Monday, March 06, 2006

Sobrevivia subentendida – Apenas uma piada mal formulada.

De repente.
Foi assim, sem mais nem menos que tudo aconteceu, que toda aquela mudança revolucionou. E ela que nunca fora de mudar, que sempre invejara as lagartas rastejantes que ganhavam coloridas asas... agora ela própria havia se metamorfoseado.
Não ganhara asas. Não mesmo.
A transformação não mudou sua locomoção. Mudou seu jeito de rastejar, de caminhar, de tropeçar... agora já aparentava uma certa dignidade depois da queda.
Mas ela não tinha caído. Não mesmo.
Apenas se dera conta que nunca tinha aprendido a andar. Agora dava seus primeiros passos sobre duas pernas. Não tinha asas, mas agora não precisava mais rastejar. Não voaria, mas os passos vacilantes e trôpegos já eram uma conquista de olhos arregalados.
Olhos.
Antes ela olhava pra fora. Talvez em busca de alguma coisa que nem ela sabia direito. Hoje seus olhos não estavam voltados para fora. Hoje ela trazia seus olhos voltados pra dentro, como se vigiasse alguma coisa importante (um tesouro talvez?), algum fenômeno mágico.
Se os outros percebiam a diferença, não se sabe. Geralmente os olhos voltados para dentro dificilmente deixam transparecer alguma coisa. Não porque tenham a falsidade das janelas com vidros opacos. Não. Apenas eram como janelas abertas com cortinas esvoaçantes que ocultam sei-lá-o-quê de importante; e as cortinas ocultavam com uma docilidade de não provocar indignação revoltada. Se prestassem atenção, talvez tivessem visto uma coisa ou outra quando o vento batia e revelava parte do segredo entre os tecidos dançantes.
Ela vivia sob emoções, sob humor, sob inconstâncias. Vivia sobre o medo, sobre o orgulho, sobre uma montanha-russa.
Mas sobretudo, sobrevivia.
Subentendido. Tinha mais graça. Sempre achara isso.
Sentia-se como uma piada. Algumas vezes engraçadinha; outras vezes, sem sentido nenhum; geralmente, não entendida. Mas a graça morava no desentendimento. Por acaso alguém realmente já achou graça de uma piada explicada?
Não, não tinha graça. Mais vale o semblante perturbador de uma feição interrogativa do que a falsidade das gargalhadas manipuladas. O não-explicar é muito mais real, muito mais espontâneo, muito mais vivo. A magia residia em não explicar. Talvez algum dia entendessem... que fosse! Talvez não entendessem jamais. Isso não era culpa dela. Não tinha culpa que o piadista a contara tão mal a ponto de ninguém rir. Ela era apenas uma piada mal formulada. Mas até as piadas mal-formuladas não devem ser explicadas. Isso ela sabia.
Metamorfoseado. Ela tinha mudado.
Já não era mais ela. Era outra. Uma “outra ela”. Tinha se renovado. Tinha se reinventado. Finalmente.
De repente. Não mais que de repente.

Ouvindo: I'll Follow the Sun - Beatles

2 comentários:

Anonymous said...

Piadas mal contadas e mal intendidas realmente acho q não devem ser explicadas...
depois..se a pessoa q não a entendeu parar para pensar sobre a piada....talvez ela a intenda e veja como ela realmente era....
passando assim a ter uma metamorfose no pensamento dela sobre a própria piada
Pela mudança do pensar .. nós mudamos e quando cada um nos ve de um modo novo e diferente ... nos faz mudar no exterior =)
=**** te adoro muito more

Marcelo said...

Ah... mudar. Se soubesses que dali dois anos estaria a fazer o mesmo discurso...

=p