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Tuesday, December 23, 2014

Correr macio

Dizem que o tempo é como a mão de um escultor que revela a beleza que já existia naquela pedra - rocha bruta e disforme - a cada martelada. Devagar. Caprichosamente. E assim eu me tornei crédula do tempo. Ele faria seu trabalho. O passar dos dias trariam a nitidez mais explícita das coisas do mundo. Com o passar do tempo eu distinguiria facilmente todas as suas formas: perfeitas e imperfeitas. O bem. O mal. O indesejado e o belo. Era preciso esperar as marteladas do tempo no mundo. Marteladas que me dariam a tão almejada: experiência. Passei a esperar pelo dia em que classificaria com uma certeza incisiva, todas as coisas do mundo. O tempo me daria a sabedoria das certezas. Da verdade. Pacientemente aguardei. E quanto mais os dias passavam, quanto mais as horas martelavam, quanto mais eu esperava pela nitidez do mundo, mais disforme tudo ao redor me parecia. O tempo deve estar sendo caprichoso, pensava eu. E aguardava a martelada. O tranco. A lasca que se desprenderia formando algo que eu ainda não podia prever o que seria. O mundo era todo um pedaço de pedra bruta martelado pelo tempo num gesto firme, incompassível, estrondoso. E eu aguardava. Do tempo, só se pode esperar. Aguardar a martelada. Dos segundos, dos minutos, das horas, dos dias, das semanas, dos meses, dos anos, das décadas...


Eu creio no tempo, unidade de medida persistente, que atravessa todas as coisas, viventes e não viventes, existentes e que ainda estão para existir. Eu confio no tempo, na ilusão da passagem do mundo, na miragem que sustenta o progresso, e que nos faz acreditar que caminhamos rumo a algo melhor. Creio no passado, que me oferece a certeza das coisas imutáveis, desafiada pelas lembranças cambaleantes, que o tempo próprio faz questão de borrar. Eu creio na finitude. Eu creio no início. E creio nos recomeços. Eu creio na preciosidade dos momentos. E que os momentos, dos quais o próprio tempo é feito, são o lastro que certifica o nosso respiro.

Tuesday, May 03, 2011

Comentários na neblina

ou por que cinco anos escrevendo aqui
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É que eu não consigo deixar de ser feliz sabendo que posso ser importante
- mesmo sendo desnecessária.


imagem via: Dmitry Ligay

E o sou. Para o bem e para o mal.
Sem pieguices ou piedade.
E não posso mentir que o mundo não virou um pouco desnecessário pra mim também
o que é bom:
- tudo o que eu gosto não é porque preciso
mas porque escolho.

O luxo da escolha sempre foi o meu oitavo e exclusivo pecado capital. Aquele no qual enxergo salvação, embora todos digam que o nome desse pecado seja:
- pretensão

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(e talvez - eu disse só talvez - eles tenham razão)

Wednesday, August 26, 2009

De efeito


Quem analisasse poderia encontrar-lhe todos os defeitos e talvez concluir que o resumo de sua existência fosse apenas barulho de folha levada ao vento. É que não sabia mais insistir, porque insistir dói demais. Tinha se apegado tanto ao passageiro que a sensação de liberdade virara vício. Quase tudo parecia ter data de validade, prazo marcado, contrato temporário para assegurar o fim. Porque o fim era de uma liberdade dolorida, mas ainda sim libertária. Sem mais jogos, torturas, ilusões ou esperas. É que o amor é tão humilhante que é até bonito. É preciso força. Até o amor exige. Mas o que havia ainda eram milhões de ensaios. Para um amor. Que talvez algum dia se faria sentir.

Do supremo egoísmo: "Preciso de alguém que me faça resistir a querer ir embora"

Saturday, February 07, 2009

On the road

Eles dançavam pelas ruas como peões e eu me arrastava atrás

como sempre tenho feito toda minha vida atrás de pessoas que

me interessam, porque as únicas pessoas que me interessam são

os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, que

querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou

falam chavões…mas queimam, queimam, queimam como fogos

de artifício pela noite.


Jack Kerouac, , On the road, o manuscrito original, pg. 106 (L&PM)

Tuesday, January 15, 2008

Fugere urbem

Adeus.
Que se rompa o fio último de tudo.
Eu quero a felicidade pura e destilada. Que ela venha clandestina e plena.


Tenho sede de plenitude.


Chega desse sofrimento dosado. Quero a libertação absoluta, total, intensa.
No meio da tristeza e da angústia veio a vontade mais forte de ser mais eu.
Quero voar alto e forte.
Quero voar longe, bem longe.
E rápido.


O desejo do desconhecido me fez desgostar do óbvio. E querer o improvável.

Eu quero o espanto, a descoberta, a autenticidade. O previsível me enjoou.


Eu quero o improvável.

Tuesday, May 01, 2007

Ficha limpa

Pegou seu RG, seus documentos e partiu. Picotou-os cuidadosamente com a tesoura enquanto ia passeando por seus lugares preferidos e borrifando seus pedacinhos por todo o canto.
Fez das suas digitais um quebra-cabeça que jogou para o ar, não mais esperando alguém que viesse decifrar: pura desesperança. Deixou que o ar espalhasse e perdesse para sempre qualquer vestígio. Não queria mais ser borrão de dedo, nem seqüência de números. Não queria mais limitar suas possibilidades pela grandeza de suas cifras: danificou também seus cartões de crédito, fez dobraduras com as folhas do talão de cheques e fez questão de esquecer a senha do banco. Sua certidão de nascimento virara barquinhos de papel que faziam a diversão das crianças no parque.
Viu-se em poucas horas, fragmentos primitivos de si mesma. Era apenas essência, despida de qualquer civilização.
Olhou-se no espelho e enxergou sua imagem menos nítida. Ainda notava, porém, alguns traços fortes. Tratou então de renunciar a toda idéia sobre si mesma. Deixou-se formatar até virar um disco rígido.
Estava limpa pra começar de novo.