Antônio tinha medo. Não suportava a escuridão. Nela
perdia a batalha contra sua própria imaginação que tratava de criar sempre os
piores presságios. Evitava todas ocasiões em que estivesse em lugares altos,
olhando para baixo – logo imaginava-se caindo; nunca voando. Não gostava do
barulho de bule com água fervendo. Não gostava dos gatos que miavam de noite pela
sua rua. Não gostava de riscar livros. Não gostava de comprar livros. Não
gostava das livrarias nem das bibliotecas. Imaginava sempre a impossibilidade
de se ler tudo aquilo e sentia um terrível mal-estar. Como se fosse uma grande sacanagem expor em estantes tudo aquilo que ele nunca viria a conhecer na totalidade. Não gostava de conversar. Principalmente sobre coisas
pessoais. Imaginava sempre o que a outra pessoa estaria pensando durante a
conversa e ficava irritado com a possibilidade de que fosse algo desagradável –
que ele nunca saberia por completo. Tudo no mundo parecia um imenso complô de
coisas que ele nunca teria pleno acesso. Como se a vida fosse um conjunto de
segredos insondáveis. Como se ele não tivesse nenhum tão importante para
guardar para si e resguardar do resto do mundo. E ele sentia que o mundo todo
tinha um segredo importante que ele não poderia jamais saber. E tinha raiva
quando pensava que nunca descobriria.
Ele sabia que precisava de um grande segredo.
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