O colar de pérolas que estourei e o scarpin marrom com um detalhe bonito. O salto alto, elegante. Eu sempre brinquei de ser minha mãe quando eu era pequena, mesmo sendo tão diferente nas maneiras. Quieta, tímida, inventiva no segredo. Nunca alardeei as histórias mil que criava na cabeça. Minha mãe era sociável, amizades aos montes nas reuniões de tuppaware antigas, de conversa boa e gostosa. Era ela quem fazia as amizades que eu não conseguia fazer na hora da saída da escola quando ia a me buscar. Conquistava as outras crianças com a sua simpatia. Elas viravam amigas da minha mãe e por consequência, acabavam virando as minhas também.
- Como que tá a sua mãe? Ela vem te buscar hoje?
Todas as duras broncas vieram dela. Nunca houve piedade quando o assunto era me tornar melhor. Não era eu sua inimiga, mas o futuro.
- minha filha, você precisa melhorar nisso ó. Depois vai que te acontece por exemplo essa situação... e aí? como faz?
Minha mãe na verdade é alquimista. Não duvido que transforme chumbo em ouro. Eu tinha meu destino traçado na opinião de todos os tios palpitadores de quietude eterna, vergonha e rubor nas bochechas por todo o sempre, além do silêncio. 'Ela é assim mesmo. Não vai mudar não'. Minha mãe teimava. Por mim e pela minha irmã ela sempre teimou. Tudo tinha jeito sim de dar certo e ser melhor! Ela conversava comigo e o tique de timidez baixava sempre meus olhos. Ela já brigava desde cedo com as minhas pestanas infantis.
- quando eu tô falando com você, olha no meu olho viu? Vai, repete que eu não entendi nada!
Dança, teatro, falar em público, desfilezinhos de criança. Tudo engenhosidade dela. Qualquer oportunidade ela me botava num palquinho encarando pessoas. Tinha fé que minha quietude daria trégua um dia. Hoje, colhe resultados exorbitantes de conversas que nunca terminam na boca da filha matraca.
Ela me ensinou a ter coragem. Me ensinou desde cedo a sede da independência. Ela mesmo hoje em dia vê o feitiço virar contra a feiticeira quando comento planos próximos de sair de casa, de que estou juntando economias e - quem sabe já comece vida de gente grande mesmo! Ela treme e briga comigo.
- isso é coisa pra se dizer justo hoje é?
Ela aposta sempre na minha capacidade, mas se trai nos cuidados: - lógico que você conseguirá se virar sozinha na terra dos búlgaros minha filha! Mas olha... toma cuidado com isso tá? Às vezes você pode se desesperar e aí... você sabe como você fica né? Me liga tá? Todo dia. Três vezes. Só pra eu saber se tá tudo bem...
Se meu pai foi o responsável pelo meu gosto com a leitura e pela curiosidade teimosa, minha mãe foi a responsável pelo gosto da independência e pela escrita. Tímida que só, às vezes ela ficava preocupada com os meus silêncios e então, um dia dos meus sete anos chegou com um caderninho rosa cheio de caprichos e com cadeado. - pra você escrever sobre qualquer coisa, se você não quiser me contar tudo, tudo. Escreve o que você quiser todo dia tá? Vai ser bem legal.
Fato é que toda mãe tem a curiosidade potencializada e que mais pra frente houveram diversos problemas de arrombamento nos meus diários. A despeito desses acidentezinhos de percurso, foi a partir dali - de uma escrita ingênua que cultivei o hábito de escrever, de pensar e reinventar.
No primeiro de maio, na classe do jardim de infância, a professora brincou de adivinhar as profissões futuras. Ela me disse: escritora. Minha mãe então guardou meu primeiro 'livrinho' desenhado aos quatro anos até hoje. Manchado a passado amarelo, ela tem tudo numa pasta velha. - pra quando você ficar famosa minha filha, pra eu mostrar na TV.
Você podia era ter guardado meus boletins da escola pra quando me entrevistarem como executiva você provar meu histórico escolar de sucesso! Fazer uma lista com os contatos das professoras para entrevistarem e tal - entro na brincadeira tirando sarro dessa coisa de famosidade que toda mãe tem das suas crias.
Ela continua falando sério. Não dá bola. Teima no tal livrinho ininteligível que as minhas sinapses de infãncia longínqua geraram. - tem poesia nessa história sem pé nem cabeça minha filha. Tem poesia. Um dia você verá!
Pena que julgamento de mãe não vale. Mas orgulha.
Obrigada mãe.

2 comentários:
Mas ela tá certa!
post fantástico, muito bom!
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