
Era o único momento em que se permitia ser guiada. Ela sabia que o sucesso da coreografia improvisada dependia da sua sensibilidade em antever o próximo passo a ser dado, de acompanhá-lo e de certo modo, de entregar-se à confiança na decisão do outro. Na dança, se há divergência não há beleza: a música não espera e a sintonia inexistente anula qualquer seqüência. Se um vai para um lado e o outro para o oposto, nada acontece. A dança é construção e cooperação conjunta. É um estar sensível em relação ao outro para manter a harmonia sem palavras. De certo modo é mais ou menos isso que deveria acontecer no amor. A gente aceitar ser tirada para uma dança e oferecer a mão. Aceitar que ele seja nosso guia em alguns momentos, rodopiarmos e tê-los como apoio. Na dança confia-se e segue-se as sugestões de cada gesto. Existe um esforço mútuo de perceber o outro e de fazer dar certo enquanto a música acontecer. Os dois seguindo na mesma direção, no mesmo ritmo, em uma só sintonia. Mas a diferença é que no amor a gente quer a dança de uma vida inteira. E também o fato de que uma decepção dói muito mais do que um pisão no pé.
1 comentários:
Tem tantas coisas em comum que a gente acaba se assustando. Deixar ser guiada, se colocar na mão de uma pessoa e, de certo modo, saber que ela depende de vc tb para que alguma coisa aconteça, e tudo mais o que isso pode trazer, faz com que a dança seja mais um jeito filosófico de se traduzir o amor. E a confiança continua sendo a base dos dois.
Ótimo texto, amiga. Saudades!
Bjinhos
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