Friday, April 29, 2011

Cinco menos nove

Não que tivesse tudo ou menos. Tinha o que tinha e era o que era de maneira que não poderia ser outra. Aí lembrava que o ser humano só é ser humano porque vive em dois mundos: o daquilo que existe e o daquilo que é em potência - mas não existe de fato. Dois universos paralelos em que o segundo nada mais é do que um mundo de possibilidades. Sabemos de um mundo que não existe pros olhos e que a racionalidade sempre faz duvidar mas vive essencialmente dela.

Suspiro fundo e subo a rampa daquele mesmo prédio e que engraçado deve ser pra Deus ver aquilo de novo. No topo, sento na mesma muretinha e sinto um friozinho de satisfação da invisibilidade que voa por sob as cabeças do tumulto na avenida logo abaixo. Lá eu tinha feito um pedido de estrela cadente mesmo que não tivesse visto nenhuma luz voadora além de um avião. Da primeira vez o pedido tinha dado certo. Fui repetir.

Pode ter sido coisa do acaso, mas quem é gente gosta de acreditar que:
'talvez...'

E de lá imaginava todas as vidas daquela cidade. E o que todas estavam experimentando naquele mesmo momento. Vida. Que é uma palavra tão desprovida de forma. Qualquer conceito é tão desprovido de forma... são os elementos daquele mundo em potência. Vida. Não podemos ver vida. Existe uma vida? Chegamos a um conceito sobre o que é vida além daquilo que nós temos como vida? Tão única e irrepetível, singular, minha, sua. Tão diferentes. E a gente chama do mesmo nome. Lógico: é o conceito para expressar o conjunto de experiências ao longo do tempo enquanto não se está morto. Ah conceitos... também o tempo.

A gente tem tanto o costume de prepotência apesar de sermos tão frágeis. Tão, tão frágeis. E é essa arrogância que me fascina e me fez odiar tanto tanto daquilo que é humano. E eu tenho cheiro profundo de humanidade. É cheiro de imperfeição. E dá tanta pena, porque tudo que se quer é ser ouvido. É tão pouco e tão raro! Tão raro porque não se consegue dividir. No que eu estou pensando?... não, não quero dizer. Porque se digo, deixei de pensar e passei a falar, e agora eu não quero falar. Agora eu quero só pensar. Só eu e eu. No egoísmo.
'o que você disse?'
- nada, não tô pensando em nada. Tô só respirando silêncio.

O mundo é tão rico que apodrece e não pode ser pra sempre. Não pode. Se autodestrói. As frutas caem no chão e apodrecem. As flores não duram além da primavera. As folhas secam um dia. O mundo todo tem cheiro de flores pisadas. É confuso e tudo é de uma massa disforme veloz de pensamentos que de repente começaram a estourar de novo. Tanta coisa que ficou ali repreendida e estourou como a barragem de uma usina jorrando tudo no veloz e no acidental.

Me afogo em um monte de pensamentos e dúvidas e admiração e perplexidade. É tão aterrador que me dispenso o luxo da lógica. Basta o momento e respirar um ar que só respiro quando estou sozinha, nos escondidos entreminutos e me surpreendo como quem olha pros Alpes e não tem com quem dividir a fascinação. Para-se com uma expressão idiota e só se pode olhar, porque não se aprendeu a dividir. Com ninguém.

Só se divide o que é escrita. Foi só assim que mal aprendi. Com a solidão.

A gente pode até tentar ser o que não é. E conseguir. Mas nunca por muito tempo.

2 comentários:

Anonymous said...

Quando eu crescer eu quero ser você.

Alberto K. said...

Sei lá o que nós somos, não é?
Não deixar de ser verdade que há aquilo que podemos ser de modo muito mal-feito, mas não há nada daquilo que podemos ser totalmente compatíveis...
Não há algo que podemos ser realmente. Há coisas que podemos aceitar ser, e axiomatizar a inerência, essência, a perfeita adequação etc.

Às vezes há tanta coisa a ser dita, mas parece que a palavra não existe palavra perfeita para aquilo... é estranho. Não que não tenhamos a palavra na mão, que ela existe e que nós não sabemos, mas parece que ela não existe mesmo, que não tem nenhuma que sirva...

Mesmo depois de muito tempo, "sem inspiração", como vc havia citado em algum lugar, o estilo está muito bom ainda, hein?