
... não num reino encantado, mas em uma cidade barulhenta, violenta e movimentada vivia nossa anti-heroína.
Sem castelos, sem trono, sem bailes e sem fadas.
Lobos, bruxas malvadas, madrastas e irmãs cruéis. Tudo vinha disfarçado através da briga com a irmã, da alfinetada daquela pessoa insuportável, do desprezo gratuito e dos sapos engolidos. E pior, eles não viravam príncipes.
O cotidiano não era viver suja de borralho, nem viver aprisionada com uma Fera, nem comer maçãs envenenadas. Diariamente, só o trânsito de duas horas e meia sem fada que pudesse transformar abóbora em carruagem. Mas ela nem pensava nisso. Sonhava com um jato particular no seu sono sacolejante dentro do ônibus.
Era uma época em que príncipes estavam extintos.
Seleção natural, talvez... embora ela achasse que a teoria de Darwin era tudo balela. O sonho do cavalo branco e da espada brilhante na cintura não era exigência a ser cumprida. Na verdade achava que príncipes eram chatos demais, e acabavam aparecendo só quando a princesa já tinha sofrido horrores sozinha ou então quando ela já tinha morrido por envenenamento ou furado o dedo no fuso de uma roca de fiar que estava sob mandinga de alguma fada-arroz-de-festa despeitada por não ter sido convidada pra uma festança no palácio.
Pra ela, príncipes só serviam pra dar dor de cabeça depois de ficarem pendurados por horas em suas tranças.
Ela não era nenhuma princesa. Nem tinha vocação pra isso.
Também não estava atrás de nenhum lobo-mau. Não queria porquinhos, por mais que eles pudessem assegurar uma casa segura, e estava cheia de tantos malandros Gatos-de-Botas que achava por aí.
Mas enquanto ninguém aparecia, vivia.
Bem melhor que esperar adormecida sob encanto até aparecer o cara certo. E como sabem, isso demora anos...
3 comentários:
A minha princesa. A mais bela do reino, com certeza. Não sou nenhum espelho, espelho meu, mas nem é preciso tanto para ter certeza.
Um post que poderia até ser escrito por mim rs. Eu e minha fascinação por contos de fadas.
Adorei a colocação do Gato-de-botas, nunca lembro dele.
Mesmo sem madrasta e bruxas, e fadas invejosas, não é fácil viver essa história. Tudo é alucinante e tedioso ao mesmo tempo.
E o príncipe parece não chegar nunca! E se você dormir, muito pior: A fila anda!
Retrato da realidade ?
É... difícil buscar pessoas diferentes por dentre esse mundo de pessoas tão iguais.
Afinal, príncipes e princesas a muito são desvalorizados, aí então aqueles que podiam ser não o são, ou o são, mas sem saber, e se mantém ocultos.
Ou pior, passam desapercebidos, não sabemos então, se aqueles que vimos de relance um dia num ônibus era o(a) tal que tanto esperamos.
Bjo moça.
Isso apesar de tudo e não encare isso como uma ofensa, me remeteu à aquela frase usada por aí: Enquanto não acho o homem certo, me divirto com os errados.
Príncipes são pessoas que herdaram sua posição, sem mérito. Por dentro que descobrimos a verdadeira nobreza. Não é difícil de pensar em um bonitão bombado azucrinando os sete anões, mantendo seus gorros à uma altura que não pudessem alcançar e uma branca de neve enjoada dizendo "Para com isso, amor", mas sem muita desaprovação em seu tom de voz.
Chegamos novamente ao dilema da fortaleza, Dani Yoko. Nunca verás a nobreza de um coração enquanto não deixar o seu sair para brincar.
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