Thursday, September 23, 2010

A pessoa de Paris




Meus olhos não faziam caber todos os detalhes da catedral. Era imensa. E a sua imensidão cheia de detalhes me fez sentar no chão da Place du Parvis, como se a construção tivesse sido erguida só pra que eu a encontrasse ali, alguns séculos depois, e a admirasse sentada no chão, bem no meio da praça, como se tivesse direito de atrapalhar o trânsito frenético de turistas. Era fim de tarde e o sol refletia laranja nas águas do Sena. Estava sozinha. Como durante todo aquele mês, na minha rotina de viajante independente.

Curiosidades sobre arquitetura e história não tinham lugar naquela contemplação puramente estética do belo. O cansaço da viagem no trem tinha decidido que as curiosidades ficariam pro dia seguinte. Aqueles olhos não queriam saber das conturbadas épocas históricas pelas quais Notre-Dame tinha passado para estar ali de espetáculo pra mim. Gárgulas, vitrais, o estilo gótico... não significavam nada naquele momento além de beleza absorvida pelas minhas pupilas.

Não demorou e a pessoa de Paris logo apareceu. Cada lugar tinha uma lição e uma pessoa. E a regra não tinha sido criada por mim – surpreendentemente. Lembrava da pessoa de Viena profetizando: 'não precisa ter medo de viajar sozinha, porque no final das contas você não estará nunca sozinha se souber estar ali de verdade.' Estar ali de verdade. Na hora eu não tinha entendido, mas senti que não devia perguntar. Algumas perguntas a gente tem que calar, porque o entendimento virá com o tempo. Se você souber estar no mundo de verdade.

Ele sentou do meu lado, no meio do chão da praça. Talvez pra amenizar a visão estranha que eu causava ali. Não virei pro lado. Continuei a não despregar os olhos da catedral. Eu não era mais afobada por ter companhia. Já me sentia bem na minha própria companhia. Tinha já ultrapassado a lição de me desprender da mania de falar, falar e falar só pelo vício de se dizer qualquer coisa, de distrair minha própria atenção cantarolando minha voz em conversas infinitas. E assim se passaram alguns minutos.

Então ele falou olhando pra catedral: 'é mesmo linda...' Concordei assustada por ter entendido o que ele tinha dito em francês. Depois de um tempo, parecia que eu conseguia entender as línguas que nunca tinha estudado na vida, como se elas fossem uma linguagem universal, ou como se eu tivesse apenas acionado um botãozinho na minha cabeça que me permitia entender tudo. E ele continuou com seu francês que eu já não entendia mais.

Perguntei se ele podia repetir em inglês, mas as tentativas de inglês dele eram piores do que as minhas de tentar entender seu francês parisiense. Era mais velho. Mais alto. Escritor. Chamava Francis. Tinha já alguns cabelos brancos. Começamos uma conversa estranha, mas assustadoramente inteligível. Ele mesclava seu francês com algumas poucas palavras em inglês. Eu mesclava meu inglês com umas palavras em italiano quando ele não entendia o que eu tinha dito. O que acabou funcionando bem depois que pegamos o jeito.

