Friday, January 28, 2011

Sim?


Existe. Existe uma pergunta que sempre esteve por perto. Como um rosto familiar de um desconhecido, de uma sombra sempre em cena que nunca se faz notar o suficiente para ultrapassar o papel de figurante. Ah, essa pergunta! Sempre rondando, perscrutando, me olhando de canto de olho. Às vezes dava uma piscadela, tentava um charme de longe - nada muito agressivo. Táticas de guerrilha não faziam parte de sua estratégia: logo desvanecia com um incidente qualquer e já não se fazia lembrar, retornava-se desconhecidamente familiar.
Topei-a numa ocasião e dessa vez não passei reto. Não aceitei a passagem que ela me ofereceu para continuar meu caminho ilesa. Me detive. Ela sorriu como se achasse piada do enigma, que comédia! De poucas palavras, sonoreou com uma pontinha de sarcasmo:

- prazer, sou a sua pergunta e ouso propor tornar-me possibilidade.


De acordo com o roteiro eu deveria rir e continuar meu caminho, mas me deu um calafrio de bravura e estou ainda encarando com expressão séria a inalar a fumaça do que é metade coragem, metade loucura. O diretor da peça está a gritar impropérios, palavrões e as maiores obscenidades. Escolho manter a tensão do momento alongando-o com a disciplina da power-yoga. E por enquanto esse trecho termina assim

[com o pulmão embalado em magipack e sem alívio ou catarse nenhuma para afrouxar qualquer nó de marinheiro engenhosamente feito no meio da garganta. O barco esperava ancorado.


imagem: escultura "Girl Babtized In Gold" do finlandês Kim Simonsson

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