Wednesday, February 15, 2006

Olhos-moídos, olhos-pó - breve história de um café melado com sabor amargo

Um copo de café.
Parece inocente né?
Ponto de ônibus. Dez e meia da manhã. Perto da Paulista.
Um copo descartável com café voou do nada na minha direção. A surpresa me imobilizou enquanto o líquido escuro e melado escorria na minha blusa e no meu cabelo.
Logo em seguida uma voz insana gritando absurdos e impropérios sem parar. E a voz estridente não parava de acusar: a minha “raça” era maldita, eu era o demônio, eu merecia mais do que isso, a minha cor me condenava.
Só consegui ouvir isso. Depois minha mente entrou em estado adormecido e eu só pude ouvir o homem ao meu lado no ponto dizer:
- Que filha da puta! Louca maldita...
Depois algumas pessoas ficaram a minha volta em posição de guarda-costas e eu fui até o banheiro de uma lojinha próxima tentar remediar o estrago.
Olhei pro espelho na minha frente.
O cabelo ainda meio molhado do banho que tomara antes de sair de casa agora estava também meio grudento (vejam que ironia... o café era doce, doce... apesar de eu só sentir um gosto forte e amargo). O pescoço melado exalava o cheiro do perfume misturado com o aroma de café. E eu que gostava do cheiro de café, agora não estava mais suportando aquele aroma impregnado em mim.
A blusa... essa já não tinha mais jeito. Mas o pior de todos os estragos estava nos olhos daquele reflexo no espelho. Pareciam dois grãos escuros moídos que estavam prestes a se dissolver com a iminência de água quente que começava a brotar... e eu não tinha coador para impedir a dissolução de meus olhos-moídos, de meus olhos-pó.
Ainda que tivesse um coador, depois da água escorrida, o pó que restava não tinha mais salvação.
Medo, raiva e tristeza se misturaram num coquetel cruel para o começo de um dia.
Saí do banheiro segurando o choro. A pele melada e o cheiro ainda continuavam. A dona da voz tinha sumido. Nunca torci tanto para que um ônibus chegasse logo.
Antes tivessem me atirado um tijolo na cabeça...
Antes a dor física de uma cabeça moída em pedaços do que os olhos transformados em pó. Não dizem que os olhos são as janelas da alma?

3 comentários:

Anonymous said...

Alt essa doeu heim =/
q porre heim...
será q foi o sonho de vendedor de churrascos q inspirou esse acontecimento gastronomico de comidas de rua? hauahuahua
to zuando ...
a garota dos olhos cor de café =)
=*** te adoro muito moça

Anonymous said...

ô, meu xuxu...
não fica assim não... ela é louca. ela fala o que quer. Ela deve ter tido algum trauma. Não que vc seja a culpada, mas quem vai entender? Um dia eu deixo vc atirar um copo de café em mim, tá bom? =D

Te amo, xuxu..
Precisava de vc aqui... e que todas as pessoas tivessem a nossa amizade.

Bjinhos

Marcelo said...

Se foi uma velhinha mendiga que fez isso, eu sei quem é. Como a odeio. Ponto um: Sempre existe uma regra. A minha é "jamais bater boca na rua, jamais perder a calma por futilidades". Ponto dois: Toda a regra tem uma exceção. Eu xinguei e gritei com essa criatura, com toda a força que meus pulmões permitiam.