Saturday, October 05, 2013

Napoleão

Quando ele acordou, o relógio marcava dez horas e dezessete minutos da manhã do sábado. Respirou fundo e saltou da cama com o ímpeto de qualquer atleta ao performar um salto importante - o choque pra ele sempre foi mais eficaz do que o lento espreguiçar da indecisão. Saiu do apartamento vazio de mobília e pensou na possibilidade de não preencher aquele espaço amplo pra que a sensação de recém-chegada ou partida próxima permanecesse. Era o que ela faria enquanto penduraria os quadros pequenos na parede, na contradição eterna que era sua essência - mesmo nas partidas desapegadas há de se haver quadros nas paredes. Ele desistira de entender, embora sempre achasse que o maior charme dela residia naquelas maluquices todas.

Da partida para Amsterdam só ficou o gato Napoleão. Ele logo a caçaria pelo mundo atrás dos planos mirabolantes de grandeza que ela enfiava na cabeça e que - puta que pariu - conseguia, cedo ou tarde, que dessem certo de algum jeito; embora ele desconfiasse que ela na verdade não planejava nada: aceitava desafios.

Levaria Napoleão. Tinha certeza que ela sentia falta dos miados objetivos e resolutos que ele soltava pelo silêncio da casa. Ela interpretava os miados de Napoleão como se fossem sempre de uma entonação de parecer decisório - na língua dos felinos. Só poderia ter nome de imperador.

Ele já tinha comprado o vôo e aceitado plenamente o pensamento da manhã de deixar para lá o trabalho de mobiliar o apartamento que, já sabia, ficaria vazio até que ele voltasse emputecido com as malas, ou com ela - emputecida. Tinha comprado as passagens em um impulso da mesma qualidade de seus saltos ao acordar: firme e resoluto. Agora não sabia o que fazer com o imóvel na ruazinha tranquila do bairro das Laranjeiras. Não daria tempo pra resolver nada. Pensou em Antônio. Seu Antônio comentou que precisava mudar de ares. Ele poderia ficar com o imóvel até lá. Não tenho prazo para voltar seu Antônio: pode ser logo, pode demorar... para o negócio de que vou tratar, tudo é possível. Você já conhece a peça mais do que eu. Ele entenderia. Era um homem desagradável, mas razoável, apesar de feder a cachimbo e suor. Menos mal, pensou, que aquilo ali não esteja mobiliado para absorver o cheiro de tabaco e o azedume biológico do seu Antônio.

Colocou o capacete, as luvas, acelerou a moto em direção à estrada. O acidente. Napoleão ficou sozinho em casa e passou fome na noite daquele dia, porque seu Antônio ainda não tinha sido avisado que a fatalidade tinha saltado - firme, resoluta - na colisão daquele final de tarde.

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