Monday, August 10, 2015

Script

Tenho impressão de que quase tudo mudou
(na verdade, acho que tudo)
Olho ao meu redor como se nada estivesse fora do lugar
Embora reconheça pouca coisa de tudo isso

Eu tento rastrear o passado
Mas o passado apagou as pegadas antigas
Então eu brinco de inventar histórias
Pra preencher as lacunas
Daquilo que eu não deveria estar adivinhando

Eu me distraí
Parei meus olhos em alguma parte do caminho
lá atrás
Perdi meu coração em algum ponto anterior que não sei dizer se foi
aqui ou
acolá.

Eu não tenho tristezas
Só guardo as solidões
Como se fossem feias demais para correrem soltas por aí
resolvo prendê-las aqui
Comigo
E as vivo todas ao mesmo tempo
Pra não esquecer como cada uma tem um jeito particular de doer
E eu gosto que doam.

Eu não tenho tristezas
Essas eu deixo ir embora
Porque se eu não as deixo
Elas ficam
E fazem amizade com as solidões de todos os tipos
E fofocam
Organizam eventos
E até constituem família.

As tristezas eu deixo que corram pra longe
Que se percam
Gosto de exercitar a falta de memória com elas:

(nesse dia fiquei muito triste
mas não me lembro por quê.)

Exercitar o esquecimento é fundamental.
Pra sobreviver
Pra não endurecer demais
(só um pouquinho)

Pra sobreviver a gente tem que esquecer muita coisa
Pra não enlouquecer
a gente tem que abrir um pouco mão de ser são.

Tudo isso eu sei
eu sei.

Mas ainda tenho que aprender a deixar
de tentar adivinhar o script.

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