaram a construir essa história, são agora testemunhas dessa união tão esperada e desejada.
P. e R., agora é o grande momento que vocês esperaram por meses. Mas, é importante lembrar que esse “agora” é uma consequência de outros grandes momentos que vocês já viveram juntos. Vocês se lembram de quando se conheceram na faculdade e como essa amizade se transformou em amor?
P. e R., agora é o grande momento que vocês esperaram por meses. Mas, é importante lembrar que esse “agora” é uma consequência de outros grandes momentos que vocês já viveram juntos. Vocês se lembram de quando se conheceram na faculdade e como essa amizade se transformou em amor?
Talvez no meio de uma Quinta&Breja, entre uma partida ou outra de pebolim, numa Festeca de um JUCA, ou numa certa festa de formatura... Todos esses momentos juntos e muitos outros foram importantes para chegarmos na noite de hoje.
Muita gente diz que, no fim das contas, o coração é quem escolhe o caminho... e a gente só segue. Então, a partir de hoje, os caminhos de vocês serão um só, porque seus corações escolheram assim. É só seguir e tá tudo certo!
Cada um vai se espelhar nos olhos do outro. Se enxergarão do acordar ao dormir (e ao roncar), nos sorrisos e nas lágrimas, no futebol e na novela, no videogame e no forró... se enxergarão ao compreenderem que são únicos, e por isso mesmo, muito mais especiais quando estão juntos. Mais fortes, mais queridos… e muito mais inspiradores.
A gargalhada do R. vai denunciar a alegria da P. E o sorriso da P. vai expressar a felicidade do R. Não porque a partir de agora vocês são um só. Mas exatamente porque são dois que decidiram seguir juntos. Seguir juntos apesar das manias do outro, apesar das diferenças, apesar das confusões, apesar de... porque amar é sempre querer “apesar de”. É encontrar o equilíbrio entre se esforçar pelo outro, sem deixar de ser como é.
Agora, os mapas serão iguais, porque seus roteiros serão os mesmos! Os antes chamados “meus passeios, minhas viagens” serão "nossos passeios", "nossas viagens". "Meus amigos" serão os "nossos amigos", "minha familia” será "nossa familia"... E assim as coisas acontecerão naturalmente: "a nossa casa", "as nossas brigas", ... "os nossos filhos"...
Alguns dizem que o casamento é se enforcar, perder a liberdade.
Mas, na real, ser livre é ter um amor de verdade para se prender.
Casar com uma pessoa é muito mais do que querer estar junto para sempre, é assumir um compromisso de respeito e parceria, aceitando um ao outro como são, com suas qualidades e imperfeições, e sabendo apoiar um ao outro na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza e em qualquer momento de suas vidas.
Por isso pensem nessa vida que estão construindo juntos, e nos valores que já norteiam e que guiarão esse relacionamento daqui para a frente.
P. e R., vocês...
- Prometem não deixar a paixão fazer de vocês pessoas controladoras, mas respeitar a individualidade do outro, lembrando sempre que ele não pertence a você, e que ela não é sua propriedade, mas está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Prometem fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Prometem sentir e alimentar o prazer de estarem juntos pelo simples fato de se conhecerem melhor do que ninguém, e assim enfrentarem os problemas que vêm por aí?
- Prometem se deixar conhecer?
- Prometem que seguirão gentis, carinhosos e educados, sem usar a rotina como desculpa para a falta de humor?
- Prometem que não falarão mal da pessoa amada só para arrancar risadas dos outros?
- Prometem que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve nas suas vidas, responsabilizando-se cada um por si sem se escravizar pelo outro, e que saberá lidar com a própria solidão, que casamento algum elimina?
- Prometem que serão tão vocês quanto eram minutos antes de iniciarmos essa cerimônia?
Sendo assim, vamos nos preparar para as alianças.
Assim como a palavra “aliança”, estes anéis representam duas partes que se unem por um bem comum, por uma troca justa, por uma parceria. Essa aliança será muito mais do que um elo entre vocês, será a representação física do amor que um sente pelo outro. Não é a toa que ela é circular, pois não começa e nem termina em ninguém, só funciona ao redor dos dois.
Sendo assim, pelo poder de amigo a mim concedido, todos nós aqui presentes os declaramos muito mais que marido e mulher:
Os declaramos maduros! E livres para se prenderem!
(beijo dos noivos)
- e o começo de uma vida muito melhor do que apenas um "e foram felizes para sempre".
- e o começo de uma vida muito melhor do que apenas um "e foram felizes para sempre".
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Tuesday, September 18, 2012
Me encontre logo, por favor
Eu espero alguém que não desista de mim mesmo quando já não tem interesse. Espero alguém que não me torture com promessas de envelhecer comigo, que realmente envelheça comigo. Espero alguém que se orgulhe do que escrevo, que me faça ser mais amigo dos meus amigos e mais irmão dos meus irmãos. Espero alguém que não tenha medo do escândalo
- mas tenha medo da indiferença.
