Monday, August 10, 2009

O mendigo do girassol

Andava pelo Vale do Anhangabaú quando vi o mendigo e o vaso com um bonito girassol em suas mãos. Ele estava de pé todo garboso como se fosse uma estátua importante de algum duque dos girassóis. Olhava sempre para frente como se enxergasse alguma coisa invisível para os olhos dos outros. Ereto e firme, trazia ao redor dos pés descalços alguns trapos de mantas sujas que deveriam ser sua cama nas noites paulistanas e nos quais o mendigo permanecia de pé como se fosse um carpete vermelho hollywoodiano.

O sol das dez da manhã desenhava artes de sombras dos edifícios no chão e focava como um holofote natural o mendigo do girassol. Pernas andavam apressadas sapateando os segundos preciosos dos tempos escassos. O mendigo impassível não olhava ninguém e ninguém olhava o mendigo.

Aproximei-me receando que a curiosidade cobrasse um alto preço, mas antes ver de perto o mendigo do girassol do que seguir caminho como quem passa por onde não olha, não vê e não enxerga.

À minha presença, ele virou suavemente a cabeça com os cabelos em nó. Aposto que os grandes reis de épocas distantes teriam os mesmos meneios de cabeça e de olhares. Seu cheiro ardia minhas narinas para que me doesse também a sua pobreza, mas ele não inspirava pena, fraqueza ou qualquer sentimento de compaixão.

Devemos ter ficado nos encarando durante segundos que pareceram eternos. Ele então esticou os braços retos e firmes na minha direção e eu olhei para o girassol e para aquele amarelo em pétalas. Obedecendo ao gesto como uma ordem, segurei o vaso com as duas mãos e imediatamente o mendigo deu um passo atrás voltando à sua posição ereta de soldado e recolocando seu olhar no mesmo ponto longínquo de antes. Permaneci parado com meu terno, minha gravata e minha presença ignorada pelo mendigo do girassol. Devia ser assim que os súditos sentiam-se depois da última palavra do rei e do silêncio seqüencial que nada explicava: apenas aguardava a retirada do Palácio Real. Encabulado, também eu, já súdito do mendigo do girassol, retirei-me de sua presença, enquanto austero, ele permanecia de pé sem lançar-me olhar.

Cheguei ao trabalho naquela manhã com o girassol mais bonito que alguém haveria de ver na vida. Passei a regar-lhe e a cuidar de seu crescimento. Adubava a terra e o deixava ao sol durante algumas horas todos os dias. Na manhã seguinte ao encontro com o mendigo do girassol, procurei-o encorajado a solucionar o mistério, mas não o encontrei. Nunca mais o vi, nem nos 29 dias seguintes em que passei pelo local correndo meus olhos à procura dele. Por que o mendigo tinha um vaso de girassol em mãos nunca se saberá, e é preciso conformar-nos com isso como nos conformamos com a vida.

O girassol parece-me que é mágico. Está comigo há mais de sete anos e nunca houve tempo em que não estivesse florido com seu grande miolo marrom-sujo rodeado pela luz amarela das pétalas em ciranda. Parece até uma metáfora vegetal daquele mendigo sujo de pé em meio ao holofote de raios solares das dez da manhã.

Isso, se metáforas vegetais existissem.

4 comentários:

João Francisco A. Enomoto said...

Quem conta um conto, aumenta um ponto. Ponto pra você, pelo lindo conto! ;)

Não precisa ser mendigo para entregar o girassol absurdo e tampouco ser girassol pra fazer a nossa vida melhor.

Beijões Dani!

Fabio Machado said...

Daniela,
Uma amiga leu seu comentário no meu blog sobre o pseudo-cafa e disse que eu tenho que casar com você ! hahahaha

Me perguntou quem você era e eu disse que você era uma moça desconhecida que tinha "linkado" meu blog (foi ela inclusive que descobriu isso no Google), mas que eu não sabia nada sobre você. Aí hoje eu fui ver o seu perfil do Blogger e fiquei IMPRESSIONADO com a sua idade ! Eu sabia que você era mais nova que eu pela foto, mas com o formato e principalmente o conteúdo dos seus textos não dá pra acreditar que tenha 23 anos ?!?!? Que mente ocupadíssima !

O chá-verde oriental faz maravilhas mesmo... rs

victor pompêo said...

De uma poesia inacreditável.

Alberto K. said...

Isso me faz lembrar do que me motivou a escrever o texto sobre o senhor embriagado no ponto de ônibus... Foi algo diferente, quase surreal.

Incrível. Acho que tem alguém por aqui que não perde o jeito para a coisa mesmo, hem.