Já houve tempo em que arrisquei algumas palavras sobre o amor. Mas só porque eram épocas em que eu achava que sabia o que o amor era. Hoje já não ouso: espreito a vida na busca de uma pista. Quando as palavras parecem insuficientes, entendo o que não entendo através de outras artes. Essa em especial, admiro demais. Seria capaz de ficar horas olhando uma performance dessas e desejar que fosse interminável. Sou capaz de respirar a tensão e sentir a vontade inescapável de querer que o tormento acabe de vez ao mesmo tempo em que me percebo viciada na expectativa, nessa tentativa de equilíbrio tão frágil de não morrer e de não matar o outro. A tensão de confiar. Talvez o amor seja isso mesmo: arriscar morrer ou matar.
O casal que mais me fascina é Marina Abramovic e Ulay. Me parece a opção perfeita para marcar o Valentine's Day, que foi ontem, com um casal nem um pouco clichê e por isso mesmo tão fascinantes pra mim. Marina é uma artista que transforma sua biografia em arte, dramatizando suas performances com o uso do seu corpo. Tornou-se conhecida na década de 70. A carreira de Marina Abramovic divide-se em três períodos: antes, durante e depois de Ulay, pseudônimo de Uwe Laysiepen. Ele era filho de um soldado nazista, nascido no dia 30 de novembro - mesmo dia de Marina - de 1943, em um abrigo antiaéreo em Solingen, cidade industrial da Westfália. Aos 15 anos, Ulay ficou órfão e teve que se virar sozinho.
Marina o encontrou no dia 30 de novembro de 1975. Segundo ela, a química entre eles foi imediata. As primeiras impressões dela foram de uma pessoa alta, magra como um astro do rock e excentricamente estranha. 'Ele tem um rosto de coração', ela lembrou, aludindo à dualidade do órgão. 'Metade é de um homem duro, que não se barbeia, com cabelos curtos. A outra metade está maquiada, com longos cabelos e, como eu, prende-os com pauzinhos'.
O que mais me fascina na história dos dois é o fim.
No dia 30 de março de 1988, Marina e Ulay fizeram sua última performance. Ela começou a caminhar pela Muralha da China vinda do leste, nas montanhas, e Ulay saiu do oeste, em um deserto. Após três meses, e 2500 quilômetros, encontraram-se no meio do caminho e se deram adeus. Li que Marina ainda acredita no amor verdadeiro e dispensa a afeição com a mesma intensa determinação que a deseja. 'Todos se esforçam tanto para começar um relacionamento e tão pouco para acabar com ele'.
Com a performance 'The Lovers', Abramovic e Ulay transformaram a experiência pessoal de terem atingido o fim do seu caminho juntos num simples ato realizado num local geográfico concreto. Esta encenação de uma geometria do amor, fez que a dolorosa divisão nas suas biografias individuais parecesse o resultado inevitável de uma lei da vida.
via: Bravo!
1 comentários:
Eu só li a primeira parte, em que a confiança saltou aos olhos. Isso resume muito uma relação saudável, pra mim. Infelizmente.
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