Tuesday, September 13, 2011

O Inventor


Quando as nuvens secaram no céu úmido de estrelas e Marte de repente foi derrotado na sétima casa, pudemos enfim sentar e conversar. Na sétima casa contabilizaram-se também os sete anos nas sete vidas que seguimos ocultos. Por superstição. Quando por fim nos reconhecemos e diagramamos todas as alterações fisionômicas, pudemos falar da tragédia, rir no interplanetário do destino forjado por algum misticismo caprichoso, abrir as pupilas pras sobrancelhas alheias. Sempre foi por lá que a comunicação fluiu, mais do que por palavras.

Eu nunca fui muito bom com as palavras, embora você sempre dissesse que eu tinha vocação pra poeta. Era distração. Quem lida bem com palavras não é porque sabe de qualquer coisa na vida: é porque tenta a todo instante explicar o inominável brincando com metáforas sem sentido pra ver se consegue tocar aquilo de bruto em si próprio. É, de bruto. O que é civilizado já foi nomeado. Eu me perco é nos interstícios do selvagem, do rebelde e do desconhecido. Da selva abandonada dentro de nós. Tento te explicar o que é que me vem quando fico analisando a dança das suas sobrancelhas que me contam histórias que nem você mesma imagina e então eu não consigo. Quando se enraivecem comigo, ou quando me interrogam em um desenho que seria a expressão orgânica de um ponto de interrogação. O ponto de interrogação pra mim é o desenho das suas sobrancelhas quando se perdem em hipóteses sem sentido, quando me pedem conselhos inseguros de qual decisão tomar, ou quando querem saber o que se passa no meio das minhas próprias sobrancelhas.

Eu me perco em muita coisa aqui de dentro. Tenho que ruminar um pouco minhas próprias entranhas sozinho. E você divide tudo, tanto e sempre. Eu, que não consigo lidar direito nem com o orçamento despendido aos cigarros do mês, fico meio perdido na enxurrada das coisas que você quer compartilhar. Eu acho que você acredita que eu vá organizar tudo isso. Acha isso só porque não vê a merda da bagunça toda que tem por aqui, na minha cabeça.

Às vezes desconfio que você sabe sim. Sabe, mas quer que eu me sinta responsável por você. Sei que sabe se cuidar. Poderia viver um zilhão de anos sem mim. Poderia viver quantas reencarnações te forem concedidas sem precisar da minha ajuda. Mas você diz que quer, que precisa. Vivemos para irritar um ao outro. E de novo. De novo você aqui. Fingindo que precisa de mim. Pra me irritar. E como funciona essa mecânica demoníaca!

Esse papo astrológico, por exemplo. Não sei de que universo arranquei essas merdas, mas ficou poético. Entende? Não faz sentido nenhum e você diz que isso é lidar bem com as palavras. Às vezes eu acho que posso ficar cinco horas falando coisas sem sentido de forma estruturalmente lógica e alguém conseguir achar uma razão, achar que sabe de que caralhos estou falando.

Eu não te amo. Eu amo o que não é você, porque o você é tão nominável. Eu amo aquela parte sombria e esquecida que carrega você por aí. Aquilo que te aparece às vezes em horas de sonho ou de fúria e te espanta, te faz recusar. Aquilo que me olha e me entende tanto que eu sou capaz de inventar uma linguagem totalmente nova só pra tentar conversar com o isso que eu enxergo em você.

A gente briga. Isso é ruim. E é bom. De tanto reclamar das nossas brigas, me envolvi com uma pessoa que não sabe brigar. Isso sim é maquiavélico. Fica um troço não-dito, conversas não conversadas, é uma relação-fantasma do caralho. Um mundo dentro de outro mundo. Não tenho paciência. Prefiro brigar com você. Prefiro o grito. Prefiro as portas batendo, seus tapas ridículos que você finge querer doer, mas que são artifícios teatrais pra esconder que você está magoada, que está puta da vida comigo. Você me arranha e jura que me odeia. É quando você me ama. Porque poderia sorrir e dizer até logo com uma raiva disfarçada de sorrisos e nunca mais aparecer na minha vida. Porque você poderia viver um zilhão de anos sem mim. Mas você não quer. Fica fingindo que precisa de mim. Pra me irritar.

Você poderia ter agüentado dois encontros mal-sucedidos comigo. O segundo só pra confirmar o erro do primeiro e não sobrar dúvidas. E então se mandar. Dar um tchauzinho de miss e sumir da galáxia. Mas você prefere ficar. Eu prefiro você. A gente se odiou, mas Marte de repente foi derrotado na sétima casa e pudemos enfim sentar e conversar. Eu era capaz de inventar uma linguagem totalmente nova só pra tentar conversar com o aquilo que eu enxergo em você, mas hoje não deu. Hoje eu escrevi isso pra você. E mesmo que você não entenda, guarde. Enfie numa gaveta esquecida. Um dia eu invento um jeito de te dizer isso mais fácil. De dizer que tem a ver com medo, com um puta medo. Mas que tem muito, tudo de destino. Ou qualquer coisa que envolva fatalidade. Não é escolha. Sou eu. E por isso, sou também você. Um dia eu invento uma linguagem totalmente nova pra te dizer isso mais fácil. Enquanto isso, te amo.

1 comentários:

victor pompêo said...

Eu fiquei enrolando algumas semanas pra ler isso. Devia ter lido antes.