
imagem via: giovanni_ha
Na porta tem um sininho dos ventos. Sempre teve porque minha mãe diz que deve-se saber quando alguém chega em casa. Mais do que uma ingênua e ineficaz medida de segurança de vila pacata de interior, ela dizia que era porque ninguém merece voltar para casa sem ser recebido.
Desde pequenos montávamos uma mini-comitiva de recepção para meu pai todo dia que ele chegava cansado do trabalho com suas rugas emburradas e seus sapatos engraxados. Éramos eu e minhas duas irmãs. Elas tratavam de toda parte decorativa da recepção diária: pinturas em guache, faixas de papel com seu nome, florzinhas arrancadas do parque. Eu não. Sempre cuidava da parte burocrática da operação. Joana deveria anunciar com animação a chegada do Seu Oliveira enquanto Betinha seria a multidão toda em seus gritinhos de 5 anos. Eu o receberia com meus ares de diplomata verbalizando o boas-vindas. Como foi o dia de trabalho sr. Oliveira? Agora trate de descansar e aproveitar o conforto desta poltrona. Nossa camareira Joana lhe servirá dentro de minutos um delicioso suco de goiaba. E então ela corria toda feliz pra cozinha, onde mamãe a esperava com um copo gelado e fresco nas mãos. Betinha pulava no colo do velho encerrando toda a encenação e arruinando meu comitê receptivo. Sai daí Betinha! A multidão não pode importunar seu Oliveira! Ele está cansado da labuta!
Mas eu acabava sempre por perder. Meu formalismo nunca teve vez contra a espontaneidade da caçula. Seu Oliveira desatava suas rugas em expressões amáveis que cheiravam a amaciante, dava um cafuné nos cabelos curtinhos espevitados e agradecia, agradecia. Logo se embrenhava nos noticiários da noite meio sonolento, meio acordado.
Eu já começava a bolar o comitê receptivo do dia seguinte, acumulando as longas frases nunca ditas das tentativas frustradas anteriores. Talvez devêssemos substituir as faixas borradas da Betinha e profissionalizar com recortes de jornal. Joana me ouvia com seriedade de secretária, mas algumas horas depois já se largava no tapete da sala olhando a tv como se estivesse interessada na voz entediante da jornalista. Era seu passatempo preferido para compartilhar suas únicas horas do dia com o pai. Anos mais tarde pegaria seu diploma de Jornalismo.
Seu Oliveira a algum ponto já roncava pesado no sofá. Eu sentava no chão do canto da sala a olhar praqueles bigodes tão imponentes. Um dia seria como seu Oliveira! Teria grandes tufos de bigodes! E terminávamos assim mais um dia. Pra no outro passar todas as horas bolando a próxima recepção. Esperando pela volta do pai. Esperando o tilintar do sininho.
Hoje sinto saudades. Meus planos nunca vingaram. Betinha continuou a levar a melhor mesmo quando já contava vinte anos. Hoje seu Oliveira não tem as recepções diárias espalhafatosas de outrora, mas minha mãe compensa sempre com um abraço carinhoso e o famoso suco de goiaba. Ele nunca parou de trabalhar, o Seu Oliveira. Dizia que tinha sido mal acostumado. Gostava das recepções. Devemos partir todo dia se quisermos voltar, ressoava a voz de barítono.
Quanto a mim, cultivo meus bigodes e moro sozinho num apartamento na Vila Madalena. Quando abro a porta ouço o tilintar de um sininho dos ventos que minha mãe pendurou ali. Presente para a casa nova. Sempre me deparo com a escuridão da sala e o tilintar do sininho me cumprimenta. Isso nunca me chateou. Hoje porém é meu aniversário, e minha mãe deve vir às dez me trazer um bolo e seus presentes. Seu Oliveira também vem. Assim como Betinha e Joana. Trarão meus sobrinhos.
Isso nunca me chateou. Hoje porém é meu aniversário. E quando voltei para casa o tilintar e a escuridão me cumprimentaram. Comprarei um gato amanhã. Ninguém merece voltar para casa sem ser recebido.
2 comentários:
Você é excelente contista.
Acho que sou acostumado no sentido contrário do seu Oliveira...
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