Thursday, December 29, 2011

Cuore


Se pudesse, teria um coração conceitual e puro, inchado de bondade. No entanto tinha um coração que não se parecia com os corações de pelúcia que se vendem no Dia dos Namorados nas floriculturas. Tinha era um dínamo cheio de tubos, sangrentos e feios, nojentos como os corações de galinha que se comiam em churrascos.

Era um coração feio que bombeava sangue. Era um trabalhador braçal. Operacional. Com ventrículos, sístoles e diástoles. As tarefas mais elitizadas ficavam mesmo era com a tal de “alma”. Refinada, tão refinada que era invisível. Seu coração nunca tinha visto essa tal de “alma” que, diziam - era quem mandava em tudo, tudo. Ele só continuava na exaustiva tarefa de impulsionar sangue que deveria passar pelas vias maiores até os capilarezinhos. Exigia uma bruta força. Era um trabalho exaustivo. E ele era um trabalhador operacional.

Não lhe incomodava sua fama de ser ligado às mais puras intenções humanas, mas nada disso ele entendia. Esse coração não entendia como pesava em suas costas a responsabilidade toda de carregar os sentimentos em si. Não sabia dessa história e tampouco pensava nisso. Só curtia os momentos inexplicáveis em que acelerava sua árdua tarefa de bombear e, no extremo desse trabalho, sentia um pouco do que era felicidade – se não se tratasse de um infarto. Era uma eterna criança, esse coração. Desde sempre tão exigido, tão cobrado.

Se pudesse, teria um coração conceitual e puro, inchado de bondade e perfeição. Mas ele tinha era um coração de verdade: sangue e músculo – força bruta que teimava em querer acertar. Embora vivesse errando nos entrecompassos. Mas era um coração bom. E assim como errava, acertava também no incrível mistério que é ser mortal, imperfeito e humano;
[demasiado humano.

1 comentários:

Anonymous said...

Que texto bom! Muito bom!