Monday, February 13, 2006

Reflexo(es) de uma estranha


Veja você: vez ou outra pego-me discordando de minhas próprias conclusões, teorias e afirmações.
Talvez seja a prova do quanto não sou imutável. Vivo reciclando-me mesmo não sendo esse fenômeno uma ação consciente. Pena que essas metamorfoses me pregam sustos quando a garota que me olha do outro lado do espelho me parece totalmente desconhecida...
Sabe quando a gente fica um tempão sem ver uma pessoa e de repente quando encontra com ela de novo tem a sensação de estar vendo uma completamente diferente? Pois é... acho que faz muito tempo que eu não me via e quando dei por mim já não conseguia olhar para o espelho sem uma cara de interrogação.
Mas eu estou achando realmente que a culpa não é só da ausência de mim mesma durante um tempo... acho também que o ritmo das metamorfoses estão realmente meio frenéticas...
Chego a me comparar com Gregor Samsa no Capítulo I da obra de Kafka ao acordar e descobrir-se inseto com inúmeras patas. A diferença é que apesar de se descobrir inseto não ser uma coisa muito agradável, pior é descobrir-se gato num dia, rato noutro, borboleta livre e no dia seguinte pássaro engaiolado. E é assim que eu estou nos últimos dias...
Peixe fora d’água... borboleta no aquário...
Por exemplo... não faz muito tempo, a Teoria dos Calos era realmente algo em que eu acreditava. AcreditAVA... 1ª pessoa do Pretérito Imperfeito do modo Indicativo. Eu era a 1ª pessoa, e o modo indicava que eu era imperfeita.

"Na insensibilidade futura ela depositava a sua esperança"

Foi exatamente assim que terminei meu rascunho de tese. Agora que a leio... tenho que me esforçar para acreditar que fui eu mesma quem escreveu isto! Absurdo!
Olho para o espelho na minha frente e acuso: Ridícula!
Ninguém gosta de sentir dor. Não é algo dos mais agradáveis... Mas insensibilidade como esperança! Meu Deus! Onde eu estava com a cabeça? Não era eu! Nunca foi!
O que seria da humanidade se todos começassem a ter calos? Se todos fossem insensíveis? Se ninguém conhecesse a dor, o que seria do famoso: “não faça com os outros aquilo que você não quer que seja feito com você”?
Apesar de nunca ter alcançado a “salvação” de minha própria teoria, vejo que muitos já estão calejados sem nem ao menos estarem conscientes disso.
Estão mortos. Insensíveis.
Apostar nos calos como solução é uma atitude covarde, de quem quer tudo sem sofrer nada. É como querer comer montanhas de chocolate sem engordar; chupar manga sem ficar com fiapos nos dentes; andar descalço sem sujar os pés...
Eu sinto. Eu sofro. Eu não tenho calos.
Seria mais fácil se os tivesse, mas pensando melhor agora, prefiro viver intensamente as quedas e o esforço do reerguimento do que andar nas pontas dos pés, olhar pra trás e não enxergar minhas próprias pegadas.
Prefiro um cotovelo ralado e um joelho estourado do que um corpo sem marcas, sem lembranças e sem histórias.
“É preciso suportar as larvas se quiser conhecer as borboletas”
(O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry)
(...)

Uma onda não é uma onda porque movimenta coisas, mas porque rompe a tranquilidade das águas. E o espelho era um espelho quebrado não porque estava em cacos, mas porque revelava uma imagem despedaçada.
...
E nos últimos tempos eu estou em alegria desenfreada. Alguém me explica o que é isso por favor? Deve ser uma espécie de reação às metamorfoses frenéticas igual quando a gente grita pra dor passar mais rápido. Rir talvez seja um mecanismo de defesa contra a loucura que transformações descontroladas podem causar.
Eu disse talvez.
Só sei que nada sei.
Já dizia meu velho amigo Sócrates...

Ouvindo: Loser Like Me - Sixpence None The Richer

4 comentários:

Anonymous said...

oie =)
"Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos"

eu nunca descobri quem sou eu exatamente,e foi uma garota quem me mostrou muito de quem eu realmente sou,sei q comecei a me perguntar sobre quem eu sou tardiamente ...mas será q o melhor é saber?
isso eu tbm já não sei mais sabia?
Descobri nessas férias q os calos da minha mão sumiram.... mas continuo sofrendo com eles. não os q quase já não se veem na minha mãe e sim os q ficaram na memória.
=**** te adoro muito dani

Anonymous said...

Ai, menina, esse seu texto me pegou de surpresa, pq mescla existencialismo e aquele velho dileme: se jogar de cabeça e se machucar ou ser cauteloso e viver em banho-maria? Ahhh, eu sempre fui da opinião de que devemos aproveitar tudo até o final, sem medo de sofrer, pq se vai acabar, que pelo menos a gente tenha aproveitado e tenha lembranças e histórias pra contar. Mas certas coisas provocam uma dor tão intensa que é melhor não querer passar por elas de novo, e o medo de que isso aconteça acaba sendo maior do que a vontade de aproveitar, não é? Ai, ai....
Andamos fazendo muita filosofia barata, né? Hahahaha... ninguém mereceser louca e sensível que nem a gente... hahaha...

Mas as coisas não necessariamente fazem parte da lei de Ação e Reação daquele maldito físico, viu?! Estamos felizes sim, e daí? Não quer dizer que vai acabar... Como a gente é pessimista! Hahahahaha..
te amo muitão, dona moça!
Bjinhos
e obrigada pela conversa ontem!

Anonymous said...

vc ta escutando mais sixpence doq eu!!! ...como isso ? XD hauahuahau ...
conhece "melody of you" ?
=*** te adoro muito garota

Marcelo said...

Eu não disse? Não disse que ao invés de uma salvação, o calo era um câncer?

E estamos duas semanas após aquele adeus galático - embora na verdade eu estaja em 24/01/2008. Alterações frenéticas no humor são normais. Mas veja bem: quanto mais rápida e radical for a mudança, mais fácil de se retornar ao "status quo". A verdadeira mudança se dá aos poucos, sem ser sentida.