Espero alguém que ponha bilhetinhos dentro daqueles livros que tem certeza que vou ler até o fim. Espero alguém que se arrependa rápido de suas grosserias e me perdoe sem querer. Espero alguém que me avise que estou repetindo a roupa na semana. Espero alguém que nunca desista de conversar
- mesmo quando não sei mais falar.
Espero alguém que, nos jantares entre os amigos, dispute comigo para contar primeiro como nos conhecemos. Espero alguém que goste de dirigir para nos revezarmos em longas viagens. Espero alguém que confie se a porta está fechada e o café desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso. Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros. Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade. Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine. Espero alguém que arrume ingressos de teatro de repente, que me sequestre ao cinema, que cheire meu corpo suado como se ainda fosse perfume. Espero alguém que não largue as mãos dadas nem para coçar o rosto. Espero alguém que me olhe demoradamente quando estou distraído, que goste de me telefonar para narrar como foi seu dia. Espero alguém que procure um espaço acolchoado em meu peito quando cansado. Espero alguém que minta que cozinha e só diga a verdade depois que comi. Espero alguém que leia uma notícia, veja que haverá um show de minha banda predileta, e corra para me adiantar por e-mail. Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar. Espero alguém com uma vocação pela metade, uma frustração antiga, um desejo de ser algo que não se cumpriu, uma melancolia discreta,
- para nunca ser prepotente.
Espero alguém que tenha uma risada tão bonita que terei sempre vontade de fazer graça. Espero alguém que comente sua dor com respeito e ouça minha dor com interesse. Espero alguém que prepare minha festa de aniversário em segredo
- e crie conspiração dos amigos para me ajudar.
Espero alguém que pinte o muro onde passo, que não se perturbe com o que as pessoas pensam a nosso respeito. Espero alguém que vire cínico no desespero e doce na tristeza. Espero alguém que goste de domingo em casa, de acordar tarde e de andar de chinelos, e que me pergunte o tempo antes de olhar para as janelas. Espero alguém que me ensine a me amar porque a separação apenas ensina a se destruir. Espero alguém que tenha pressa de mim, eternidade de mim,
- que chegue logo, que apareça hoje,
que largue o casaco no sofá e não seja educado a ponto de estendê-lo no cabide. Espero encontrar alguém que me torne novamente necessário.
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Tuesday, August 07, 2012
La storia del soldato e della principessa
"... se lo capisci, dimmelo tu!"
"...Una volta un re fece una festa e c'erano le principesse più belle del regno.
Ma un soldato che faceva la guardia vide passare la figlia del re.
Era la più bella di tutte e se ne innamorò subito.
Ma che poteva fare un povero soldato a paragone con la figlia del re! Basta!
Ma, finalmente un giorno riuscì a incontrarla e le disse che non poteva più vivere senza di lei.
E la principessa fu così impressionata del suo forte sentimento che disse al soldato:
“Se saprai aspettare cento giorni e cento notti sotto il mio balcone, alla fine, io sarò tua.”
Ma, subito il soldato se ne andò là e aspettò un giorno, due giorni e dieci e poi venti.
Ogni sera la principessa controllava dalla finestra ma quello non si muoveva mai.
Con la pioggia, con il vento, con la neve era sempre là.
Gli uccelli ci cacavano in testa e le api se lo mangiavano vivo ma lui non si muoveva.
Dopo novanta notti era diventato tutto secco, bianco e gli scendevano le lacrime dagli occhi
e non poteva trattenerle poiché non aveva più la forza nemmeno per dormire...
mentre la principessa sempre lo guardava.
E arrivati alla novantanovesima notte il soldato si alzò, si prese la sedia e se ne andò via".
Wednesday, July 04, 2012
Tantalia
“Tantalia” é a história de um casal que decide comprar uma plantinha para conservá-la como símbolo do amor que os une. Percebem, tardiamente, que se a plantinha morrer, morrerá com ela o amor que os une. E como o amor que os une é imenso e por nenhum motivo estão dispostos a sacrificá-lo, decidem fazer a plantinha se perder entre uma multidão de plantas idênticas. Depois ficam inconsoláveis, infelizes por saber que nunca mais poderão encontrá-la.
Bonsai
Alejandro Zambra - p. 29
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Monday, November 21, 2011
Heineken
Sabe, deixa eu te contar que hoje eu achei a vida tão bonita
dentro de um espectro que surgiu feito mágica quando você cantou no meu ouvido.
Era um karaokê secreto de melodias feitas só pros meus tímpanos grosseiros –
acostumados aos barulhos imbecis dos outros homens gritando nos jogos de
futebol.
