
Ditado.
A menina que passeava numa tarde de sol. A voz que acabava de ditar a frase, instruía um “ponto final, dois dedinhos, na outra linha”.
Dois dedinhos, dois dedinhos, dois dedinhos.
Metia os dois dedos pequenininhos na folha, exatamente no cantinho da linha, com a mão na mesma posição da antiga resposta de “dois aninhos” que respondia com o gesto há três anos atrás. Só que esses “dois aninhos” eram bem grudados para que a medida tivesse o exato espaço dos dois dedinhos.
Nessa tarefa em zelar pela instrução professoral, gastava tempo a mais e perdia-se entre as novas frases ditas. Começou a esforçar-se para escrever mais rápido a ponto de não se perder e poder continuar a medir os dois dedos no começo da frase.
Um dia surgiu a dúvida. A preocupação traz o cuidado e a atenção aos pequenos detalhes:
- “Mas tia, você falou que são dois dedinhos antes de começar a frase na outra linha. É o espaço de dois dedinhos do tamanho dos seus ou dos meus?”.
Os adultos quando ficam acostumados com a vida, começam a classificar as preocupações em níveis de importância. A professora sorriu e pronunciou um “tanto faz”.
A indiferença pela questão tão importante quebrou o encanto todo. O que antes era prioridade, agora assim, tão indiferente na voz alheia, virou coceira incômoda, daquelas que coçam na alma e não tem unha que alivie.
Continuou a medir os dois dedos teimosamente, mas o tempo tratou de instigar o uso da intuição regada a desmazelos. Cada início de frase agora tinha um tamanho diferente e esquisito. Era feio, era torto, mas não devia ser tão importante mesmo...
“ponto final, parágrafo, na outra linha”
Um dia a professora disse. Tinha nome de coisa importante. Mas geralmente esses nomes complicados só serviam pra disfarçar coisas desimportantes e enganar ouvidos ingênuos.
Agora, só trazia o costume de manter dois dedos grudados de canto, ansiosos, enquanto escrevia.
2 comentários:
Ai, a cada dia que passa eu acho seus textos mais legais.
Parágrafo. Vire a página. Comece uma outra coisa, com um nome diferente e grave, para fazer de conta que é novo.
Mas no final, são sempre dois dedinhos no canto da página.
Vamos reformular o retratos? Ele ta parecendo casamento antigo....
Beijão, maninha..!
Como as simplificações desencantam o mundo, não?
Beijão! Gostei!
Post a Comment