Quisera eu passar a tarde pensando só na próxima coisa agradável a se fazer no instante seguinte. Viver para mim, digo. Porque se a gente for bem fundo na ferida, talvez façamos mais coisas pelos outros do que por nós mesmos. Amputamos nossos caprichos e ficamos a vagar aleijados das nossas pequenas satisfações - ouso dizer que sejam talvez as únicas substancialmente verdadeiras nessa vidinha. Por exemplo: quando criança me agradava um bocado recolher as guimbas de cigarro que meu pai jogava ao chão com muita classe finalizando com a pisada - como quem dissesse "feito". Não sei explicar o porquê, mas me fascinava que cada uma fosse diferente, terminasse num tamanho diferente e tinha ainda a marca do pisão feito digital. Ah, eram únicas. A arte-final da expressão blasé da fumaça.
Minha mãe quando me percebeu recolhendo as pontas de cigarros pelo chão tão logo eram pisadas, objetou numa obviedade horrorizada e nojenta. Esse menino tinha mesmo manias muito estranhas.
Pois bem, parei. Mas gostava um bocado da minha coleção que nunca ultrapassava três cigarros apagados. A velha era a fiscal mais dedicada, recolhendo os itens ilegais da minha caixinha. Um dia me agradecerá performizava convicta. É por você mesmo!
Não me lembro eu quantas manias já tolhi pelos outros. Coisas que me davam prazer por mais estranhas que fossem. Por exemplo na hora de comer. Nunca gostei da textura da cenoura cozida ao ser mordida. Me agradava amassá-la com o garfo criando meu purê individual laranja. Que desgosto quando no jantar num restaurante, Mariana me olhou com aquele ar de terror indignado. Por que? Porque eu gosto oras. É uma tradição minha instaurada há muitos anos. Ela chiou. Eu parei mesmo enfrentando os horrores da abstinência. Um dia fui a jantar com a família da namorada e a mania repreendida explodiu no garfo inconsciente que amassava as cenouras cozidas para o horror da etiqueta. A vergonha dela ganhou a batalha, assim como também a persuasão materna sentenciadora da sogra. Um coração partido por uma tradição alimentar. Não tinha adiantado nada parar de amassar as cenouras. Mas mesmo com o lapso persisti na minha recuperação e agora digerir cenouras é uma das atividades que faço com maior elegância.
Tiveram também as anotações palmares. Digamos lá que minha memória não é das melhores e a bic tatuava sempre algum lembrete na palma da mão. Beatriz reclamava. Que não se podia andar de mãos dadas porque as dela acabavam azuladas. Resolvi parar com as anotações mesmo pensando que era ela que deveria suar menos nas mãos. O caos instaurou-se, minha vida desregulou-se, saiu dos eixos dos compromissos. Acabei esquecendo o dia do aniversário de namoro. Fim.
Mais um término e lá vai mais um gasto nas contas do mês pela compra do moleskine. E os lembretes ficavam ali pra consulta, mas nunca mais ao alcance rápido das mãos: procurava nos bolsos da calça, folheava paciente por entre as páginas. Era um trabalho que me desgostava até que comecei a tomar gosto por escrever. Uma página era um universo maior que as linhas tortas da quiromancia e passei a escrever sem o fundo das linhas das mãos que as ciganas sempre se ofereceram pra ler nas calçadas. Ultrapassei a necessidade dos lembretes. Passei a anotar impressões. Idéias. Histórias. Pensamentos. Viciei-me. Lá estou eu sempre a anotar coisas no caderninho a tiracolo.
Agora é a Débora que implica com o moleskine. Quer porque quer lê-lo e ainda se defende dizendo que não é por caprichos de curiosidade. Joga a cartada suja da confiança. Não confia em mim? O que você tanto escreve aí que eu não posso saber?
Segurei a vontade de mandá-la à puta que a pariu, mas dessa vez não largo mão. É pela honra das bitucas de cigarro, das cenouras amassadas e da brancura das minhas palmas. Ela que trate as inseguranças e faça feliz uma terapeuta. Por capricho meu.
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| imagem via: zupi.com.br |

3 comentários:
po dani, vc escreve deveras bem... já pensou em tentar (mesmo que aos poucos) traçar uma peça de teatro?
eu interpretaria com certeza :)
quem sabe depois de eu estudar um pouco de teatro? gostei da idéia sr. ator anônimo!
Nossa, muito bom esse texto! hehe
Sim, repreendo várias das minhas manias... mas já fiz pessoas calarem seus jeitos, quando, ainda por cima, consigo quem advogue junto comigo: aí fica clara a pressão do dois contra um...
Jogos de poder: coisa bem interessante, mesmo quando amparados pela sutileza dos pequenos atos.
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