
Um dia ela caiu pela primeira vez. Chorou mais pelo susto do que pela dor. Logo depois vieram acudi-la com colo, merthiolate e um band-aid nas mãos e então ficaram com ela até ela parar de chorar, mas isso tinha sido há muito tempo atrás...
***
Muitos anos se passaram e ela já tinha se conformado com a cruel lei da gravidade. Você caía e ponto. Caía porque era um minúsculo corpo sob a ação da imutável força de atração exercida pelo grandioso planeta em que tinha que aprender a viver. A Terra era um corpo maior. Os grandes sempre vencem.
Ela já sabia disso, mas nem por isso a queda deixava de doer.
Agora ela tinha caído de novo, e não foi numa brincadeira de esconde-esconde na hora do recreio. Temia que talvez o problema fosse esse: tinha se mostrado demais. Talvez tivesse sido melhor se esconder como sempre fizera até então.
Nunca ela ouvira alguém fazendo a contagem, mas sempre se escondera. Era possível que talvez ninguém estivesse procurando-a, mas ela gostava de pensar que havia alguém em algum cantinho do planeta vasculhando tudo atrás dela. A verdade é que já demorava o súbito encontro, e a cara de espantada que ela faria ao ser encontrada já fora ensaiada muitas vezes diante do espelho. Já tinha até contado quantos passos iria compor sua corrida até chegar ao lugar da contagem para assim ganhar o jogo, mas ela não queria ganhar o jogo. Preferia que esse alguém a pegasse antes dela fugir e o jogo assim terminar.
Pensamento tolo.
Assim como as quedas de sempre. Assim como as Leis da Física. Assim como ela própria.
Em vez das Teorias Gravitacionais, preferia acreditar numa Teoria dos Calos. Os dedos do músico criavam calos depois de um tempo doendo no encontro das cordas de aço do violão. Depois dos calos, nada doía. Ela acreditava no calo tal como Brás Cubas acreditava no tal do emplastro. O calo deveria ser a cura para o mal da humanidade. Isso devia ser a esperança do mundo. Essa era a esperança dela.
Mas já havia caído tantas vezes... e ainda não sentia a insensibilidade de quem já era calejada. Sentia a dor de quem caía pela primeira vez. Como sempre.
Não esperava mais pelo colo. Às vezes ele vinha nos braços de algum amigo, mas ela não queria mais colos: o choro já não era mais pelo susto, era pela dor em si.
Já não precisava mais usar aquele merthiolate vermelho-sangue que denunciava o machucado. Agora já existia um transparente, mas que não deixava de arder.
Colocou o band-aid e torceu para que dessa vez, no lugar da casquinha, se formasse de vez um calo.
Na insensibilidade futura ela depositava a sua esperança.
Ouvindo: Hole in my Soul - Aerosmith
2 comentários:
=/ sabe .. isso me faz lembrar algumas coisas,pessoa! e algumas teorias...
lembra q eu já te disse q para mudar ...precisa passar por algum trauma ou (me falta a palavra agora) um tipo de "sofrimento"...mas q não obrigatóriamente teria de ser algo ruim.
a mudança pode nos salvar,acredito mais a de personalidade doq a física hehehe
e os calos ficam,Insista,persista nunca desista q um dia vc conquista....até lá vc terá um montão de calos hehehe
=****** te adoro
Cubas morreu pelo emplasto. Seria você capaz de morrer pela sua idéia fixa? Se bem que ele morreu por tolice, pura fixação e não por dar a sua vida à sua causa.
Foi muito engraçado ler sobre alguém que vasculha o mundo inteiro para te encontrar. Afinal, fui direto no meu contato e, ao ser deixado no vácuo, estou lendo seus posts de 700 dias atrás, na esperança de te entender.
Sobre os calos, não acho que estes sejam a cura para a humanidade. Pelo contrário, o calo é o câncer da humanidade. Quanto mais calejada a pessoa, mais conformada ela é. É como o miserável que saca um salário mínimo vindo do INSS. Se calejou das dores da vida, se conformou em não ser tratado como gente, largado horas à fio em filas e expressando grunidos como a última faísca de irritabilidade.
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