Wednesday, June 01, 2011

Palavra do dia

Acordei no frio preguiçoso da manhã que quer estender a madrugada no travesseiro. Raramente me lembro do que sonhei. Tenho esperanças de que talvez um dia venha a me divertir com todos esses sonhos extraviados e imagino que nas horas finais, ao invés de ver o filminho da minha vida repassando todos os momentos na agonia do fim, eu vá ver tudo aquilo que esqueci ao acordar pelas manhãs. Essa amnésia despertante deve ser porque eu viva muito e sempre de sonhos nas horas impróprias e não sobre muita coisa pro descanso no dormir. Deve de existir uma cota de sonhos para cada vida. E a minha, esgoto-a de olhos abertos.

Hoje de manhã acordei me esquecendo de tudo que vivi nas últimas seis horas de escuridão e curiosamente me veio logo uma palavra na cabeça. Liberdade. Não sei se a você acontece muito isso, mas comigo é até recorrente. Acordar e ter uma palavra na cabeça. Qualquer uma... objeto, verbo, conjunção, adjetivo... Um dia acordei com a palavra 'vidro' na cabeça. Ficava saboreando o fonema engraçado da consoante dupla: vidrrrrro. Parecia que degustava mais a palavra do que o café da manhã. Outro dia acordei com a palavra 'jagunço' e fiquei pensando em como é engraçada. Às vezes acordo com o verso de um poema na cabeça: 'diga trinta e três'. Loucurinhas inexplicáveis que me valem o dia.

Hoje porém a palavra foi meio clichê. Gosto quando acordo com uma palavra exótica tipo 'bromélia', mas o que tinha pra hoje era 'liberdade' mesmo. Chato. Desejo do mercado de luxo das almas do mundo. Ao pronunciar as sílabas sinto só um frescor de hortelã de bala imaginária na língua. LIBERDADE.

Tentei enxotar a palavra como quem espanta um mosquito que insiste em perturbar. Sacudi a cabeça, tentei queimá-la com o secador de cabelos. Palavra inconveniente. Liberdade...

Liberdade do quê?

Eis que comecei meu monólogo maiêutico logo pela manhã antes de tomar minha dose de coragem diária para enfrentar pela milésima vez o caos do metrô de são paulo.

imagem via pekka
Liberdade... Liberdade é escolher aquilo à que vamos nos prender. Porque nenhum homem é livre. Todos somos presos às nossas escolhas. Liberdade é então o luxo de poder decidir ao que estaremos presos. Embora a gente não note, temos todos essa liberdade: o momento em que a vida nos coloca algumas questões para decidirmos ao que nos prender. Percebi muito que essa escolha deve ser feita pelo coração, e como isso é clichê... Existe uma revolta constante contra o clichê como se ele fosse pecado. Fiquei pensando em como a vida nos exige pouco que insistimos em complicar no muito. Parei com o coração na boca enquanto sapateava correndo pra mais um dia igual a todos os outros:

- se for para ser presa, quero o aperto de um nó no punho com um laço eterno que dure uma vida toda.

Suspeitei desde o muito antes: a única coisa que me parece durável por toda uma vida e que parece realmente valer a pena no final das contas são as idéias.

Definitivamente sou o clichê de uma romântica idealista. Eis a minha surpresa. Eis a minha descoberta. E a minha reinvenção.

Pelo menos a de hoje.


2 comentários:

victor pompêo said...

Tem mais coisa que vale a pena. Tipo os seus textos.

Marcela Brunelli said...

É estranho quando a gente se depare com o nosso próprio clichê, né? Somos românticas idealistas, apesar de toda a modernidade incutida na nossa vida. Apesar dos pesares, certos valores e vontades ficam.

Ótimo texto, amiga. Saudade daqui.
Bjinhos