A tarde tinha som de bossa nova e o vento cheirava a mar.
Caminhou no concreto como quem caminha na areia fofa e sentiu o sol frio do inverno como quem sente o calor da primavera. Não se importou com os cachecóis coloridos da rua tirados dos guarda-roupas fora da época. Dispensou o enforcamento térmico e sentiu a pele do pescoço arrepiar como um felino melindrado. Ganhou olhos de lince.
Esqueceu o secador e chacoalhou seus cabelos molhados sem se importar com a friagem: queria ser chuva. Então caminhou pulando como quem faz tormenta, mas que aos olhos ignorantes alheios, parece é ser atormentada. Não era. Deixou-se respingar orvalho cheirando a shampoo, no meio da floresta cinza e áspera.
Ela estava em um mundo à parte que de repente se fez tela branca e deixou-se pincéis e guaches, tintas e aquarelas. E ela era pura inspiração.
Imune às interpretações alheias, blindada às críticas especializadas. Ela era expressão daquilo que não se ousa nomear. Na proteção da indefinição, sentiu a liberdade de simplesmente ser-não-sendo, tornar-se destornando-se, descolorindo-se em tons transparentes, até sentir ser apenas esboço de linhas fracas e suaves. Pronta para ser colorida novamente.
Em uma arte louca, abstrata e bem oposta à natureza-morta:
era vida latente em demasia.
Na tarde que tinha som de bossa nova.
Som de bossa nova.
Caminhou no concreto como quem caminha na areia fofa e sentiu o sol frio do inverno como quem sente o calor da primavera. Não se importou com os cachecóis coloridos da rua tirados dos guarda-roupas fora da época. Dispensou o enforcamento térmico e sentiu a pele do pescoço arrepiar como um felino melindrado. Ganhou olhos de lince.
Esqueceu o secador e chacoalhou seus cabelos molhados sem se importar com a friagem: queria ser chuva. Então caminhou pulando como quem faz tormenta, mas que aos olhos ignorantes alheios, parece é ser atormentada. Não era. Deixou-se respingar orvalho cheirando a shampoo, no meio da floresta cinza e áspera.
Ela estava em um mundo à parte que de repente se fez tela branca e deixou-se pincéis e guaches, tintas e aquarelas. E ela era pura inspiração.
Imune às interpretações alheias, blindada às críticas especializadas. Ela era expressão daquilo que não se ousa nomear. Na proteção da indefinição, sentiu a liberdade de simplesmente ser-não-sendo, tornar-se destornando-se, descolorindo-se em tons transparentes, até sentir ser apenas esboço de linhas fracas e suaves. Pronta para ser colorida novamente.
Em uma arte louca, abstrata e bem oposta à natureza-morta:
era vida latente em demasia.
Na tarde que tinha som de bossa nova.
Som de bossa nova.
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