Tuesday, July 07, 2009

Isoptera

Deve ter sido um processo longo e gradual daqueles que a gente nem se apercebe no passar dos dias, porque sempre, sempre, eu olhava o mundo, atravessava a rua, ia ao cinema, escrevia, pegava o ônibus lotado, cansava, ria... eu era assegurada pela rotina do que era ser eu.

Agora eu era alguma outra coisa que não o eu que eu fora. Tinha sido certamente um trabalho de cupim, a comer a madeira por dentro e deixar o de fora lindo, saudável e forte, para então um dia eu acordar e não ser mais eu, assim, bruscamente. Acordar pó por dentro e ver toda estrutura imponente ruir. Já não reconheço mais nada nada nada nada do que era terno. E de repente pareceu que sempre foi assim

bruto, áspero e cor de asfalto velho.

3 comentários:

Mah Jardim said...

Incrivel seu texto.
-
Obrigada pelo comentário, as aulas de História do Brasil andam mexendo comigo.
:)

Alberto K. said...

Nossa, acho que já vi isso, em algum lugar dentro de mim...

Mas pelo que ando lendo ainda por aqui, sinto algo de ternura do qual você detém conhecimento... acho que é questão de auto-releitura.

Marcela Brunelli said...

Terrível, essa sensação, né? Sentir que a estrutura, tão sólida, agora se foi, completamente corroída pelo cotidiano e por coisas que nos estragam e nos tiram a ternura sem ao menos nos darmos conta.

Há saudade do meu sorriso interior, tb.

Um beijo!