
Rebeca mordia o lápis preto. Descontava nas mandíbulas a ansiedade silenciosa e terminava por ficar com alguns pontos pretos no sorriso. As lascas da cobertura do lápis agarravam-se aos dentes que sorriam aberto sem saber dos pontinhos que pareciam sarampo de cárie.
Ela era a cópia de qualquer original que aparecesse. Era um mosaico de manias alheias. Era uma esponja seca que absorvia trejeitos dos que estavam em torno.
Ela era a cópia de qualquer original que aparecesse. Era um mosaico de manias alheias. Era uma esponja seca que absorvia trejeitos dos que estavam em torno.
Andava com passos que não eram seus, sorria o sorriso da recepcionista e cantava com a voz dos que se calavam. Gostava do chiado dos grãos de arroz secos quando caíam no escorredor prontos para serem lavados, e assim cozinhava mais arroz do que o necessário.
Rebeca era a sombra projetada de alguma forma ideal que tinha ficado no Mundo das Idéias. Ela era a que ousava respirar, mas que o fazia com extrema discrição. O ato de fazer entrar e sair ar de seus pulmões não era tarefa confiada ao inconsciente mecânico. Ela respirava cuidadosamente como quem é eternamente arrependida de roubar algo para si.
Os passos de Rebeca não eram nunca arrastados. Não gostava de deixar pegadas, nem de fazer barulho com o salto do tamanco no chão de tacos. Andava então com a ridicularidade das marchas do exército e a delicadeza de uma libélula, como quem pede perdão por pisar no chão nas pontas dos dedos.
Ela não desejava nada. Talvez porque achasse que os desejos cabiam somente àqueles que mereciam desejar. O único desejo que reservava para si era o de não ser.
Desapercebimento.
Queria não ser. Queria passar batido, sem bater na cara de ninguém e nem ser alvo de qualquer tipo de olhar. Era antropofóbica crônica. Era anginofóbica também, o que fazia seus almoços durarem horas. Contava 30 mastigadas e engolia cuidadosamente a comida. Tinha tantos medos, que conhecia todos os tipos de fobia mais do que qualquer especialista. Sabia o que era cataptrofobia, lissofobia, mas desconhecia completamente a autofobia.
Era imune.
Era o tempo todo tentando não ser, e só compartilhava do segredo de existir consigo mesma. Cochichava em seu próprio ouvido através dos pensamentos e vivia tentando ser um camaleão, como quem assiste o mundo girar de camarote no mais alto da arquibancada sem levar chute na canela ou rasteiras violentas no meio-de-campo.
Um dia Rebeca andava pela Avenida Paulista. A movimentação e o rebanho humano enquadrado por arranha-céus exorbitantes a faziam sentir-se invisível de tão pequena no meio do cenário gigantesco. Era a liberdade. A invisibilidade total.
E então aconteceu.
Caminhando do lado oposto da calçada, um homem. Os anos como espectadora da vida alheia a si fizeram Rebeca perceber algo que não sabia definir naquela figura que caminhava e prendia sua atenção a ela. Ainda era uma forma sem rosto. Podia ver o pôr-do-sol da tarde por detrás delineando a figura daquele ser misterioso. O andar compassado e firme, tão diferente do seu andar tateante e titubeante mostrava que tinha orgulho em marcar bem seus passos. Ele todo transpirava magnetismo.
Era o seu oposto.
O ar confiante, os óculos escuros, a jaqueta cor de cáqui. Ele andava como quem já nascera sabendo andar. Ele aparentava já ter a vocação para a vida que parecia não requerer ofício nenhum, mas Rebeca sabia ser tão primorosa e complexa que a fazia desejar não ser.
O ar confiante, os óculos escuros, a jaqueta cor de cáqui. Ele andava como quem já nascera sabendo andar. Ele aparentava já ter a vocação para a vida que parecia não requerer ofício nenhum, mas Rebeca sabia ser tão primorosa e complexa que a fazia desejar não ser.
O homem continuou andando sempre olhando para o seu horizonte que era a imagem do retrovisor de Rebeca - se ela tivesse um e se não fosse pedestre. O horizonte de Rebeca: o passado longínquo do homem. Se cruzaram em seus fluxos contrários na calçada.
E tudo foi em questão de milésimos de segundo que duraram uma eternidade.
E tudo foi em questão de milésimos de segundo que duraram uma eternidade.
Ele olhou para o lado, na direção de Rebeca, notando sua presença até então nunca percebida.
Rebeca degustou seu coração palpitante e tentava engoli-lo enquanto o pânico de ser percebida tomava conta de todos os seus nervos.
Desviou o olhar para o chão como era costume e então enxergou.
Rebeca degustou seu coração palpitante e tentava engoli-lo enquanto o pânico de ser percebida tomava conta de todos os seus nervos.
Desviou o olhar para o chão como era costume e então enxergou.
Uma bengala.
Era cego.
"Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara." (Saramago – Ensaio sobre a Cegueira)
"Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara." (Saramago – Ensaio sobre a Cegueira)
3 comentários:
Saramago! Um parênteses bem grande para dizer o quanto gosto desse livro, um dos fundamentais na minha vida.
É engraçado como mesmo nas nossas vidas nós temos esses momentos de personagens planas como a Rebeca. E de repente, num momento de epifania, descolamo-nos do papel para perceber alguma coisa dentro de nós. Enxergar é o ato mais fundamental que praticamos todos os dias, mas isso não significa necessariamente que enxergamos de verdade, que percebemos o que acontece ao nosso redor. Fora preciso uma bengala e um par de óculos escuros distantes da nossa realidade para que pudéssemos compreender a nossa própria deficiência.
Em suma, amei! =)
Beijões e keep writing!
PS: yes! Ganhei até um linkzinho no seu blog! Eu juro que se fosse mais cuidadoso com o meu eu linkava o seu também, masss... Hahaha!
muito..muito lindo
eu to louco para ler esse livro
bjs
Seu livro sai quando?
Vc tem evoluido absurdamente, Dan. *Fã incondicional.
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