Eu não quero contar dos gritos que se perdem no eco da solidão imensa. Nem quero perturbar teu tempo livre falando das dores que fingem não existir.
Porque seria inútil.
Eu não quero contar que eu nunca nunca nunca achei o meu lugar. Que eu só habitei por uns tempos em peitos de conhecidos. Mas que ali a morada era temporária. Porque cedo ou tarde se revelaria que não era ali: não era ali o meu lugar.
E tudo parece tão fútil.
Eu não quero mais ter de engolir o nó da garganta e querer ancorar ali todo o meu desespero pra que lá ele fique: firme e impassível. Sem fazer alarde. Preso. Como se não se mover também o fizesse não existir. Amarrado. Entre a traqueia e os pulmões. Bem longe do coração.
Dizem na meditação que os pulmões são o controle remoto do coração. Respirando fundo somos capazes de nos tranquilizarmos. Acredito. Acredito porque não tenho sido mais capaz de respirar profundo sem as córneas enxergarem por detrás de muita água. E nem preciso estar pensando em algo triste: basta tentar respirar profundo e tudo transborda pra fora. É como que um defeito adquirido com o passar dos anos - agora faz parte.
Então respiro curto. A respiração de quando algo dói mas você finge que não. Meio que nem quando a gente pisa descalça numa farpa e passa a dar passos curtinhos em pulinhos ridículos, fingindo que isso não causará pressão inevitável no passo seguinte em que o peso do existir fará a farpa entrar mais fundo. A doer mais inconvenientemente ainda. É assim que eu respiro.
Como quem manca e não pode tirar as farpas das solas dos próprios pés. Respiro como quem manca. E ando como quem respira fundo. Com passos resolutos pra fingir pro mundo que eu dominei esse lugar. Que eu aprendi a abraçar a malícia e a deixar de vez a inocência só para crianças. Que eu sou uma adulta de sucesso - maliciosa, fingidora, incapaz de ser enganada, incrédula de tudo e imperceptivelmente infeliz.
Às vezes eu finjo bem que sou essa adulta cínica. Mas eu jamais serei bem sucedida nessa tarefa: porque cá estou eu! De volta à escrita, mesmo me sentindo ridícula. Porque por dentro eu sempre vou acreditar naquilo que talvez eu nunca tenha tido, nunca tenha visto, nunca tenha estado. E essa teimosia de existir exatamente desse jeito vai continuar cobrando juros cada vez maiores - nunca foi diferente durante esses anos todos. Eu sinceramente não sei dizer mais se adaptabilidade é inteligente ou profana.
Talvez seja as duas ao mesmo tempo e sobreviver seja mesmo uma tarefa profana. Custosa.
Nunca ter achado de verdade o meu lugar até hoje me faz ponderar que talvez seja mesmo essa construção toda que eu fiz: não existia um lugar que eu coubesse e então eu venho construindo um que talvez eu caiba. Mas sempre imaginei que ele seria habitado por mais alguns além de mim. Mas talvez seja um planeta só meu. Seja uma galáxia só minha.
Seja um espaço inacabado onde essas e futuras palavras voem como poeira de estrelas em escuridão infinita. Até tudo explodir e acabar. No mesmo silêncio de um universo onde o som não pode se propagar. E todas as explosões e buracos negros estrondosos aconteçam sem fazer barulho.
Eu sou esse espaço inacabado onde habito. Com todas as explosões mudas minhas. Em que o som não se propaga pra fora. Ninguém percebe. Um sistema todo foi sugado de mim e morreu. Mas não há barulho, nem grito, nem nada que não sejam manchas brancas e enevoadas que não existem mais.
Tão dramático e trágico que soa patético. Tão verdadeiro e bem dimensionado quanto só eu saberei. E balançarei a cabeça aos outros dizendo que estou super dimensionando quando algumas lágrimas explodirem quando não deveriam: "não é nada" repetirei. Como tantas vezes. Quem sabe até darei uma sonora gargalhada para despreocupar quem nunca entenderá. Ou brigarei pelo meu espaço. Expulsarei plateias inconvenientes. Mas nunca estarei super dimensionando o indizível e essa é a minha tragédia individual e silenciosa que ocupa de escuridão qualquer espaço. Mentirei e não contarei do que se trata, direi qualquer outra coisa. E essas mentiras tristes ainda serão muito menores do que a verdadeira razão assombrosa. É o meu próprio segredo.
Tudo é sobre escuridão e explosões mudas. Tudo é sobre uma gargalhada sonora que disfarça uma tragédia incalculável. Tudo é uma respiração manca como se estivesse acabando o cilindro do oxigênio que me permite brincar de respirar por aqui - e logo eu tivesse que voltar pra um planeta que não é esse. Tudo é uma atuação em que piso no palco como quem respira fundo e cumpre o papel que esperam dela nesse interminável teatro raso. Mas eu nunca poderei me enganar que sou um infinito buraco negro brincando de ser humano. Por que insisto eu em ficar?
Talvez porque existam sonhos extraviados. Perdidos em qualquer canto do mundo. E eu tenha me tornado obcecada em provar pra mim mesma que eles existem e estão por aí... andando em duas pernas. Procurando. Como eu. Respirando raso enquanto calcula o tempo restante do cilindro de oxigênio: persistir só mais um pouco, só mais um pouco... mais um pouquinho.
Resistir realmente foi um destino improvável pra quem aqui começou a escrever em 2006. E quem era apaixonada pelo improvável se viu foi só querendo voltar pra casa. Se é que esse lar realmente exista.
E se ele existir se chamará: la verità.

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