Ela esfregava a louça fazendo surgir aquela espuma branquinha num movimento brusco. Era de um mecanicismo inconsciente e cheio de raiva. Ele permanecia do seu lado pegando automaticamente a peça ensaboada e posicionando embaixo da corrente de água límpida da torneira. Mudos. A discussão inacabada do almoço continuou suas reticências em silêncio e detergente. De vez em quando ela esbarrava a esponja na blusa e grunhia um protesto irritado de sons que escapavam da garganta. Ele parecia não se afetar pelos ruídos e pela agressividade. Aproveitava a sensação gelada da água nas mãos. Fazia calor lá fora. Foram garfos, copos, pratos, panelas... Agora já dava pra ver o mármore da pia. A louça empilhava-se no escorredor com o magistral esforço engenhoso dele em arranjar as coisas, em organizá-las de modo a ficarem equilibradas no pequeno espaço. Precisavam de um escorredor maior (ou mesmo lavar a louça com mais freqüência). E então sem querer, como quando a gente pertence de repente à dimensão dos acasos afortunados, ao enxaguar o copo espirrou água em seu rosto maquiado. Num gesto espontâneo de contra-ataque ela lambuzou-o de espuma com a esponja. E então toda a raiva deu lugar a uma risonha guerra de sabão e água na pequena cozinha do apartamento. E da janela do 507 voavam pelo ar bolhas de sabão.
6 comentários:
Atrasadíssima, mas, quando vi o tema CONTO, não pude deixar de ler. simples, retratando os acasos afortunados dessa vida emburrada da gente. E que delícia seria se todas as discussões acabassem assim, né?
Não pára não, rumo ao seu livro!
Bjinhos
muito bom
No que um simples toque do acaso não faz em momentos como estes....
É algo que em menos esperamos e muda totalmente o rumo da história.
vai de encontro ao que eu vivo dizendo, sua mulher tem um problema? mande a lavar louça!
trabalho domestico tira pensamentos impropios da cabeça feminina...
depois da uma passada no meu blog, atualizei há pouco! =)
Tsuyoshi é o professor Tsuyoshi?
Suspirei por um final de discussão como esse.
Bem comentado!
Às vezes isso me faz lembrar algo como uma selva onde vários "eus" disputam para ser o alfa metafórico do bando; mas algo como um alfa para si mesmo: a pessoa se reconhece no pisar dos outros e se torna chefe de si a partir disso... é, meio triste isso. Bom, é uma das opções que se tem em meio às formas de interagir com os outros...
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