Tuesday, June 14, 2011

Do que se ouve com olhos

Numa tarde atarefada, deu a suspirar, a Luzia. Não era um suspiro que remete às paixões ou obras de cupido, tampouco chegava a ser o bufar da raiva escapulindo pelas vias aéreas: o suspiro de Luzia era diferente, abstrato como enigmas que recorriam a cada trinta minutos entre um gole de café ou outro, entre o rumor de uma hora ou outra.

Constantes também se tornaram os olhares ao redor reparando, censurando, ouvindo estupefatos os alvéolos de Luzia na manifestação incoerente. Porque as pessoas... sabem como são: ouvem os suspiros com os olhos. Já aguardam de regra uma cara besta de quem mandou a alma pra marte e deixou o corpo pra honrar o armageddon de dois mil e doze neste planetinha. Mas Luzia não! Tinha o corpo e a alma por aqui mesmo, bem por aqui, se sabia. Nada escapava de sua atenção entre um suspiro e outro contrariando toda a regra primordial que aprendemos desde remotos tempos - de que os suspiros indicavam avoamento da cabeça por outros mundos.

E se passaram dois dias, três semanas, um mês e quinze horas. Luzia - a suspirar atenta, atenta - a moça do rosto estampado de sardas. E todos já não mais podiam com aquilo. Que gritasse, que chorasse, que desabafasse uma paixão impossível com o colega do lado. Aquilo já estava que não se bastava. Até a renomada especialista comportamental do escritório já bolava a proposta para iniciar um estudo de caso de nossa Luzia. "O absurdo da linguagem corporal". Não demorou muito para acontecer um bolão para quem adivinhasse o motivo dos suspiros. Rifas foram feitas para adivinhar quantos suspiros seriam dados naquele dia de trabalho. Todo um comércio ilegal foi criado em cima do caso curioso. Do mistério de tanto suspirar.

Cá entre nós, não é à toa que o respirar é inconsciente. Viver não foi escolha, o diafragma também não o é. Já o suspiro, com seus mistérios, é uma racionalidade do respirar. Fato é que suspira-se quando está com algo a passar pela mente, sejam preocupações maciças e sóbrias ou mesmo devaneios idiotas - sempre está a passar qualquer coisa pelo pensamentozinho quando o sopro despressuriza o de dentro de nossos pulmões carregados. E é aí que qualquer coisa se rebela e determina o ritmo um pouco mais longo do respirar, que já é suspiro. Ultrapassa o movimento involuntário da sobrevivência, grito rebelde contra a marcha inevitável da bipolaridade da troca - gás carbônico, oxigênio.

Mas não se saberia nunca porque Luzia suspirava. Não se poderia saber. Os bolões não tiveram seus vencedores, os suspiros constantes continuaram, o enigma manteve-se irritantemente. Ela perdeu amigos, colegas, as pessoas a evitavam no desconforto cutucante do mistério insolúvel, despidas da coragem da interrogação direta. Luzia, que nada sabia do motivo do afastamento geral, não ficou triste não. Nem mesmo ficará ressentida com a porcaria de final que escrevi pra sua história. Luzia nunca ficava ressentida com nada. E esse era outro de seus muitos mistérios.

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