Os passos rumaram pra rota já traçada para ser. Engraçado como às vezes a gente instaura regras que seguimos diariamente sem perceber que na verdade são hábitos e manias que surgiram em algum momento e que, para afastar o perigo do nosso próprio pensamento, do nosso questionamento, do nosso olhar crítico, travestimos como obrigaçõezinhas cotidianas que se infiltram e se justificam assim, em rotina. Nesse dia não. As pernas transgrediram compridas o trajeto que era pra ser, só porque tinha se repetido ao longo das últimas três semanas.
Tenho uma mania não justificada de celebridade que não sou, mas que devo ter sido em vidas passadas. Alguém já me disse. Que eu deveria procurar outro alguém que pudesse me contar da minha vida passada, porque aqueles hábitos estranhos não são coisa que se expliquem nessa vida não. Mania de fugir de gente quando a lua virava. Ou era bicho do mato ou gente famosa nas passadas.
Verdade era que precisava semanalmente passar um dia comigo mesma e mais ninguém. Fugir da vida social. Já é rotina antiga marcar encontros comigo mesma. Em segredo. Decido e me convido: essa sexta-feira. E vou esperando ansiosa a semana passar, até chegar o dia marcado e passar minhas horas comigo. Sozinha. A fazer qualquer coisa que queira. O que é absurdo - me disseram. Passear sozinha? Imagine! Isso só para quem não possui alternativas de companhias. Agora, tê-las e preferir passear sozinha? É desdenhar demais!
Parei de comunicar. Se me perguntam onde vou digo que estou saindo com José, Cleide, Lenice... dou-me nomes de alter-ego. Invento vários! Engraçado como querer estar sozinha, mesmo que só por algumas horas, é tabu dos fortes.
Desisti.
Não dos meus encontros comigo, mas de dizer que vou sozinha e que quero ir sozinha. Mais do que ofender, a recusa de companhia soa como loucura. Ninguém quer estar sozinho. Ninguém pode querer estar sozinho. A sociedade incita o grupo, as interações mesmo que vazias. Polêmica é qualquer manifestação de querer a própria companhia. Ocorre que passam-se anos a distrairmo-nos com interações com milhares de pessoas só para cumprir a regra não escrita da sociabilidade como sinônimo de sucesso. Por distração.
Eu prefiro continuar com meu tabu de encontros semanais e ser chamada de louca. É necessidade.
Em uma sociedade em que as coisas não vão bem, quem se sente totalmente confortável nela me inspira uma certa coisa chamada:
- desconfiança
1 comentários:
Mas vc é celebridade, Dani! hahaha
Intensa escritora, do verbo sincero e do adjetivo impiedoso...
Lembro do que me falavam meus professores de psicanálise: se vc realmente quer que essa "maluquice" de querer ter encontros consigo mesmo se fortaleça, vc não deve realmente "dar o braço a torcer" dizendo que sairá com Lenice, José etc... Lute bravamente contra esses padrões tolos! (Ah, esse monte de coisas que os homens inventam... e eles ainda acham que irão muito longe com tudo isso... tsc tsc... esquecem que eles mesmos inventaram...)
Loucura! Sim, devemos ser loucos, por que a normalidade está de pernas pro ar!
O conforto... é basicamente insensibilização da vontade... o problema é quando se faz demais... aí é doença mesmo... num mundo de hoje, só sendo muito insensível para estar confortável.
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