Sunday, October 21, 2012

O livro que não se deixava escrever

Carne Griffiths - artist work in ink tea and alcohol
Deitou-se na banheira e deixou-se afundar no líquido com a temperatura ideal. Quente, suave, aquela sensação de não saber mais o que era interno ou externo. A equivalência da temperatura dissolvia o corpo com os sais de banho. O mundo era vaporoso e abafado como um útero.

Se de repente morresse, queria morrer enrugada naquela banheira como um feijão, que num potinho com algodão, foi regado demais e apodreceu. Ela morreria agora. Não de tristeza, mas de puro contentamento e plenitude de quem está na Terra sem missão nenhuma.

Abriu os olhos e já era uma outra era. Conferiu as pontas dos dedos: enrugadas. Fosse um desmaio e acordava já renovada como se tivesse morrido e renascido.

Levantou-se e sentiu o mundo mais pesado. Fora dali, os azulejos pesavam, o vapor do banheiro pesava, o ar pesava, a toalha pesava. Quando se enxugou ela tinha 130 quilos.

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