Se pudesse, teria um coração
conceitual e puro, inchado de bondade. No entanto tinha um coração que não se
parecia com os corações de pelúcia que se vendem no Dia dos Namorados nas
floriculturas. Tinha era um dínamo cheio de tubos, sangrentos e feios, nojentos
como os corações de galinha que se comiam em churrascos.
Era um coração feio que bombeava
sangue. Era um trabalhador braçal. Operacional. Com ventrículos, sístoles e
diástoles. As tarefas mais elitizadas ficavam mesmo era com a tal de “alma”.
Refinada, tão refinada que era invisível. Seu coração nunca tinha visto essa
tal de “alma” que, diziam - era quem mandava em tudo, tudo. Ele só continuava
na exaustiva tarefa de impulsionar sangue que deveria passar pelas vias maiores
até os capilarezinhos. Exigia uma bruta força. Era um trabalho exaustivo. E ele
era um trabalhador operacional.
Não lhe incomodava sua fama de
ser ligado às mais puras intenções humanas, mas nada disso ele entendia. Esse
coração não entendia como pesava em suas costas a responsabilidade toda de carregar
os sentimentos em si. Não sabia dessa história e tampouco pensava nisso. Só
curtia os momentos inexplicáveis em que acelerava sua árdua tarefa de bombear e,
no extremo desse trabalho, sentia um pouco do que era felicidade – se não se
tratasse de um infarto. Era uma eterna criança, esse coração. Desde sempre tão
exigido, tão cobrado.
Se pudesse, teria um coração
conceitual e puro, inchado de bondade e perfeição. Mas ele tinha era um coração
de verdade: sangue e músculo – força bruta que teimava em querer acertar.
Embora vivesse errando nos entrecompassos. Mas era um coração bom. E assim como
errava, acertava também no incrível mistério que é ser mortal, imperfeito e
humano;
[demasiado humano.

1 comentários:
Que texto bom! Muito bom!
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