Quando as nuvens secaram no céu
úmido de estrelas e Marte de repente foi derrotado na sétima casa, pudemos
enfim sentar e conversar. Na sétima casa contabilizaram-se também os sete anos
nas sete vidas que seguimos ocultos. Por superstição. Quando por fim nos
reconhecemos e diagramamos todas as alterações fisionômicas, pudemos falar da
tragédia, rir no interplanetário do destino forjado por algum misticismo
caprichoso, abrir as pupilas pras sobrancelhas alheias. Sempre foi por lá que a
comunicação fluiu, mais do que por palavras.
Eu nunca fui muito bom com as
palavras, embora você sempre dissesse que eu tinha vocação pra poeta. Era
distração. Quem lida bem com palavras não é porque sabe de qualquer coisa na
vida: é porque tenta a todo instante explicar o inominável brincando com metáforas
sem sentido pra ver se consegue tocar aquilo de bruto em si próprio. É, de
bruto. O que é civilizado já foi nomeado. Eu me perco é nos interstícios do
selvagem, do rebelde e do desconhecido. Da selva abandonada dentro de nós. Tento
te explicar o que é que me vem quando fico analisando a dança das suas
sobrancelhas que me contam histórias que nem você mesma imagina e então eu não
consigo. Quando se enraivecem comigo, ou quando me interrogam em um desenho que
seria a expressão orgânica de um ponto de interrogação. O ponto de interrogação
pra mim é o desenho das suas sobrancelhas quando se perdem em hipóteses sem
sentido, quando me pedem conselhos inseguros de qual decisão tomar, ou quando
querem saber o que se passa no meio das minhas próprias sobrancelhas.
Eu me perco em muita coisa aqui
de dentro. Tenho que ruminar um pouco minhas próprias entranhas sozinho. E você
divide tudo, tanto e sempre. Eu, que não consigo lidar direito nem com o
orçamento despendido aos cigarros do mês, fico meio perdido na enxurrada das
coisas que você quer compartilhar. Eu acho que você acredita que eu vá
organizar tudo isso. Acha isso só porque não vê a merda da bagunça toda que tem
por aqui, na minha cabeça.
Às vezes desconfio que você sabe
sim. Sabe, mas quer que eu me sinta responsável por você. Sei que sabe se
cuidar. Poderia viver um zilhão de anos sem mim. Poderia viver quantas
reencarnações te forem concedidas sem precisar da minha ajuda. Mas você diz que
quer, que precisa. Vivemos para irritar um ao outro. E de novo. De novo você
aqui. Fingindo que precisa de mim. Pra me irritar. E como funciona essa mecânica
demoníaca!
Esse papo astrológico, por
exemplo. Não sei de que universo arranquei essas merdas, mas ficou poético.
Entende? Não faz sentido nenhum e você diz que isso é lidar bem com as
palavras. Às vezes eu acho que posso ficar cinco horas falando coisas sem
sentido de forma estruturalmente lógica e alguém conseguir achar uma razão,
achar que sabe de que caralhos estou falando.
Eu não te amo. Eu amo o que não é
você, porque o você é tão nominável. Eu amo aquela parte sombria e esquecida
que carrega você por aí. Aquilo que te aparece às vezes em horas de sonho ou de
fúria e te espanta, te faz recusar. Aquilo que me olha e me entende tanto que
eu sou capaz de inventar uma linguagem totalmente nova só pra tentar conversar
com o isso que eu enxergo em você.
A gente briga. Isso é ruim. E é
bom. De tanto reclamar das nossas brigas, me envolvi com uma pessoa que não
sabe brigar. Isso sim é maquiavélico. Fica um troço não-dito, conversas não
conversadas, é uma relação-fantasma do caralho. Um mundo dentro de outro mundo.
Não tenho paciência. Prefiro brigar com você. Prefiro o grito. Prefiro as
portas batendo, seus tapas ridículos que você finge querer doer, mas que são
artifícios teatrais pra esconder que você está magoada, que está puta da vida
comigo. Você me arranha e jura que me odeia. É quando você me ama. Porque
poderia sorrir e dizer até logo com uma raiva disfarçada de sorrisos e nunca
mais aparecer na minha vida. Porque você poderia viver um zilhão de anos sem
mim. Mas você não quer. Fica fingindo que precisa de mim. Pra me irritar.
Você poderia ter agüentado dois
encontros mal-sucedidos comigo. O segundo só pra confirmar o erro do primeiro e
não sobrar dúvidas. E então se mandar. Dar um tchauzinho de miss e sumir da
galáxia. Mas você prefere ficar. Eu prefiro você. A gente se odiou, mas Marte de
repente foi derrotado na sétima casa e pudemos enfim sentar e conversar. Eu era
capaz de inventar uma linguagem totalmente nova só pra tentar conversar com o aquilo
que eu enxergo em você, mas hoje não deu. Hoje eu escrevi isso pra você. E
mesmo que você não entenda, guarde. Enfie numa gaveta esquecida. Um dia eu
invento um jeito de te dizer isso mais fácil. De dizer que tem a ver com medo,
com um puta medo. Mas que tem muito, tudo de destino. Ou qualquer coisa que
envolva fatalidade. Não é escolha. Sou eu. E por isso, sou também você. Um dia
eu invento uma linguagem totalmente nova pra te dizer isso mais fácil. Enquanto isso, te amo.
1 comentários:
Eu fiquei enrolando algumas semanas pra ler isso. Devia ter lido antes.
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