Wednesday, January 07, 2009

A Colhedora de filosofias clandestinas

Andavam pela Paulista no seu Dia de Programação Cultural. Eles percorriam juntos a avenida invadindo exposições, pesquisando as peças de teatro, espionando filmes no HSBC Belas Artes e esparramando-se nos pufes da Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Créditos de Imagem: Getty Images


Colho filosofias clandestinas. É minha mania de colecionadora. Justifico o hábito estranho: colecionar filosofias clandestinas não exige espaço, nem caixas. Requer uma certa manutenção, mas em vez da faxina que me renderia uma rinite certeira, o cuidado vira passatempo em que troco algumas horas de sono a brincar de lego com a minha coleção de teorias indigentes alheias e construo outros mundos.

A verdade é que tenho um critério para organizá-las. Apesar de serem filosofias clandestinas, elas não são anônimas. Sei bem quem é o autor de cada uma. Se foi o taxista a falar sobre a vida, generais e batalhas; se foi o amigo físico a detalhar um gráfico dos afetos; se foi a senhorinha no ônibus a acidentalmente me despertar uma filosofia interior (atribuo a autoria a ela); se foi o desconhecido que trombei em um lugar qualquer da universidade e me apresentou a filosofia das pipocas de queijo do Departamento de Ciência Política da FFLCH.

Confesso que esse quase vício em colecionar filosofias indigentes acaba sendo incômodo. Me faz ser uma aristotélica contemporânea incisiva. Mas uma aristotélica ao inverso: tento provocar uma maiêutica não para ensinar uma sabedoria maior (quem me dera), mas para instigar qualquer idéia alheia de se me mostrar, para fins de uma colecionadora um pouco egoísta.

Não sei bem ao certo quando comecei com a coleção. Certamente não foi uma decisão assim, deliberada num dia, de repente. Deve ter sido em alguma boa conversa que despertou a mania natural - de repente me via conversando mais facilmente com estranhos e refletindo as entrelinhas do que me diziam. Do cotidiano saem reflexões incríveis. E essas são raras porque são mais difíceis de se dar com elas. É porque para o cotidiano é preciso olhos e ouvidos atentos: as raridades se disfarçam de rotina e é preciso cultivar o esforço da eterna novidade do mundo.

Duvido.

Não duvide! Vamos tentar para você me entender. Sei lá, me conta alguma história, alguma coisa que aconteceu ou alguma opinião sua sobre alguma coisa banal.

Hmmm... Forçado assim é difícil. Eu poderia falar sobre muitas coisas banais agora. Eu passei a tarde toda falando de várias. Mas agora que você me pediu, é um esforço quase sobrenatural lembrar de qualquer fato.

Pois bem, disso já tiro mais uma peça da minha coleção Gabriel. Obrigada!
... tá bom, não me olha com essa cara de ludibriado. Eu explico. A sua observação aparentemente comum me faz concluir

- a espontaneidade não se pede.

Isso me faz pensar em como tudo pode ser tão precioso sem nem nos darmos conta. A naturalidade das coisas. Temos a percepção errada de que o normal é um comum sem valor. Só porque as coisas seguem o curso normal não quer dizer que não sejam especiais. O são porque não podem ser induzidas. A naturalidade exige seu tempo certo e tem uma vontade própria rebelde: é só forçarmos sua incidência e ela propositalmente não se deixa acontecer. É um dos poucos fenômenos sobre os quais o homem ainda não tem controle.

Vale para coisas bobas como para os sentimentos maiores. Tente se forçar a amar alguém. Amar exige a rebeldia da naturalidade e do espontâneo. E talvez só por isso seja tão raro. Porque é rebelde. E porque é espontâneo. Um dos poucos fenômenos sobre os quais o homem ainda não tem controle.

5 comentários:

RIDO said...

O homem?

Que homem?

Controle?

Anonymous said...

Menina, mas que belo! Fiquei impressionada. Não que tudo o que você escreva não me impressione, mas tuas palavras andam tão certeiras na alma que chega a assustar! Saudades da ternura tua.
Larissa

Marcela Brunelli said...

É, acho que o próximo lançamento em que estarei presente será o do seu livro, mulher!

Parabéns!
Bjinhos espontâneos!

Alberto K. said...

Hum... fui seco ver o post do "enxadrismo"... agora entendo a beleza dos seus posts: você os esmera até atingir a forma desejada!...

Daniela Yoko Taminato said...
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