Sunday, November 28, 2010

Da busca à perfeição

Sempre tentou? Sempre falhou? Não tem problema!
Tente outra vez, falhe outra vez, falhe melhor!
Samuel Beckett


Nos ensinaram sempre a ganhar e a apreciar o gosto da vitória. O esforço empenhado pelo tempo deveria ser esmerado pelo mesmo que aquele período do vinho na adega a refinar o gosto. Somos treinados a sermos sommeliers do sucesso, da vitória, desse gosto do melhor dos vinhos. Uma coisa verdadeira é que não importa de que safra for: o vinho se consumido extrapoladamente levará à ressaca e seus efeitos indesejados. Não nos ensinaram a perder.

Não sou contra a busca da perfeição. Só insisto que nós, humanos cientes da nossa falibilidade, teimamos em ignorar o triste (ou alegre) fato de que - sim, falhamos e falharemos. A busca da perfeição não deve ser pautada em modelos ideais de deuses perfeitos porque não somos deuses. Somos humanos. E humanos tem o imperfeito talhado no DNA. A busca por sermos humanos cada vez mais perfeitos deveria incluir aí a busca em vencer com perfeição, e principalmente com a de
- falhar com perfeição - também.

É isso o que nos falta. Fechamos os olhos pro fato de que falhamos e isso nos é intrínseco. Por que não nos esforçarmos em aprender a falhar cada vez melhor? E falhar cada vez melhor fará de nós humanos melhores. Falhar melhor é não ignorar o erro, não nos cegarmos a ele, não o negarmos. E uma vez identificados por nós, trabalharmos em cima dessa falha - não no sentido de tentar eliminá-las - porque seria uma batalha sem fim na tentativa de sermos deuses - mas a de aprendermos a conviver com a condição de falhantes, refinando o modo como falhamos, pensando também no nosso "eu" errante, falho,
- humano.

Imagem via: Géraldine Georges
O verdadeiro desafio não é atingir a perfeição como significado da ausência do erro, mas a de buscar a perfeição do verdadeiro e profundo auto-conhecimento - de conhecer a si mesmo totalmente - e isso inclui conhecer os nossos anjos e os nossos demônios também. Olhar somente para o lado iluminado da nossa humanidade é sermos relapsos com o total que somos. Devemos olhar também para o nosso lado escuro sem tentar suprimi-lo (que seria também negá-lo), mas aceitá-lo como condição humana de existência e a partir dessa aceitação afirmativa, começarmos a trilhar os duros e recompensadores caminhos rumo à perfeição, sim, mas de uma natureza verdadeiramente humana.

3 comentários:

victor pompêo said...

Outro dia eu estava discutindo com amigos, tentando chegar em alguma conclusão sobre os motivos de a matemática ser um dos maiores terrores de boa parte dos estudantes, quando um deles levantou um ponto interessantíssimo, falando do processo de aprendizado de matemática. Enquanto na física ou na química (pra ficar nos exemplos de exatas, mais próximos) você aprende uma fórmula ou um método de resolução de problemas e o aplica à exaustão em problemas essencialmente parecidos, na matemática a coisa funciona diferentemente: frequentemente poucos exercícios que você demora horas pra resolver são muito mais proveitosos que milhões de exercícios resolvidos de forma simples. Uma vez, numa aula de geometria, um professor me disse que tinha um problema que tentava resolver há anos, sem nenhum sucesso -- um problema que vários de seus colegas já tinham resolvido e cuja resposta outros tantos conheciam. Perguntei por que ele não perguntava a eles a resposta e ele respondeu: "Pra quê? Aprendi mais geometria com esse exercício do que com qualquer livro que já tenha pegado pra estudar."

O aprendizado da matemática, mais do que de outras disciplinas, se pauta no erro: e não porque errando você aprende as "armadilhas" de cada tipo de exercício, mas porque errando, brincando com os exercícios, é que você percebe propriedades e padrões que aumentam o seu conhecimento e o seu entendimento da matemática. Enquanto em física e química a obtenção da resposta é o passo principal da resolução, na matemática a ousadia de tentar abordar o problema de diferentes formas é o cerne do aprendizado -- chegar na resposta só prova que a ideia, plantada várias linhas antes, era correta. Outro grande professor me disse o seguinte: "Nunca abandone um exercício por parecer difícil nem o troque por outro que você seja capaz de resolver mais facilmente: encontrar a resposta de um problema é o passo mais triste da busca -- significa que com aquele você não tem mais nada a aprender."

A conclusão, tardia, foi exatamente a sua: não nos ensinaram a perder. E aí a matemática se transforma num monstro quando, junto com os problemas e os métodos para resolvê-los, não aprendemos que falhar -- e continuar tentando -- é parte inerente da vida.

(ok, isso não foi um comentário, foi uma redação...)

Daniela Yoko Taminato said...

... que me deu muito gosto de ler! - acho que preciso reaprender a gostar de matemática. (e eu acho que esse seu comentário mereceria virar um post no seu blog)

Letícia Campos Padula said...

...que me deu muito gosto de ler também, assim como o seu texto, maravilhosamente bem escrito, como sempre, e digno de um comentário-redação como este!
parabéns pelo seu dom de escrever tão bem, Dani. há dois anos descobri seu blog e não deixo de ler (nem me canso de reler) nenhuma palavra que encontro por aqui. sempre há algo que me prende e me faz pensar. sempre vale a pena dar uma passadinha por aqui... :)

grande beijo e parabéns, mais uma vez!