Monday, December 22, 2008

Em primeiríssima pessoa

E ... o que tem pra hoje sou eu. Eu que nunca escrevi nesse espaço assim de cara lavada em primeiríssima pessoa como quem escreve um e-mail prum amigo camarada ou faz confissões num bar em meio a cervejas e chopps com groselha. É que eu tô meio cansada de tanto lirismo e tanta profundidade. De verdade... to achando que estou chata demais me levando assim tão a sério. Tem dias que a gente tem que dar uma brecha, uma folga, umas férias da gente.

E essa leva de anônimos me fez pensar o quanto eu mesma tenho sido anônima no meu próprio espaço. Muita gente acha que me conhece por me ler, mas são apenas algumas idéias expostas em vitrine de uma tela virtual. O que escrevo aqui não é imparcial, e penso que a gente só conhece mesmo no espontâneo das coisas ditas. Aqui eu escrevo, reescrevo, não digo várias coisas que diria, ou escrevo coisas que na espontaneidade, sairiam ditas de outra forma.

Eu não sei bem o porquê, mas desde pequena eu tenho uma tendência a ser estranha demais. E uma das tendências estranhas é essa coisa de ter uns pensamentos bizarros dentro da minha cabeça que não são compartilháveis de pronto, assim na lata. E antes de eu tentar arriscar umas frases metafóricas e blá-blá-blá; antes deu descobrir o hobbie de rabiscar a minha mente no papel, eu vivia como aquela típica criança que classificamos como absorta (ou “de-lua”).
Enquanto priminhos corriam, se melecavam de ranho ou escalavam as estantes da sala, lá estava eu com o inseparável “para gostar de ler” e todos os livros da “série Vaga-Lume”. A ovelha-negra da família. Eu rendia algumas graças aos domingos passados na casa da avó.

A graça era nos dias em que eu estava sociável, ou nos dias em que eu botava os pensamentos bizarros boca a fora. E ninguém entendia, ou gastava um grande tempo pra decifrar o que eu dizia. Porque eu vomitava palavras umas atrás das outras. Falava rápido demais. Madrinha ria. Mãe dava aquele sorriso de toda mãe abobada com sua cria. E a minha forma de falar ganhava mais foco de atenção do que a própria mensagem que eu queria transmitir. Eu ria junto de qualquer forma, satisfeita mais por ter dito do que pela compreensão dos meus ouvintes. Talvez a coisa se repita um pouco aqui.

Posso dizer que não fui aquela criança pentelha de revirar os móveis da casa, mas minhas peraltices eram mais fortes na criatividade que a minha imaginação deixava correr solta. Desde inventar uma forma de transporte no barril de plástico da minha vó ladeira abaixo, inventar enredos dos teatrinhos que eu adorava dirigir nos eventos familiares e as improvisações de carrinhos de rolimã (que eu sempre quis ter) com o skate do meu primo. O melhor de tudo eram as “cabaninhas” que eu criava com a minha irmã nas cobertas quando minha mãe brigava com a gente. Então era se enfiar embaixo do lençol e parecia que era um mundo à parte. Todas as brigas e perturbações ficavam do lado de fora do lençol, e a gente ria com besteirinhas, cantávamos e confidenciávamos segredinhos da infância. Era uma realidade mais leve. Logo começava a ficar abafado.

Nenhum mundo à parte dura por muito tempo sem sufocar. Mas até hoje quando eu quero sair dessa realidade chata, puxo o lençol até a cabeça e fico embaixo das cobertas no meu mundo à parte. E espero até meus próprios pensamentos sufocarem, até minha mania boba me render um riso e então volto ao mundo faltando ar, mas feliz da vida.


Imbecilidades necessárias. E eu tenho várias...

2 comentários:

Anonymous said...

Ah, não é uma leva de anônimos! É um que se repete...

Marcela Brunelli said...

Olha.. eu concordo com você. Eu preciso de imbecilidades, de fantasias, de fugas, de expontaneidade. Coisas que me faltam nesses dias de filosofias baratas e pensamentos rebuscados.

Meu cobertor me sufoca tanto quanto meus pensamentos, quando faço a minha cabana salvadora. Qual será mais pesado?

Saudades a lot!
=*