Friday, May 06, 2011

Dedicatória

Me lembro do primeiro livro que ganhei com dedicatória. Foi de meu pai. Que nem gosta tanto de ler visto a pilha dos inúmeros livros que tão logo termino, boto em sua cabeceira de cama com minha recomendação para que leia, que é genial e tal, e ele nem tchum. Mete de volta na estante. Pra não fazer tanta desfeita, lê as cinco primeiras páginas - sim, porque é cavalheiro à sua maneira.

Lembro que essa primeira dedicatória feita para uma criança de seis anos dizia:

para que leia e releia
e encontre sempre palavras novas
a cada leitura.
- Um dia você vai entender melhor

Era alguma coisa assim, nesse gênero. E realmente: minhas pupilas de seis anos leram curiosas sua primeira lombada de livro que continha mais de quinze páginas e não entenderam nada. Só mastigaram as palavras como quem mastiga chiclete sem gosto, frases sem sentido. Odiei.

Dou todo o crédito da minha paixão em leitura a esse fato cheio de frustração e raiva. Não era possível que meu pai tinha mentido na dedicatória. Não se mente em dedicatória de livro! Não se mente em dedicatória de livro - para uma criança! Tinha algo que li e não percebi. Algo que eu não era capaz de entender e o pior: ele tinha me alertado de que não entenderia mesmo. Então li de novo. E de novo. E de novo. E não entendia nada. A advertência antecipada que se tornava real mostrava uma sagacidade que eu não podia ignorar: ele sabia de uma coisa que eu não via.

E li o mesmo livro pelo menos uma vez por ano nos próximos semestres que se escorreram. A cada leitura comecei a encontrar coisas que não tinha entendido em anos anteriores. Minha teimosia no que diz respeito ao que não entendo é quase obsessiva. E o é por causa daquela dedicatória. Meu pai escreveu que eu não entenderia, mas que um dia... ah, um dia!

Talvez se meu pai não tivesse colocado em tinta aquelas palavras, eu simplesmente teria lido, desgostado e encostado o livro num canto qualquer. A dedicatória me pegou pelo mistério. Foi a corda que enroscou no tornozelo.

Lembro dos primeiros contatos com a literatura, com a professora a ler em voz alta para as crianças um trecho chato da obra de algum mortinho da Academia de Letras. Era Machado de Assis com o conto Um Apólogo. História bestinha, pensava. Via a professora declamando em voz alta o conto que não era nada infantil. Seus olhos brilhavam. Ela via genialidade naquele conto de costura, enquanto todas as crianças viam nela a loucura. Eu via no conto uma historiazinha tão besta de agulha e linha que falavam entre si, que o primeiro pensamento era de que minha professora era maluca. E logo em seguida um sentimento de raiva porque ela parecia entender alguma coisa que eu não estava entendendo. Tinha uma empolgação apaixonada naquela interpretação educacional. A professora transformava a sala ordinária em palco e a aula em sarau. Só dela. Nós, crianças estarrecidas, prendíamos a atenção na doidera interpretativa. Nada, nada nas palavras ou em Machado de Assis. A paixão dela roubava a cena e provocava risinhos.

Acredito que o conceito de loucura é estreitamente ligado à do entendimento de certas coisas, mais difíceis de se ver. Quando me lembro dessas cenas recordo o estranhamento imediato que o desconhecido nos causa. Da reação instantânea de repulsa e desgosto daquilo que não entendemos e que outra pessoa parece entender.

Gosto de saber que uma dedicatória despretensiosa no início gerou tanta coisa no desenrolar do tempo. Perdi o tal do primeiro livro dedicado de tanto que o levava a tiracolo, mas nem preciso ler para lembrar do que estava escrito na contracapa em tinta azul. Queria tê-lo como lembrança - sou apegada a essas coisas. Mas de certa forma penso que foi melhor perdê-lo: agora aquela dedicatória do meu pai existe em todos os livros do mundo - sempre leio sabendo que prontamente vou reler quando terminar. É que me foi dito aos seis anos que era preciso encontrar novas palavras a cada leitura. E eu sempre encontro mesmo.

Infalivelmente.

1 comentários:

Tiago said...

muito bom!!!