“Nos solitários cânions da cidade moderna, não existe emoção mais estimada que o amor.
Entretanto não se trata do amor que a religião fala, é uma variedade mais ciumenta, restrita e no fim mais mesquinha. É um amor romântico que nos põe em uma busca maníaca de uma única pessoa em particular que nos dispensará de qualquer necessidade por gente em geral.”
Alain de Botton
Alain de Botton
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O envolvimento usual entre duas pessoas parece causar uma crescente solidificação de identidades. Quanto mais eles se conhecem, mais excluem outras possibilidades. Fecham espaço para surpresas e ainda tem a coragem de reclamar disso ao fim: “Não dava mais, acabei. Era tudo muito previsível, parou de me surpreender…”.
Desenvolvemos um padrão de relacionamento com o outro, começamos a surgir de um único jeito, começamos a vê-la de um único jeito e, quando menos percebemos, nunca mais desconfiamos de que talvez o outro seja muito mais do que aparece para nós, de que outros a ativem de outro modo, de que ela encarne outros personagens com outras risadas, outras piadas, outros olhares, outros gestos.
Gustavo Gitti
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Existe uma multiplicidade que não se deixa ver ou não se deixa conhecer sem o esforço dedicado de uma percepção atenta do outro.
Alguns percebem apenas um lado e querem matar todas as outras identidades, acabando com uma pessoa mutilada do lado. Quem quer uma personalidade inteira, tem que lidar com um exército diferente de identidades diversas de um mesmo indivíduo. Ou senão amarga do próprio veneno: acaba azedando, se entediando e perdendo a oportunidade de conhecer verdadeiramente um universo interessantíssimo - que permanecerá sem ser desvendado para todo o sempre.
Fatalidades acontecem. Aprendamos com elas.
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