Você tem um jeito de quem toma os dias pela mão e inebria as
horas com seu perfume cítrico. E eu gosto disso em você. Quando me diz que
deveria ser uma mulher de perfumes florais, mas que detesta o cheiro falso de
contos de fada. E que prefere Heineken só porque é amarga e assim é a vida
também. E que você ama a vida como ela é.
E eu que jurava que nunca seria pego, sou encurralado por
uma engenhosa maneira de se estar apaixonado: quanto mais você me mostra como é
bom amar a vida, mais me amo por saber amar você.
E eu que jurava que nunca seria pego, sou encurralado pela sua
engenhosa maneira de saber
[viver.
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| imagem via W. Scott Chester |
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Friday, November 11, 2011
Trato
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| imagem via: enchanted doll |
Sem tato, topo seu trato
[de ser assim
Talhado em minúcias, detalhes
[de não e sim
Falhado na mais bonita intenção
[de mim
Calado sigo vivendo esse amor
[sem fim
Tuesday, September 20, 2011
Back to Solitude
A last kiss, a last date, a last look into each others eyes.
"Back to Solitude" (2011)
Short film, 5 min.
directed by Joschka Laukeninks
Tuesday, September 13, 2011
O Inventor
Quando as nuvens secaram no céu
úmido de estrelas e Marte de repente foi derrotado na sétima casa, pudemos
enfim sentar e conversar. Na sétima casa contabilizaram-se também os sete anos
nas sete vidas que seguimos ocultos. Por superstição. Quando por fim nos
reconhecemos e diagramamos todas as alterações fisionômicas, pudemos falar da
tragédia, rir no interplanetário do destino forjado por algum misticismo
caprichoso, abrir as pupilas pras sobrancelhas alheias. Sempre foi por lá que a
comunicação fluiu, mais do que por palavras.
Eu nunca fui muito bom com as
palavras, embora você sempre dissesse que eu tinha vocação pra poeta. Era
distração. Quem lida bem com palavras não é porque sabe de qualquer coisa na
vida: é porque tenta a todo instante explicar o inominável brincando com metáforas
sem sentido pra ver se consegue tocar aquilo de bruto em si próprio. É, de
bruto. O que é civilizado já foi nomeado. Eu me perco é nos interstícios do
selvagem, do rebelde e do desconhecido. Da selva abandonada dentro de nós. Tento
te explicar o que é que me vem quando fico analisando a dança das suas
sobrancelhas que me contam histórias que nem você mesma imagina e então eu não
consigo. Quando se enraivecem comigo, ou quando me interrogam em um desenho que
seria a expressão orgânica de um ponto de interrogação. O ponto de interrogação
pra mim é o desenho das suas sobrancelhas quando se perdem em hipóteses sem
sentido, quando me pedem conselhos inseguros de qual decisão tomar, ou quando
querem saber o que se passa no meio das minhas próprias sobrancelhas.
Eu me perco em muita coisa aqui
de dentro. Tenho que ruminar um pouco minhas próprias entranhas sozinho. E você
divide tudo, tanto e sempre. Eu, que não consigo lidar direito nem com o
orçamento despendido aos cigarros do mês, fico meio perdido na enxurrada das
coisas que você quer compartilhar. Eu acho que você acredita que eu vá
organizar tudo isso. Acha isso só porque não vê a merda da bagunça toda que tem
por aqui, na minha cabeça.
Às vezes desconfio que você sabe
sim. Sabe, mas quer que eu me sinta responsável por você. Sei que sabe se
cuidar. Poderia viver um zilhão de anos sem mim. Poderia viver quantas
reencarnações te forem concedidas sem precisar da minha ajuda. Mas você diz que
quer, que precisa. Vivemos para irritar um ao outro. E de novo. De novo você
aqui. Fingindo que precisa de mim. Pra me irritar. E como funciona essa mecânica
demoníaca!
Esse papo astrológico, por
exemplo. Não sei de que universo arranquei essas merdas, mas ficou poético.
Entende? Não faz sentido nenhum e você diz que isso é lidar bem com as
palavras. Às vezes eu acho que posso ficar cinco horas falando coisas sem
sentido de forma estruturalmente lógica e alguém conseguir achar uma razão,
achar que sabe de que caralhos estou falando.
Eu não te amo. Eu amo o que não é
você, porque o você é tão nominável. Eu amo aquela parte sombria e esquecida
que carrega você por aí. Aquilo que te aparece às vezes em horas de sonho ou de
fúria e te espanta, te faz recusar. Aquilo que me olha e me entende tanto que
eu sou capaz de inventar uma linguagem totalmente nova só pra tentar conversar
com o isso que eu enxergo em você.
A gente briga. Isso é ruim. E é
bom. De tanto reclamar das nossas brigas, me envolvi com uma pessoa que não
sabe brigar. Isso sim é maquiavélico. Fica um troço não-dito, conversas não
conversadas, é uma relação-fantasma do caralho. Um mundo dentro de outro mundo.
