Da importância do anonimato das coisas imperceptíveis do cotidiano. Porque sentir o mundo em seus mínimos detalhes é insuportável demais.
Fiz caber numa mochila minha viagem, sem deixar espaço pra vaidade. O dia anterior de festa mostrava que tudo aquilo que adotei desde março, há dois anos, passara. Já não era mais tempo de se perder. A visão se fechava num branco de luzinhas brilhantes que sempre me faz lembrar a cegueira leitosa de Saramago. Mas pra mim, a leitosidade era pouca: o alerta deveria ser em neon. O mal-estar e aquela dor de cabeça que era o alerta. Ignorei-a.
Fechei o zíper da mochila apressadamente, engoli os comprimidos de sempre e saí contando os passos pra ver se amenizava a dor. Pedi a passagem como quem pede um passe pra liberdade e adentrei o ônibus sozinha. Respirei fundo. Pensei em voltar. Tontura. O estômago apertava e o gosto horrível do remédio fazendo efeito dentro de mim.
Fechei os olhos e comecei a conversar comigo mesma no silêncio sacolejante do ônibus. Na poltrona 26 havia uma alma um pouco cansada, um corpo pedindo socorro e a esperança contida num comprimido. Odeio quando isso acontece. Saber como lidar é bem diferente de se acostumar. Acho que nunca me acostumo, mesmo já treinando os mesmos procedimentos desde a infância. Até as crianças carregam algo incômodo.
Lembrei de Lewis Carroll. Lembrei de Alice deparando-se com objetos gigantes, pequenos, mutantes. Nessas horas, minha sensibilidade fica a níveis tão extremos que o mundo se torna insuportável. Qualquer som é demais. Os normalmente imperceptíveis ganham relevância e meu ouvido não filtra mais nada. Chega tudo intenso no meu cérebro. As cores mais suaves sempre me parecem ofuscantes. Os cheiros, mesmo os perfumes me asfixiam. Era sentir demais. Era vida a doses nem um pouco moderadas. Sentir o caos na totalidade é absurdamente insuportável. Desconfio que eu sempre tendi à sensibilidade exagerada e desmedida. Pra voltar ao tolerável, sempre teria os dois comprimidos inseparáveis na carteira.
Dormi eu, minha mochila e minhas sensações desmedidas. Para os passageiros, uma garota pálida com destino ao litoral. Esperavam-na pessoas queridas, uma árvore de Natal a decorar, areia a imprimir pegadas, estômagos aguardando pelo strogonoff que ela havia prometido, um enigma por ela descoberto, e o mar... o mar que ela nem ligou em ter de encarar com o mal-estar que ainda não passa: ela iria respirar bem fundo, ouvir ao longe seus companheiros num jogo de cartas, andar em direção às ondas, fechar os olhos e aproveitar os sentidos incomodamente potencializados.
Ouvir o barulho do mar, sentir em todos os poros o vento batendo de leve, inspirar o cheiro salgado do ar e mergulhar. Mesmo sem sol, o mar era bênção na praia vazia de Riviera. E ela sentiu o mar ao máximo. E isso até valeu a pena.
Mas os comprimidos ainda não fazem a normalidade voltar. E eu precisava sentir menos. A Dra. Beth deve ajudar.
Fiz caber numa mochila minha viagem, sem deixar espaço pra vaidade. O dia anterior de festa mostrava que tudo aquilo que adotei desde março, há dois anos, passara. Já não era mais tempo de se perder. A visão se fechava num branco de luzinhas brilhantes que sempre me faz lembrar a cegueira leitosa de Saramago. Mas pra mim, a leitosidade era pouca: o alerta deveria ser em neon. O mal-estar e aquela dor de cabeça que era o alerta. Ignorei-a.Fechei o zíper da mochila apressadamente, engoli os comprimidos de sempre e saí contando os passos pra ver se amenizava a dor. Pedi a passagem como quem pede um passe pra liberdade e adentrei o ônibus sozinha. Respirei fundo. Pensei em voltar. Tontura. O estômago apertava e o gosto horrível do remédio fazendo efeito dentro de mim.
Fechei os olhos e comecei a conversar comigo mesma no silêncio sacolejante do ônibus. Na poltrona 26 havia uma alma um pouco cansada, um corpo pedindo socorro e a esperança contida num comprimido. Odeio quando isso acontece. Saber como lidar é bem diferente de se acostumar. Acho que nunca me acostumo, mesmo já treinando os mesmos procedimentos desde a infância. Até as crianças carregam algo incômodo.
Lembrei de Lewis Carroll. Lembrei de Alice deparando-se com objetos gigantes, pequenos, mutantes. Nessas horas, minha sensibilidade fica a níveis tão extremos que o mundo se torna insuportável. Qualquer som é demais. Os normalmente imperceptíveis ganham relevância e meu ouvido não filtra mais nada. Chega tudo intenso no meu cérebro. As cores mais suaves sempre me parecem ofuscantes. Os cheiros, mesmo os perfumes me asfixiam. Era sentir demais. Era vida a doses nem um pouco moderadas. Sentir o caos na totalidade é absurdamente insuportável. Desconfio que eu sempre tendi à sensibilidade exagerada e desmedida. Pra voltar ao tolerável, sempre teria os dois comprimidos inseparáveis na carteira.
Dormi eu, minha mochila e minhas sensações desmedidas. Para os passageiros, uma garota pálida com destino ao litoral. Esperavam-na pessoas queridas, uma árvore de Natal a decorar, areia a imprimir pegadas, estômagos aguardando pelo strogonoff que ela havia prometido, um enigma por ela descoberto, e o mar... o mar que ela nem ligou em ter de encarar com o mal-estar que ainda não passa: ela iria respirar bem fundo, ouvir ao longe seus companheiros num jogo de cartas, andar em direção às ondas, fechar os olhos e aproveitar os sentidos incomodamente potencializados.
Ouvir o barulho do mar, sentir em todos os poros o vento batendo de leve, inspirar o cheiro salgado do ar e mergulhar. Mesmo sem sol, o mar era bênção na praia vazia de Riviera. E ela sentiu o mar ao máximo. E isso até valeu a pena.
Mas os comprimidos ainda não fazem a normalidade voltar. E eu precisava sentir menos. A Dra. Beth deve ajudar.
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