Escureceu e as luzes acenderam e iluminaram o contorno das fachadas. Francis disse que Paris era pra ser degustada. Apontou para o meu mapa e disse que isso não ajudava muito se alguém quisesse entender e vivenciar Paris de verdade. Apesar de tudo, circulou meu mapa apontando o que eu não poderia deixar de ver. 'É seu primeiro dia em Paris?' Sim, tinha desembarcado do trem antes do entardecer e vindo direto pra cá, onde estava perdendo minhas primeiras horas parisienses no chão dessa praça. Várias horas só olhando pra fachada de Notre-Dame. 'Bom' ele disse em sinal de aprovação. 'A maioria dos turistas vem pra cá, vêem a fachada, entram, saem, e correm ao longo do Sena ávidos por mais pontos turísticos. Eles não entendem e nem buscam entender. Você está degustando Notre-Dame. Pra alguns, as suas quatro horas sentada aqui são um desperdício. Vão embora pensando que conheceram Paris ao ver a Torre Eiffel e tirarem algumas fotos no Sacre Coeur, mas não conversaram com nenhum parisiense, não sabem como pensamos, como vivemos. Acabam sem saber nada daqui além do que se pode ler num guia turístico ou comprar numa lojinha de souvenirs. O turismo transformou o viajar também em uma mercadoria. Faz as pessoas quererem tudo e acabarem sem nada no final das contas. Existe até o mercado das novidades. Mas no fundo, são coisas re-editadas que nos vendem como novas.
Ele exemplificou com o improviso do jazz. 'O músico varia uma ou duas coisas que é capaz de fazer e trabalha em cima dessas variações. Se você entende de música pode perceber. E ele sabe que o público não vai notar: o que eles querem é o espetáculo, a performance, e não a música em si.' Fiz uma careta de desaprovação. Ele, se desculpando, citou Adorno. 'Era o que ele dizia.' Eu ri. 'As pessoas não percebem com essa sede do novo, que na verdade consomem coisas velhas disfarçadas de novas.' Entramos na discussão passando por filosofia, cinema, mitologia. 'A mesma coisa acontece no cinema, que nada mais é que o ato de contar uma história.' 'É, arquétipos' arrisquei. 'Que podemos remeter à mitologia. No fundo, no fundo, as histórias se repetem só disfarçadas por outro ambiente, detalhes, mas a estrutura da história é a mesma.'

Ficamos em silêncio. 'Você é uma pessoa interessante.' Estendeu um livro de capa branca bem simples. Pude ler Un amour dans l’Antarctique escrito em fonte verde. Ele me contou sobre mais detalhes da trama, mas nada de que eu possa me lembrar agora. 'Não sei ler francês Francis, mas obrigada. Acho que você devia dar de presente a uma francesa.' 'Ou você poderia aprender francês quando voltar ao Brasil e depois me escrever dizendo o que achou do meu livro' rebateu.

Agradeci e ficamos olhando pequenos pontos de luz coloridos que subiam no céu e caíam. Eram como helicópteros de plástico brilhantes que os vendedores ambulantes tacavam ao céu com um elástico e depois corriam para pegá-los quando caíam. Era um espetáculo que não parava. Já tinha visto em outros lugares. E eram tantos os vendedores, que criava uma espécie de constelação de vagalumes que subiam e desciam. 'Eles sempre caem no final das contas.' Olhei pra Francis curiosa, esperando pelo desenvolver do pensamento, mas ele não continuou. 'O que você acha mais importante na vida? O homem vive buscando sem saber o que procura. Sem tentar entender o que quer antes de procurar, sabe? O que é bem estúpido.

E o que é a coisa mais importante da vida pra você Francis? 'O amor. Tá, parece bobagem, coisa que todo mundo diz. Mas se as pessoas parassem pra entender o que é amor primeiro antes de sair procurando, correndo atrás de coisas que as fazem felizes...' E porque a felicidade não é a coisa mais importante da vida pra você? 'Quando você tem amor, você sempre será feliz Daniela. E não estou dizendo que se você tiver um namorado será feliz. Amor, amor não tem uma forma única. Em vez disso as pessoas buscam coisas que as fazem felizes: compras, turismo, restaurantes caros, prostitutas, trabalho... e se esqueceram de como é bom ler um livro, viajar, saborear uma fruta exótica, estabelecer uma relação com alguém que você quer conhecer de verdade e deixar que esta pessoa te conheça, amar uma vocação...'

Minha cabeça estava inebriada ainda pelas conversas que tive antes de chegar na França. Tão diferentes. Lembrei da minha pessoa de Amsterdam e senti as duas mensagens entrando em conflito. Eu sentia que elas eram parte do mesmo quebra-cabeça que eu não estava conseguindo encaixar ainda. 'Então combinado hein? Você aprende francês quando voltar pro Brasil e dá opiniões sobre o meu livro. E amanhã, café parisiense.'



1 comentários:

victor pompêo said...

Você anda inspirada. Nós agradecemos.