Não tenho paciência. Prefiro brigar com você. Prefiro o grito. Prefiro as
portas batendo, seus tapas ridículos que você finge querer doer, mas que são
artifícios teatrais pra esconder que você está magoada, que está puta da vida
comigo. Você me arranha e jura que me odeia. É quando você me ama. Porque
poderia sorrir e dizer até logo com uma raiva disfarçada de sorrisos e nunca
mais aparecer na minha vida. Porque você poderia viver um zilhão de anos sem
mim. Mas você não quer. Fica fingindo que precisa de mim. Pra me irritar.
Você poderia ter agüentado dois
encontros mal-sucedidos comigo. O segundo só pra confirmar o erro do primeiro e
não sobrar dúvidas. E então se mandar. Dar um tchauzinho de miss e sumir da
galáxia. Mas você prefere ficar. Eu prefiro você. A gente se odiou, mas Marte de
repente foi derrotado na sétima casa e pudemos enfim sentar e conversar. Eu era
capaz de inventar uma linguagem totalmente nova só pra tentar conversar com o aquilo
que eu enxergo em você, mas hoje não deu. Hoje eu escrevi isso pra você. E
mesmo que você não entenda, guarde. Enfie numa gaveta esquecida. Um dia eu
invento um jeito de te dizer isso mais fácil. De dizer que tem a ver com medo,
com um puta medo. Mas que tem muito, tudo de destino. Ou qualquer coisa que
envolva fatalidade. Não é escolha. Sou eu. E por isso, sou também você. Um dia
eu invento uma linguagem totalmente nova pra te dizer isso mais fácil. Enquanto isso, te amo.
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Thursday, September 01, 2011
Deficiências e amores
Do ser amado esperamos que ilumine nossa escuridão, nos carregue para além das nossas forças, só isso. A vida não é muito acessível mesmo, mas somando as saídas encontradas por cada um, os vínculos amorosos nos guiam e conduzem. Bem dizia minha avó: não procure alguém cujas qualidades combinam com as tuas, mas sim aquele cujos defeitos se encaixem nos teus. Acrescento, busque alguém cujas deficiências tenham se tornado soluções, seus obstáculos, saídas inusitadas. Os revezes estão na origem de modos peculiares de viver, definem mais do que as capacidades. A questão não é o que o destino nos deu, mas sim o que conseguimos fazer a partir disso.
de Corso
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Monday, August 29, 2011
Saga
Filipe Catto - Saga by Albornoz
Andei depressa para não rever meus passos
Por uma noite tão fulgás que eu nem senti
Tão lancinante, que ao olhar pra trás agora
Só me restam devaneios do que um dia eu vivi
Eu contei a história minha pr´uma noite que rompeu
Virou do avesso, e ao chegar a luz do dia
Tropecei em mais um verso sobre o que o tempo esqueceu
Senti meu peito, atingido, se inflamar
E fui gostando do sabor daquela coisa
Viciando em cada verso que o amor veio trovar
Eu cantei a noite inteira pro meu peito sossegar
Me fiz tão forte quanto o escuro do infinito
E tão frágil quanto o brilho da manhã que eu vi chegar
Andei depressa para não rever meus passos
Por uma noite tão fulgás que eu nem senti
Tão lancinante, que ao olhar pra trás agora
Só me restam devaneios do que um dia eu vivi
Se eu soubesse que o amor é coisa aguda
Que tão brutal percorre início, meio e fim
Destrincha a alma, corta fundo na espinha
Inebria a garganta, fere a quem quiser ferir
Enquanto andava, maldizendo a poesiaEu contei a história minha pr´uma noite que rompeu
Virou do avesso, e ao chegar a luz do dia
Tropecei em mais um verso sobre o que o tempo esqueceu
E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho com força, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer
E era de gozo, uma mentira, uma bobagemSenti meu peito, atingido, se inflamar
E fui gostando do sabor daquela coisa
Viciando em cada verso que o amor veio trovar
Mas, de repente, uma farpa meio intrusa
Veio cegar minha emoção de suspirar
Se eu soubesse que o amor é coisa assim
Não pegava, não bebia, não deixava embebedar
E agora andando, encharcado de estrelasEu cantei a noite inteira pro meu peito sossegar
Me fiz tão forte quanto o escuro do infinito
E tão frágil quanto o brilho da manhã que eu vi chegar
E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho sorrindo, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer
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Sunday, July 10, 2011
Amar é...
... dançar com o silêncio. Daí a música nunca mais termina.
- a coragem é egoísta. O medo é generoso.
- tragédia não é o amor acabar, é sequer insistir no começo dele.
- a coragem é egoísta. O medo é generoso.
- tragédia não é o amor acabar, é sequer insistir no começo dele.
Carpinejar
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