Monday, October 25, 2010

Mentira Poética


imagem via: gettyimages

Numa conversa, sentimentalismo afetado é como o clichê redundante: irritante. É preciso tomar cuidado. Já a praticidade óbvia tira todo e qualquer tesão. É o cúmulo da banalidade. Resultado talvez de uma vida sem imaginação, pobre, desnutrida de mentiras, de poesia. Gosto de conversar com quem foi um bom mentiroso poético. É sempre uma surpresa de definições simples que a gente nunca ousou imaginar: novo porque original, jamais afetado porque não clichê.

Mentira poética nasceu da insônia de ontem. Não uma teoria - porque minha falta de sono não buscava entender nada: tava mesmo é encharcada no ócio. Mentira poética foi praticamente um suspiro. Explico.

Mentiras poéticas são as que a gente aprende a contar pra explicar o que não entende. Aprende-se e exercita-se na infância. É mais ou menos como foram os Mitos. Na infância da nossa civilização, lá estava a mentira poética. Não a má-fé. Não a canalhice. Não o oportunismo. Era só a lacuna de mistério: fértil, arada, puro algodão molhado prum feijão.

A mentira poética exercita a imaginação, o sonho, o incrível. O céu tá assim porque caiu glitter do espaço. Tênis fica apertado pra gente poder ganhar outro no Natal. Água cai do céu porque a nuvem tá peneirando o ar. Bolha de sabão é o seu sopro aprisionado. Feio é só quando a gente fica meio desencontrado. A lua vai sumindo porque ela pisca em câmera lenta. Saudade é dente que cai e só assim que a gente sente falta.

Pipoca é flor do milho que não quis florescer
[e explodiu.

A mentira poética são as primeiras tarefas de brincar com as palavras, de ultrapassar o óbvio, o visível, o clichê. É a liberdade mais gostosa da mentira: não tem contra-indicação. Passatempo que pode preencher um caderninho de anotações todinho. Melhor que contar ovelhas pra conseguir dormir. Foi assim que eu, desde pequena vencia minhas batalhas contra a insônia há muitos anos atrás. Ontem ela ressurgiu mais forte do que nunca. Depois de muito revirar lençóis, chutar almofadas e inventar jingles patéticos, relembrei da antiga tática que nem tinha nome. Então comecei: ... água cai do céu porque a nuvem tá peneirando o ar, feio é só quando a gente fica meio desencontrado, bolha de sabão...
...
e dormi.
e no dia seguinte de manhã apanhava no ar com a caneta todas as que eu ainda conseguia me lembrar.


Essa li de um que deve ter sido um bom mentiroso poético na infância:
Amar é invasão,
só depois é que a gente tenta organizá-la em intimidade
.

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