Monday, September 23, 2013

Complô

Antônio tinha medo. Não suportava a escuridão. Nela perdia a batalha contra sua própria imaginação que tratava de criar sempre os piores presságios. Evitava todas ocasiões em que estivesse em lugares altos, olhando para baixo – logo imaginava-se caindo; nunca voando. Não gostava do barulho de bule com água fervendo. Não gostava dos gatos que miavam de noite pela sua rua. Não gostava de riscar livros. Não gostava de comprar livros. Não gostava das livrarias nem das bibliotecas. Imaginava sempre a impossibilidade de se ler tudo aquilo e sentia um terrível mal-estar. Como se fosse uma grande sacanagem expor em estantes tudo aquilo que ele nunca viria a conhecer na totalidade. Não gostava de conversar. Principalmente sobre coisas pessoais. Imaginava sempre o que a outra pessoa estaria pensando durante a conversa e ficava irritado com a possibilidade de que fosse algo desagradável – que ele nunca saberia por completo. Tudo no mundo parecia um imenso complô de coisas que ele nunca teria pleno acesso. Como se a vida fosse um conjunto de segredos insondáveis. Como se ele não tivesse nenhum tão importante para guardar para si e resguardar do resto do mundo. E ele sentia que o mundo todo tinha um segredo importante que ele não poderia jamais saber. E tinha raiva quando pensava que nunca descobriria.


Ele sabia que precisava de um grande segredo.

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