Era um gatinho mirrado, da carinha amassada e de olhinhos pequenos. Tinha aparecido na porta de casa com patinhas esquálidas, o pêlo sujo e a cauda inquieta. Era engraçadinho. Tão miúdo, inspirava grandeza de leões e mesmo quase raquítico, tinha a agitação de tigres.Entre os arranhões de um gato e as lambidas afáveis de um cachorrinho, meu riso sempre ecoou mais nos latidos e peraltices caninas. Mas aquele gatinho ganhou um sorriso, um afago e alguns minutos gastos de conversa. Eu falava e ele me olhava com seus olhinhos de vidro verde atentos e de vez em quando mexia as orelhinhas em resposta.
Sempre me disseram que gatos são traiçoeiros. Chegavam sempre com aquele ar de fragilidade e a gente logo achava que eram sensíveis e precisavam de cuidados. Nos faziam querer abraçá-los e nos conquistavam em minutos, para depois nos arranhar o pescoço e sumirem em alguma viela na rua escura, ou debaixo de qualquer carro estacionado ao meio-fio.
O gatinho continuava a ouvir-me, sentadinho que até parecia querer dizer-me com os olhos que era apenas um gatinho de rua que entendia de revirar lixos e conquistar alguma tigela de leite de vez em quando. Fiz mais um afago na sua cabecinha triangular, brinquei um pouquinho com seu bigode e voltei para casa.
Nos três dias seguintes eu o encontrava na rua e repetia o ritual das brincadeiras e de uma conversinha rápida. Falei com ele sobre a saga dos Buendía que lia nas páginas amareladas do livro que comprara no sebo, comentei sobre a crise mundial financeira e sobre o final de semana regado a tequila e ressacas da manhã seguinte.
Um dia ele sumiu. Em alguma viela estreita, ou talvez estivesse dormindo quentinho embaixo do motor de algum carro recém-estacionado. Era previsível.
Passados dois meses topei com ele no quintal de casa. Talvez fosse outro gatinho, mas percebia-se que era o mesmo miudinho que aspirava a leão. Olhei-o de soslaio como se não o reconhecesse e ele andou pulando alegrinho em minha direção, a falar-me de miados, brigas de rua e telhados alheios. E ficou desta vez.
Dei-lhe uma tigela de leite, arranjei-lhe uma caminha improvisada cheia de almofadas fofinhas e até um arranhador para que afiasse as garrinhas. E ele ficou por três dias. E depois sumiu. Em alguma viela estreita ou debaixo de algum carro parado ao meio-fio. Longe da minha suposição apressada de que precisava de cuidados.
E eu que tinha planos e alguns pacotes de Whiskas no porta-malas do carro, prometi que nunca mais me deixaria afetar por um par de olhinhos de vidro fragilmente pretensiosos.
A fragilidade sempre me desperta uma ternura demasiada.
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2 comentários:
É, já encontrei um desses.
Mas sempre me arranhava e dizia que era sem querer. Será por isso que sou tão desconfiado?
Bejoss
Ficou viciado em maconha de gato, saia brigando nas ruas e teve filhos com cada gata da vizinhança. Eis o desfecho cruel do nosso anti-herói.
(ok, eu sei que o post é sério e talz, mas não pûde me furtar de fazer um comentário estúpido! ;)
Beijos!
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